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A lógica econômica e Robin Hood

Nesta semana, participei de um programa na gloriosa Radio Guaíba falando sobre política e economia, num belo estúdio envidraçado de frente para a calçada. Enquanto falávamos, dois cidadãos lá fora gesticulavam com as mãos, sinalizando a letra “L” e, ao mesmo tempo, colocavam as mãos no estômago.

Evidente que cada ser humano deve ser livre para pensar e realizar suas escolhas, porém, lastimo muito a escassez de discernimento e o parco conhecimento econômico de alguns. Tenho a nítida impressão de que alguns brasileiros, além de terem a tão falada memória curta, estão umbilicalmente presos ao pensamento “mágico” Robin Hoodiano e/ou estão acometidos da Síndrome de Estocolmo.

Neste país sempre à cata de um salvador da pátria, sedento por efeitos pragmáticos de curto prazo, endeusam-se picaretas e incompetentes exclusivamente preocupados com seus interesses escusos e os de suas tribos, alijando-se o povo e as gerações futuras de melhores condições econômicas e sociais. Esses “semideuses” são tão populares que até se transformam em séries – hilárias – no Netflix.

Otimismo parece-me positivo, mas um otimismo baseado em falsas premissas e em comprovados equívocos tangencia o pensamento mágico e/ou a estupidez. Longe de ser o dono da verdade, penso que existem “fatos econômicos” e eventos notórios em que sobram fatos e evidências robustas daquilo que dá certo e é o melhor para todos.

Pense bem! Você acredita que o seu sustento e a realização de seus planos de vida são decorrentes da bondade celestial do Grande Estado provedor ou do seu esforço próprio fruto do seu trabalho? Crê no coletivo ou na capacidade do indivíduo?

Você acredita que o Estado é o criador de riquezas ou são as pessoas e as empresas que as criam, por meio da criatividade e da produção de bens e serviços alinhados às necessidades e desejos do consumidor? Você se considera um patriota, que ama o seu país, ou é um nacionalista, aquele que abomina o estrangeiro, ou talvez um nacionalista crítico?

Somos seres sociais, mas somos dotados da razão e deveríamos compreender que toda ação humana é de responsabilidade do indivíduo. Nesse sentido, somos responsáveis por nossas vidas e, consequentemente, por aquilo que planejamos e realizamos factualmente. Não há nada de errado em pensar e em buscar nossos interesses próprios dentro de princípios éticos. Dessa forma, estaremos, simultaneamente, colaborando de forma voluntária e beneficiando outros.

O Estado não cria riqueza. Ele não pode dar sem receber os tributos – escorchantes – cobrados coercitivamente de indivíduos e de empresas. Sempre que se dão recursos para as pessoas, via programas sociais, por exemplo, estão-se tirando recursos de outros indivíduos e de outras alocações.

Inexiste maná, não há nada gratuito, e os reais geradores de riqueza são as pessoas e as empresas, que, por meio da liberdade e da oportunidade, põem em prática a criatividade humana. Quase sempre quando o governo intervêm na economia e na vida das pessoas, em nome do bem-estar da abstração “coletivo”, os resultados são piores do que as intenções propaladas e, similarmente, os políticos preocupam-se com a estética imediatista, ou seja, com ações de curto prazo que aparentam ser benéficas, mas que no longo prazo trazem consequências terríveis para a população.

Quando o grande Estado nacional se intromete nos mercados, seja buscando controlar preços e salários ou mantendo empresas estatais, ele inibe a atividade econômica e/ou impede/limita a concorrência, o que ocasiona piores produtos e serviços e preços mais altos, prejudicando os cidadãos, em especial os mais pobres. É preciso lembrar que políticas econômicas destinadas a satisfazer reivindicações de grupos específicos acabam reduzindo o bem-estar da maioria da população.

Acredito que os indivíduos que gesticulavam a letra “L” estejam acometidos de um grave problema de memória e/ou da Síndrome de Estocolmo. Políticos que assaltaram os cofres públicos do país, roubando saúde, educação, segurança e maior prosperidade para todos, continuam sendo objeto da credulidade de alguns. Foram justamente esses que irresponsavelmente criaram políticas de curto prazo insustentáveis, que geraram benefícios de curto prazo à custa de despesas e de desastres futuros.

São esses demagogos populistas que querem regular a mídia e ceifar as liberdades individuais, especialmente a liberdade de expressão. São esses que desejam a volta de políticas nacional-desenvolvimentistas contraproducentes, mais intervenção e o nefasto nacionalismo para trancar ainda mais a fechadura da economia brasileira, o que traz no seu bojo abissais prejuízos a inovação, à produtividade, ao emprego e aos salários reais, bem como aos consumidores, acarretando o empobrecimento dos cidadãos que terão que pagar mais caro por piores produtos e serviços. O “requerido” protecionismo gera benefícios de curto prazo para os “empresários” amigos do rei; entretanto, grandes impactos negativos de longo prazo para todos.

São esses que, ao invés de quererem ver os indivíduos e as empresas “engordarem”, tencionam aumentar o tamanho do Estado e as respectivas benesses estatais, fazendo crescer o poder das “elites” em vez de dar mais liberdade, capacidade e oportunidade para que as pessoas possam prosperar de acordo com seus planos de vida.

Penso que é preciso muito mais liberdade individual e econômica para os cidadãos brasileiros progredirem de verdade. Os dois senhores da vidraça provavelmente enxergam somente aquilo que se vê, mas tristemente não veem ou não querem ver as consequências mais longas e indiretas de supostas políticas “bondosas”.

Não sei se o “L” que visualizei significava um apoio a um tal plano de governo, que na verdade é uma receita – desastrosa – para uma intervenção estatal cada vez maior, ou representava a palavra “larápio”.

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.