A perseguição aos homossexuais pelos governos socialistas (segunda parte)

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China

A China é um país com uma história extremamente interessante com relação à homossexualidade. Antes de 1840, a conduta homossexual era vista como algo normal, sem discriminação. Além disso, é investigada a ideia de que vários imperadores foram homossexuais[13]. Segundo o estudo de “Hinsch”, a oposição à homossexualidade não se estabeleceu fortemente na China até os séculos XIX e XX. Na antiga China, faz parte de sua cultura  a homossexualidade, tendo sido retratada como algo exemplar e aceitável. Por exemplo, na literatura da dinastia Ming, como Bian Er Chai (弁 而 釵 / 弁 而 钗). Escritos da dinastia Dinastia Song de Liu, declararam que a homossexualidade era tão comum quanto a orientação heterossexual no final do terceiro século.

Representação de dois jovens homossexuais durante o chá. Pintura em seda sobre um rolo. Dinastia Qing (Séculos XVII e XIX), no Instituto Kinsey, Bloomington, Indiana, Estados Unidos

É importante ressaltar que nem sempre a homossexualidade foi “bem-vinda” na China. Com a fundação da República Popular da China, em 1949, a prática homossexual tornou-se ilegal durante o regime socialista, e a tolerância da sociedade com relação à homossexualidade foi praticamente eliminada. O regime socialista perseguiu os homossexuais como nunca antes na história da China[14], especialmente na Revolução Cultural(1966-76) [15], movimento liderado pelo ditador chinês, Mao Tsé-Tung e pelo Partido Comunista. Além de esse movimento ter matado milhares de pessoas de fome, algo conhecido como Grande Fome Chinesa, ele também reprimiu fortemente os homossexuais.

Um homossexual chinês de 70 anos relata fatos interessantes sob o regime. O nome dele é “Ba Li”. Ba tinha 10 anos quando em 1949 fora instaurada por Mao Tsé-Tung a República Popular da China: “Cresci sob a bandeira vermelha. Achei e apoiei os ideais da República e do Partido Comunista. Éramos uma geração com fortes princípios políticos e eu um cidadão modelo”, detalhou em entrevista à Agência Efe. Ba foi um professor em um colégio em Pequim, porém, durante a Revolução Cultural, pela primeira vez ele foi detido em 1971, e enviado para um campo de reeducação por ser homossexual.[16]

Ba Li relata que foram três anos de submissão a trabalhos forçados, humilhações de guardas e dos próprios companheiros, em uma época que marcou profundamente sua vida: “”Minha mãe morreu quando estava no campo. Sempre pensei que não conseguiria suportar essa situação. Minha mulher fugiu com meu único filho e nunca mais soube deles.”[17] O governo socialista chinês considerava a homossexualidade uma “doença mental” e somente em 2001 (no século 21) é que foi retirada oficialmente a homossexualidade da lista de doenças mentais.[18]

Por fim, Ba Li diz: “As pessoas têm pouca informação, a censura e a discriminação existem, mas o país progrediu e isto significa que a vida tem sentido, uma sensação que me foi roubada durante muitos anos”.[19]

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Jiang Hua, o parceiro de Ba, acrescenta: “Se comparo minha situação com a que viveram os gays há 30 anos, me sinto livre. Mas ainda temos muitos buracos para ultrapassar.” Ele disse isso pois, na China o governo ainda reprime muito os homossexuais, já que a união de pessoas do mesmo sexo ainda não é permitida no país.[20]

Coreia do Norte  

Após a Segunda Guerra Mundial, a Coreia foi ocupada por dois países que continham ideias politicas totalmente diferentes, os Estados Unidos e a União Soviética. Ao longo do tempo o clima esquentou e uma guerra estourou em 1950, que ficou conhecida como a Guerra da Coreia e acabou dividindo o território em duas partes, Norte e Sul. A região do Norte ficou sob influência da URSS, adotando um regime politico socialista e economia planificada. A região do Sul permaneceu com os Estados Unidos, adotando um sistema politico democrático e uma economia capitalista.

Como na parte Norte o Estado é centralizador de grande poder, a liberdade do indivíduo é limitada [21], já que para eles “o coletivo é mais importante”. Sendo assim, o governo dita regras em nome do povo, configurando-se em um regime ditatorial. Neste país em que a homossexualidade é proibida, um relato interessante de um fugitivo homossexual da Coreia do Norte vai tomar espaço nesse artigo.

Jang Yeong-jin conseguiu fugir em 1997 pela fronteira mais vigiada do mundo, chegando no país vizinho e rival da Coreia do norte. Lá ele descobriu que era gay e se “libertou” no país dito capitalista: “Eu fiquei com vergonha de confessar que eu vim para cá (Coreia do Sul) porque não sentia atração sexual pela minha esposa”, disse Jang ao “New York Times”. “Eu não conseguia explicar o que me incomodava tanto, o que fazia a minha vida terrível na Coreia do Norte, porque eu não sabia até que cheguei aqui que eu era gay. Não sabia nem o que era homossexualidade“, acrescentou.[22]

Jang lançou um livro, chamado: A Mark of Red Honor, no qual narra o drama de ser homossexual em um país totalitário, capaz de afirmar que a “homossexualidade não existe porque os cidadãos do país vivem com mente sã e bons princípios morais”.[23]

“Na Coreia do Norte, nenhuma pessoa comum entende o conceito de homossexualidade”, disse Joo Sung-ha, que estudou em uma universidade da elite em Pyongyang (Coreia do Norte) e hoje trabalha como repórter na Coreia do Sul. “Na minha universidade, apenas a metade das pessoas já deve ter ouvido a palavra. Mesmo assim, ela era tratada como algo estranho, uma doença mental que aflige subumanos, encontrada apenas no depravado Ocidente”, completou.

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Jang afirma na cidade onde vivia, Chongjin, nunca havia ouvido falar sobre ter atração por pessoas do mesmo sexo, mesmo quando começou a se apaixonar por um amigo, Seon-cheol. Os dois se mudaram para a capital norte coreana, Pyongyang, onde fizeram faculdades diferentes. “Quando o metrô ficava muito lotado, eu me sentava no colo de Seon-cheol, e ele me abraçava a cintura. Ninguém ligava, achava que éramos amigos de infância”, comentou.

Os dois se separando em 1976, tiveram que ir para o Exército, aos 17 anos, onde as relações físicas mais estreitas se tornam questão de sobrevivência.

“No inverno, quando os soldados só têm dois cobertores fininhos e praticamente nenhum aquecimento, era um parceiro e dormirem abraçados à noite para se manterem aquecidos. É considerado parte do que o partido chamava de camaradagem revolucionária”, explica o norte-coreano.

Jang foi dispensado do serviço militar em 1982, quando contraiu tuberculose. De volta a Chongjin, em 1987 se casou com uma professora de matemática em um casamento arranjado. Em 1997, ele consegue fugir às escondidas pela fronteira. Além dele, poucas pessoas conseguiram fugir da ditadura socialista. Porém, continuava a não entender direito sua orientação sexual, até ler um artigo sobre os direitos dos gays, em 1998, que mostrava fotos de casais do mesmo sexo se beijando, e dois homens nus na cama, além de mencionar os bares exclusivos em Seul.[24]

“Foi como se as luzes se acendessem na minha mente”, disse ele.

No Brasil, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que chegou a cogitar Manuela D’Ávilla como candidata a presidência, já lançou carta de apoio ao governo norte coreano e também mandou saudações aos 72 anos de fundação do Partido do Trabalho na Coreia. Manuela D’Ávilla diz defender os direitos LGBT, mas o PCdoB nunca fez  críticas ao governo socialista da Coreia do Norte com relação à sua discriminação contra os homossexuais.

O maior inimigo dos homossexuais é, com certeza, o totalitarismo, ou melhor dizendo, o maior inimigo do individuo é o totalitarismo, seja ele praticado por regimes de esquerda ou de direita. Devemos lutar sempre por mais liberdade e menos Estado, e o princípio de toda luta por liberdade é não apoiar políticos com histórico de simpatia a ditaduras que reprimiram a liberdade de forma geral. O totalitarismo é a maior expressão da miséria humana, da total falta de respeito ao indivíduo. É preciso ficar atento para políticos pregando o coletivismo como uma forma positiva de organização social, pois o coletivismo como discurso político é o melhor caminho para exclusão da liberdade de cada individuo. É a exclusão das diferenças e do modo plural de pensar.

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O individualismo é a mais enaltecida bandeira da liberdade; se cada homossexual deseja ser livre, deve defender esses valores. Como disse o economista Friedrich Hayek a respeito do individualismo: “Daí concluem os individualistas que se deve permitir ao indivíduo, dentro de certos limites, seguir seus próprios valores e preferências em vez dos de outrem; e que, nesse contexto, o sistema de objetivos do indivíduo deve ser soberano, não estando sujeito aos ditames alheiosÉ esse reconhecimento do indivíduo como juiz supremo dos próprios objetivos, é a convicção de que suas ideias deveriam governar-lhe tanto quanto possível a conduta, que constitui a essência da visão individualista”. – Página 77, do livro: “O caminho da servidão” de F. Hayek.

Vale ressaltar que, nos Estados Unidos, os libertários foram os primeiros a defender a igualdade no casamento,  e direitos para gays e lésbicas, bem antes de Barack Obama e Hillary. Vou deixar dois parágrafos de um artigo sobre o assunto:

Artigo: Liberais foram pioneiros na luta pelo casamento gay

“Com a histórica decisão da Suprema Corte, boa parte dos americanos hoje apoia o casamento gay. Os liberais foram os primeiros. Até mesmo John Podesta, um dos principais assessores de Bill Clinton, Barack Obama e Hillary Clinton, e fundador do Center for American Progress, reconheceu em 2011 que quinze anos atrás, liberais eram praticamente os únicos a defender abertamente o casamento gay.

Apenas sete anos atrás, na campanha presidencial de 2008, Barack Obama, Joe Biden e Hillary Clinton, principais candidatos do Partido Democrata, eram contra o casamento gay. Já o Partido Libertário apoiava a causa desde seu primeiro programa, de 1972, mesmo ano em que o candidato democrata à vice-presidência fez referência a “bichinhas” num discurso em ChicagoEm 1976, o Partido Libertário publicou um panfleto pedindo o fim de toda a legislação anti-gay e apoiando o direito integral ao casamento.”

Atualmente, no movimento libertário, temos importantes nomes de pessoas que são transsexuais, gays, lésbicas e etc; entre eles, está a transsexual e economista Deirdre N. McCloskeyJonh Hospers, que em 1972 foi o primeiro candidato à presidência pelo Partido Libertário sendo gay, entre outros.

Particularmente falando, tenho uma amiga, libertária e lésbica, coordenadora local do Student For Liberty, Ingridy Vargas, e a respeito disso, deixo-vos com uma frase dela: “É errado por parte dos homossexuais acharem que o totalitarismo é a solução de todos os problemas. Pelo contrário, a única maneira de diminuir é a soberania do indivíduo, sendo este o melhor caminho para a liberdade individual.”

Sobre o autor: Elias Minotto é colunista do Instituto Tropeiros.

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