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A falsa empatia de militantes e o valor da vida

Um dos princípios fundamentais do pensamento liberal, ao lado de outros postulados centrais como a própria liberdade e a propriedade privada, é a importância da vida. O liberalismo sempre preconizou a dignidade da vida humana como fundamento imprescindível.

Sendo assim, não há justificativa para que os liberais misturem adversidades políticas e antipatias a políticos ou governos com votos desumanos de morte e com falta de empatia ao sofrimento alheio. Precisa ficar claro, contudo, que isso vale para as diferentes parcialidades políticas. Não faz sentido algum enxergar o mal nos outros e cegar-se aos próprios malfeitos. É preciso que sejamos justos e coloquemos os fatos em seus devidos lugares, em vez de esbravejar indignação seletiva.

Nesta semana, foi anunciado que o presidente Jair Bolsonaro teria testado positivo para covid19, com o exame feito após ele ter sentido dores no corpo e ter tido uma febre de 38 graus. O exame ainda não foi apresentado ao público até a conclusão deste artigo, mas o presidente alega que testou positivo.

Diante de tal anúncio, a militância governista lançou uma nova narrativa. O presidente Bolsonaro já se pronunciou alegando estar melhor após se tratar com a hidroxicloroquina, um medicamento que é taxado de milagroso pelos apoiadores do presidente, mas a respeito do qual, até o presente momento, os melhores estudos não apontaram qualquer evidência ou efeito benéfico que possa ter no combate ao covid19. Bolsonaro chegou até a afirmar que o tal medicamento, caso seja usado nas fases iniciais, tem chances de sucesso de quase 100%, sem qualquer base para essa conclusão. O presidente e seus apoiadores usaram o caso para fazer propaganda pesada da hidroxicloroquina e outros medicamentos que também carecem de evidência científica, como é o caso da ivermectina.

Deixando isso de lado, parte dessa mesma militância levantou uma nova narrativa: a de que os críticos do presidente, de forma generalizada, são seres sem empatia, que torcem pela morte dele. O blogueiro Bernardo Küster chegou a fazer uma acusação extremamente irresponsável no Twitter, alegando que parte da grande mídia torceu pelo “sucesso da facada” que o presidente sofreu durante o processo eleitoral de 2018. Tal acusação é simplesmente algo que o acusador não é capaz de provar; naquela época não foi publicada nenhuma matéria na grande mídia comemorando o ocorrido. Trata-se apenas de mais uma acusação falsa com o intuito de fortalecer uma narrativa incondicionalmente anti-imprensa.

Outro que também se pronunciou foi o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, que fez postagens no Twitter criticando o artigo publicado pelo colunista Hélio Schwartsman na Folha de SP, artigo este intitulado “Por que torço para que Bolsonaro morra”. Esse artigo caiu como uma luva para a base do presidente, que passou o dia cobrando empatia e alegando que a grande mídia (como se a opinião deplorável de um colunista representasse toda a imprensa) deseja a morte do presidente. Jair Bolsonaro já se pronunciou, junto com o Ministro da Justiça André Mendonça, alegando a requisição de uma abertura de inquérito à polícia federal por suposta violação à lei de Segurança Nacional – uma clara tentativa de censurar o colunista, que não guarda coerência com a (justificada) indignação demonstrada perante o autoritarismo do STF. Se condenam, com razão, o que faz o STF, não se tentem assemelhar a ele.

Militantes governistas também criticaram duramente humoristas como Danilo Gentili e Maurício Meirelles por fazerem piada a respeito da questão. Independentemente de a piada ter sido ou não apropriada, Maurício apontou para uma questão interessante: os militantes bolsonaristas que se apresentavam como “politicamente incorretos” são tão politicamente corretos quanto os esquerdistas de outrora, querendo a todo custo apresentar óbices à liberdade de humoristas que zombam do presidente. Lembro que, em 2014, o PT montou uma lista negra de jornalistas e humoristas que criticavam a presidente Dilma.

O artigo de Hélio Schwartsman é de fato totalmente reprovável e serviu para fortalecer a narrativa bolsonarista, mas há algo curioso nessa discussão: ela serviu para levantar a falácia da empatia. Os mesmos militantes governistas que meses atrás faziam “dancinhas” caçoando das milhares de vítimas do covid19 hoje exigem respeito e empatia. O filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, que hoje pede empatia, é o mesmo que há um mês escarnecia do fato de que sua desafeta e ex-amiga Joice Hasselmann teria contraído a doença.

Vale lembrar que profissionais de saúde e jornalistas foram fisicamente agredidos por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e isso se deve ao mero fato de defenderem medidas de prevenção ao vírus. O próprio presidente apoiou, participou e incentivou manifestações em plena pandemia, sendo a aglomeração uma das principais formas de difusão do vírus. O Brasil é hoje o único país em que o próprio presidente da República incentiva sua população a se aglomerar, gerando assim mais infectados e consequentemente mais óbitos – além do fato de o presidente ter participado de tais atos sem sequer fazer uso de máscara. O mesmo presidente coleciona uma série de afirmações irresponsáveis em relação à pandemia, declarações que ofendem todas as milhares de vítimas e famílias que perderam seus pais, filhos, maridos e esposas para aquela que já é a maior pandemia do século 21.

No dia 20 de abril deste ano, quando registrávamos apenas 2500 mortes por conta do vírus, o presidente, ao ser questionado, proferiu as seguintes palavras: “Não sou coveiro, tá?”. No dia 28 de abril, quando registramos 5000 mortes, o presidente proferiu a frase “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?” “Sou Messias, mas não faço milagre”. Tudo isso foi visto por parte da militância como irrelevante ou natural ao estilo do presidente. Hoje temos 66 mil óbitos e ainda sofremos com a subnotificação. O Brasil é visto, até pelo presidente norte-americano Donald Trump, como um mau exemplo no combate ao coronavírus.

Diante de tudo isso, fica evidente que não há preocupação da referida militância com a empatia. Muitos deles não a demonstraram com os milhares de óbitos que tivemos, zombaram de pessoas que morreram por conta da doença, agrediram enfermeiros e jornalistas, tentaram ocultar o número de mortes e inventaram inúmeras mentiras sobre caixões vazios e sobre o uso de máscaras. Hoje fingem querer empatia, fingem pregar amor e compaixão, mas esse pedido por empatia serve apenas para mascarar sua hipocrisia e um desejo claro de silenciar os seus opositores, sejam os jornalistas ou os humoristas.

No mais, ao contrário do filho do presidente, não comemoro quando adversários são vítimas dessa doença cruel e fatal, que só traz desgraça ao nosso país. Torço para que o presidente se recupere e repense sobre a forma como lidou e lida com as milhares de vítimas que este país apresenta diariamente e como um discurso irresponsável está custando vidas inocentes.

*Sobre o autor: Lucas Sampaio é um liberal radicalmente pragmático, defensor da polarização e adepto dos métodos da Guerra Política de David Horowitz e Saul Alinsky. Estudante de Direito e Presidente da Juventude Libertária de Sergipe, membro da Rede Liberdade. Faz análises políticas sob um viés liberal/libertário e escreve sobre realpolitik, Guerra Política, Guerra de Narrativas, táticas de persuasão, como debater e como difundir as ideias de liberdade de maneira prática e sem ideologismos.

Lucas Sampaio

Lucas Sampaio

É um liberal radicalmente pragmático, defensor da polarização e adepto dos métodos da Guerra Política de David Horowitz e Saul Alinsky. Estudante de Direito e Presidente da Juventude Libertária de Sergipe, membro da Rede Liberdade. Faz análises políticas sob um viés liberal/libertário e escreve sobre realpolitik, Guerra Política, Guerra de Narrativas, táticas de persuasão, como debater e como difundir as ideias de liberdade de maneira prática e sem ideologismos.