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ABC da política e da economia para os tontos ‘radtrads’

Há no Brasil um grupo de católicos extremistas que defendem posições insanas em nome da Igreja Católica. São os ditos radtrads, sujeitos crentes na infalibilidade do catolicismo como fórmula mágica a resolver um sem-número de problemas. Basta submeter a política, a economia, a sociedade, as leis, o Estado e tutti quanti ao poder do clero romano e – vejam só – bingo! Estaremos livres de todos os problemas, aflições e dúvidas reinantes em nós mesmos e em nosso país. 

Por esse ideal, os radtrads enxergam o mundo e o Brasil de uma forma um tanto diferente das demais pessoas, grupos políticos e religiosos. Seus trejeitos argumentativos também decorrem da ideia de fazer da Igreja Católica – ou do que eles acreditam sê-la – algo no comando de todas as ações humanas. Para deixar claro: o autor deste humilde artigo é católico devoto e fervoroso, relativo conhecedor da doutrina da Igreja e leitor de bons intelectuais católicos. Não é a maior autoridade no assunto, mas certamente não dá palpite. 

Feito tal esclarecimento, estabeleço as principais visões dos radtrads dos temas anteriormente citados. As principais são: 

1) Antiliberalismo econômico; 

2) Antiamericanismo fervoroso; 

3) Culpabilização do protestantismo e da Inglaterra por todas as desgraças; 

4) Idealização da Espanha e da Rússia como modelos de cristandade; 

5) Ódio aos EUA e a Israel; 

Prometo ser o mais direto possível, mas a coisa é ampla e merece comentários igualmente amplos. Vamos lá. 

1) O liberalismo econômico é visto como incompatível com a doutrina católica, uma exploração dos mais fracos e responsável pela degradação moral e social. Apoiados em intelectuais de muito valor, como G. K. Chesterton e Hilaire Belloc, argumentam que o liberalismo é imoral e prejudicial aos mais pobres e apoiam o distributivismo como único modelo correto e moralmente aceito pela Igreja. 

Esse raciocínio contém uma série de equívocos. Primeiro que a liberdade dos mercados e da economia não é incompatível com a doutrina da Igreja. A Escola Austríaca apoia-se em São Tomás de Aquino e em muitos escolásticos espanhóis para indicar caminhos corretos na economia. Junto com a praxiologia, são as principais referências teóricas dos austríacos. Seriam São Tomás de Aquino e os escolásticos espanhóis todos uns hereges? Evidente que não. 

Quanto à questão do liberalismo ser nocivo aos pobres e aos mais necessitados, isso é história da carochinha mais falsa que nota de três reais. Dados da Heritage Foundation comprovam uma sentença de fácil constatação a qualquer observador médio: quanto mais liberdade econômica, melhor a qualidade de vida da população. Todos os dez países com índice de maior liberdade econômica possuem IDH alto ou muito alto. Em contrapartida, os dez países com menor liberdade econômica ou possuem IDH baixo, ou possuem IDH alto, mas com instabilidades políticas permanentes ou ditaduras sanguinárias que massacram seus povos. A liberdade do mercado garante concorrência entre empresários, o que faz não só os preços das mercadorias cair como aumenta os salários dos empregados. 

Deixar as pessoas empreenderem e obterem melhores empregos não tem nada de anticatólico. Anticatólico é promover políticas econômicas erradas e jogar na fome e na miséria povos inteiros por burrice e capricho. 

2) Radtrads gostam de lançar nos Estados Unidos todas as culpas possíveis pelas desgraças modernas. Isso tem um duplo ressentimento: os EUA são um país de maioria protestante e maior nação capitalista do mundo. Acusam o povo americano de ser individualista, ruim e desumano; o governo de ser imperialista e promotor da Nova Ordem Mundial e o país de impor o progressismo moral através de ONGs e empresas americanas. 

O povo americano possui laços comunitários fortíssimos, e não é mera coincidência com o fato de o autogoverno ser uma tradição do país. O povo americano é o que mais doa para instituições de caridade, mais gasta do seu tempo com serviços comunitários e que mais adota crianças órfãs. Os EUA reergueram a Europa e o Japão depois da Segunda Guerra Mundial através do plano Marshall e fizeram a mesma coisa com Coreia do Sul, Taiwan e ninguém mais ninguém menos que a China. Toda sorte de insultos ao país e ao povo para retratá-los como horríveis morais é pura balela. 

Quanto à NOM e ao imperialismo, novo equívoco. Os EUA não são o maior beneficiário da implementação de um governo mundial, mas a sua principal vítima. Banqueiros, investidores e tutti quanti compõe a elite fabiana ocidental, que bancam toda sorte de movimentos e governos antiamericanos. Grande parte dela mora nos EUA e tem influência no governo americano, mas sua aspiração não é americana; é justamente o oposto. A destruição da soberania americana é um grande sonho dos globalistas do CFR, think tank controlado pelos mesmos globalistas e que ditou por décadas a desastrada política externa americana ao Terceiro Mundo de apoiar a esquerda moderada frente à ameaça da extrema esquerda. Os conservadores americanos são nacionalistas e nutrem profundo desprezo por entidades como ONU, Banco Mundial e FMI. 

Ter conhecimento de tudo isso e continuar a lançar mão de acusações falsas com caretas de indignação contra os EUA é birra pura e simples. 

3) O protestantismo como vertente cristã é apontado pelos radtrads como raiz de todas as revoluções e desgraças no mundo, e a Inglaterra tem o combo de ter uma igreja estatal protestante, ser a terra das raízes do liberalismo e grande vitrine do capitalismo. Por isso, é também uma nação odiada por radtrads que enxergam na terra da rainha a raiz do anticatolicismo moderno. 

A Inglaterra pode hoje ser uma nação progressista, antiocidental, anticristã e secular, mas nem sempre foi assim. As ideias liberais inglesas diferem fortemente do dito liberalismo francês. A ideia do secularismo inglês surgiu após uma série de inconveniências, turbulências e instabilidades geradas pelo conflito entre católicos e protestantes. Nunca o secularismo ou o laicismo nasceram com a Inglaterra, que aliás é católica em sua origem. O conservadorismo britânico pode ter pontos incompatíveis com a nossa realidade – eu como conservador brasileiro jamais neguei isso; mas ele trouxe coisas positivas e pode ter pontos copiados sem problema algum. 

Quantos aos feitos ingleses, basta lembrar que o país foi expoente na campanha pela abolição da escravidão onde essa prática infame ainda existia. Os grandes baluartes do catolicismo latino-americano ainda mantinham o sistema escravocrata. É a Inglaterra tão ruim assim? 

4) No afã de demonizar nações que não rezam a cartilha tradicionalista radical, os radtrads têm suas nações queridas usando essa mesma régua. Rússia e Espanha são grandes exemplos de catolicismo e verdadeira cristandade para esse insano grupo. São para eles nações verdadeiramente católicas e civilizadas. 

Falso de novo. A Rússia não poderia ter sido a nação na qual floresceu o comunismo por mera coincidência. A corrupção é generalizada, os laços comunitários deficientes e a confiança entre os próprios cidadãos inexistente. A Rússia foi o primeiro país da história a legalizar o aborto. A desinformação e a mentira foram armas de guerra da antiga União Soviética e continuam a ser utilizadas pela atual ditadura de Vladimir Putin. O país é o grande fornecedor de armas e dinheiro a países e regimes antiamericanos e anticristãos. E como cereja do bolo a Rússia foi responsável pela explosão do tráfico de drogas na Europa através da máfia russa – basta ler o livro Red Cocaine: The Drugging of America and the West.  

A Espanha também não tem muita credibilidade para ser um grande baluarte do catolicismo. Por lá o aborto e as drogas foram legalizados, com um bônus de o país ser o maior consumidor de cocaína do continente. O número de ateus e agnósticos já supera o de católicos praticantes e o secularismo na Espanha é praticamente uma realidade – admitida até pelo então Papa Bento XVI em visita ao país. Não consigo enxergar nada na Espanha que a faça merecedora de ser exemplo ao Brasil. 

5) Se as nações do Terceiro Mundo são de maioria católica, se os radtrads têm verdadeira repugnância à direita política, então a consequência é o ódio gigantesco aos EUA e a Israel. Qualquer conservador que tenha simpatia por esses dois países é logo tachado de neocon – em uma descaracterização sem precedentes do sentido da palavra. No fundo esse ódio é pura inveja mal confessada, birra pela birra. O nacionalismo americano nada tem de anticatólico; figuras importantes da política e do judiciário americano como Bobby Jindal, Brett Kavanaugh e Clarence Thomas são católicos – e direitistas. 

É idiotice acreditar que o tradicionalismo distorcido e corrompido por ódio antiamericano e antiliberal dos radtrads possa ser levado a sério. Eu mesmo como católico sinto vergonha desse tipo de gente. Querer obrigar toda a população a viver e aceitar um determinado governo de viés religioso é balela, estupidez e insanidade. Longe de mim ser adepto do secularismo e do laicismo, mas as ideias políticas dessa gente são um pé no saco. Na prática seria nada mais que um totalitarismo. Seus adeptos são uns verdadeiros imbecis. 

Referências: 

1.https://www.institutoliberal.org.br/blog/o-antiliberalismo-economico-catolico-nao-faz-o-menor-sentido/ 

2.https://www.gazetadopovo.com.br/instituto-politeia/por-que-a-liberdade-economica-importa/ 

3.http://olavodecarvalho.org/debate-com-duguin-ii/ 

4.https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff09049828.htm 

5.https://exame.abril.com.br/mundo/espanha-e-o-pais-europeu-com-o-maior-consumo-de-cocaina-por-habitante/ 

6.https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/08/02/pela-primeira-vez-espanha-tem-mais-ateus-e-agnosticos-do-que-catolicos-praticantes.ghtml 

7.https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2010/11/101106_papaespanhars 

Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.