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A indignação de um “nazista” – só que não!!!!

 

Créditos: Diário Penebense
Créditos: Diário Penebense

Senhoras e senhores, eu começo a pensar que deveriam existir limites mínimos admissíveis na canalhice vitimista. Não abdicarei dos meus princípios defendendo qualquer tipo de censura, mas certos casos de mau-caratismo e falta de vergonha chegam a soar criminosos, causando um sincero efeito de impaciência em meus pobres ânimos. Refiro-me, indignado, a uma campanha veiculada durante a semana por algum petista desconhecido no canal de vídeos Youtube, aos meus olhos leigos até bem feita tecnicamente, mas com uma mensagem que é de chocar qualquer pessoa de bom senso.

Segundo o vídeo, os petistas são hoje perseguidos com violência e hostilidade por parte da população de forma análoga à com que os judeus eram perseguidos durante o regime nazista na Alemanha (!!). Sim, é isso mesmo, você não leu errado. Diante da queda da máscara de seu sistema apodrecido e espúrio, os petistas agora recorrem com força ao que Leo Strauss chamou de ad hitlerum – o famoso apelo a comparações com Hitler e o nazismo, que surge quando os argumentos racionais já se esgotaram por completo, se é que um dia estiveram presentes.

O vídeo começa cometendo um “ato falho”, que talvez denuncie apenas a consciência da verdade que se está pretendendo adulterar. Ele abre com a seguinte inscrição aparecendo em um fundo preto: “petistas, judeus… e o nazismo. O que têm em comum?” Em seguida, a narradora, em seu tom tétrico, diz que “em algum momento da história, pertencer a um desses grupos virou sinônimo de achaque social” e que “foram atacados de forma violenta por quem detinha poder e pela própria sociedade”. Interessante que, embora não seja, obviamente, sua intenção, a locutora do vídeo coloca o nazismo, se analisarmos suas declarações pela frieza da gramática e da ordem sintática, entre os tais “grupos”, e não como perseguidor. Ela deveria ter dito, para ser rigorosamente correta, apenas “petistas e judeus”. As reticências não seriam separação suficiente da palavra “nazismo” para demarcar que ele está em posição oposta aos dois termos anteriores. A continuação do vídeo deixa claro o que ela quis dizer, mas esse ato falho diz muito mais sobre a verdade dos fatos: se fôssemos fazer alguma comparação, diríamos muito mais acertadamente que, sem serem a mesma coisa, petismo e nacional-socialismo têm elementos de autoritarismo, amor pela censura e plantio sistemático do ódio como características em comum. Os judeus é que deveriam ser, por justiça, separados dessa trupe.

A comparação infame, porém, prossegue; pontuando que Hitler colocou a culpa de todas as desgraças alemãs nos judeus, manipulando instrumentos da mídia e propaganda para fazê-los odiados e perseguidos pelo próprio povo, “desumanizados, torturados e, enfim, assassinados” – o que é, diga-se de passagem, tudo verdade -, a locutora do vídeo diz que vê, hoje, amigos com discurso “nazista”, odiando os petistas e desejando-lhes a “morte”. Alguns, tomados de revolta com a situação nacional, podem até chegar, em destempero, a declarações extremas; mas quantas pessoas você conhece que defenderam a tortura do vizinho petista? Que defenderam o assassinato do tio ou do sobrinho petista? Quantos petistas foram vítimas de atentados ou morreram em “campos de concentração”? Quantos petistas foram segregados e amontoados em câmaras de gás para morrer sem misericórdia? Quantos foram marcados nas peles com a estrela vermelha (cuja dignidade passa longe da estrela de Davi judaica)? Quem responder que conhece muitos casos pertinentes a essas indagações certamente não está vivendo no mesmo país que eu. A comparação é imunda, imoral e ultrajante. É uma ofensa a todos os milhões de mortos pelo totalitarismo genocida dos alemães antes do término da Segunda Guerra Mundial.

A locutora então pergunta: “por que você odeia o PT e não o PSDB?” Segundo ela, todos os partidos têm pessoas honestas e desonestas, todos “usam o financiamento privado de campanha” e, portanto, odiar apenas o PT é resultado da cegueira perante o “discurso único” da grande imprensa, que os “nazistas que odeiam o PT” repetiriam “como se fossem verdades absolutas” – assim como, por exemplo, os socialistas doutrinados pelo MEC repetem o que diz o Nova História Crítica do Mario Schmidt como se fosse “verdade absoluta”, e os militantes imbecis reproduzem cartilhas do partido como se fossem a palavra de Deus.  Passam então na tela, freneticamente, imagens de capas da Revista Veja e o símbolo da Rede Globo – cujo maior telejornal mal tem dado destaque aos vários processos legais sendo abertos e mobilizados contra o governo de Dilma Rousseff. Estaríamos sendo, os que se opõem ao PT, manipulados como gado em uma “guerra desigual bancada pela grande mídia”. E bla bla bla.

Amigos, devo confessar. Por uma inversão mágica do significado das palavras, baseado nesse vídeo (des)educativo, parece que a palavra “nazismo”, historicamente descontextualizada, pode se aplicar a mim.

Sou nazista porque acredito na liberdade de expressão, no mercado livre de amarras, no fim da farra sistemática com as estatais que cristalizou o maior esquema de corrupção da história republicana. Sou nazista porque abomino a segregação em grupos por cor de pele, credo religioso ou orientação sexual, usada para enaltecer um projeto de poder calcado no ódio e na divisão do povo entre “nós e eles”. Sou nazista porque rejeito a aliança espúria da máquina do Estado com empresários poderosos, que de liberais nada têm, e buscam apenas vantagens para manter seus negócios. Sou nazista porque desejo a mídia livre e cumprindo seu papel, em vez de ameaçada e acuada o tempo inteiro com pressões e projetos que, sob o eufemismo de “democratizá-la”, outra coisa não desejam que a censura. Sou nazista porque não defendo o apoio a ditaduras de lugar nenhum, seja qual for a cor ideológica delas. Sou nazista porque, em outras palavras, repudio severamente o socialismo bolivariano, repudio severamente o chavismo venezuelano, repudio severamente o comunismo cubano, repudio severamente o PETISMO BRASILEIRO. Se isso faz de mim um “nazista”, numa inversão malabarista de todos os sentidos e contextos históricos, então, senhores, eu sou, daqui por diante, nazista. Daqui por diante, os países aliados também eram nazistas, e Hitler era um liberal-democrata.

Sabemos que o petismo é asqueroso, mas não precisavam descer tão baixo. Esse vídeo é uma verdadeira agressão à sensibilidade humana. Não menos que isso. E acho que não consigo dizer mais nada a respeito. Paro por aqui.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).