A direita de Moisés Mendes

chileChutar cachorro morto é fácil. Mais fácil ainda é chutar um cachorro inexistente. Moisés Mendes, colunista de Zero Hora, resolveu fazer a segunda coisa em seu texto intitulado “A direita estudantil”. O jornalista inventou um cusco qualquer, nomeou-o de “direita” e meteu-lhe a bota nos fundilhos.

É preciso destrinchar o tortuoso caminho do pensamento que ele trilha para, a partir de fatos inexistentes, cobrar coisas de quem nem mesmo está habilitado a ser cobrado. Por isso me permito responder o texto naquelas que são suas passagens principais (a íntegra você confere aqui). Moisés Mendes vai em negrito, sempre seguido de meus comentários:

“A história está cheia de políticos que, na tentativa de reavaliação de ideias e atos compartilhados, foram condenados ao ostracismo ou à morte. Não são apenas os episódios bíblicos, tampouco os associados aos ditos revisionismos.

Temos eventos pontuais e recentes. Há no Brasil um esforço de parte da esquerda nessa reavaliação de condutas. O PT é o reduto do embate entre alguns históricos do partido e seus seguidores, de um lado, e os pragmáticos patrocinadores de coalizões, conchavos, acertos e escândalos, de outro.”

O exemplo petista de embate interno é um despautério. A que ele se refere? Qual é o conflito que se dá no partido? Nem mesmo se pode alegar que as históricas correntes ainda tenham o papel que uma vez tiveram. Pelo menos não depois das frequentes desmoralizações patrocinadas pelas dedadas oficiais de Lula, que impôs candidatos, seja em São Paulo, seja no Maranhão, seja em nível Federal.

Mas não é a esse tipo de situação que Moisés se refere. Ele pretende nos fazer crer que há uma disputa entre moralistas e corruptores na legenda. De um lado estariam pessoas como Tarso Genro, Olívio Dutra e Raul Ponte. Do outro lado ele não nomeia. Penso que seriam José Dirceu, José Genoíno e João Paulo Cunha. Talvez até mesmo Lula e Dilma. Se o Moises da Bíblia obteve sucesso em dividir as águas do Mar Vermelho, o Moises da Zero Hora não consegue o mesmo quando tenta dividir as águas do Mar de Lama.

Não há disputa alguma. O que houve, de forma muito tímida, foram manifestações isoladas. Olívio Dutra em particular. De resto, é uníssono, e Tarso Genro é um dos principais caudatários, que os integrantes do partido se considerem perseguidos políticos, e seu governo alvo de uma tentativa de golpe orquestrado inclusive pelo jornal do qual o referido autor faz parte. Enquanto Moisés coloca Tarso no assento dos justos, Tarso coloca o jornal que publica Moisés no rol dos inimigos do progressismo oficialista.

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Nem é preciso lembrar que, quando do escândalo do Mensalão, Tarso Genro abandonou sua função de Ministro da Educação para assumir a presidência do PT. Na época, o agora ex-governador gaúcho pretendia “refundar o PT”. Na sua tentativa, acabou torpedeado por Dirceu, detentor das chaves internas do partido. Perdeu calado. Poderia ter saído da agremiação, fundando um partido que estivesse de acordo com suas ideias novas. Preferiu continuar no partido não refundado. Aquele que na época era conhecido pelo mensalão e que agora nos presenteia com o petrolão.

O fato é que as tais lideranças que Moises contrapõe aos que ele condena por “coalizões” e “conchavos”, permanece de cabeça baixa diante da situação. Como se pode falar em autocrítica em uma situação onde o que se evidência é a anuência, quando não a mais pura solidariedade companheira?

“O fenômeno talvez seja explicado pela incapacidade da direita de fazer o mesmo. O reacionarismo resume seu prazer ao desalento dos adversários. A esquerda sofre, diz que sofre e proporciona o gozo dos que querem vê-la sofrer.”

A esquerda sofre, diz o colunista. E como sofre, sabemos todos que agora pagamos a conta das tramoias do governo progressista. A direita abstrata a quem ele nunca tem a coragem de nomear apenas cumpre seu papel de se contentar em ver a desgraça, ainda que a desgraça tenha sido causada pelo partido de esquerda que está no poder.

“Não há no Brasil, em nenhum momento, nem mesmo a autocomiseração da direita. Não houve quando dos depoimentos à Comissão da Verdade. Envolvidos em fatos notórios, como as torturas, a covardia da bomba do Riocentro, a ocultação de cadáveres e outros episódios, debocharam da Comissão.

Uma certa direita (que se envergonha de ser tratada como tal) nunca admitiu os erros da ditadura.”

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É nesse trecho em que Moisés nos dá uma dica do que seria essa “direita” de quem ele cobra autocrítica e autocomiseração. A direita por trás da Ditadura Militar. Quem seriam seus nomes? Os nonagenários que se reúnem com bengalas e andadores nos Clubes Militares? Ou será que os figurões políticos do antigo regime? No caso de serem os vovôs de coturno, é bom lembrar ao jornalista que eles não participam do debate público e não exercem influência nas correntes de opinião. Além das reuniões de dominó, não tem capacidade agregadora para coordenar seja lá o que for. Se há uma “direita” no país, certamente não é essa. Mas e se Moises estiver se referindo aos figurões que se criaram naquela época? Maluf, Delfim Netto, José Sarney, entre outros políticos notadamente conhecidos dos brasileiros. Se forem esses a quem ele chama de “direita”, deve cobrar exatamente daqueles a quem atribui a autocomiseração. As maiores figuras da ditadura estão hoje orbitando o petismo. São parte integrante da oligarquia que ajuda o partido a guiar a máquina administrativa. Na abertura da Comissão da Verdade, a qual ele se refere, Sarney, o ex-presidente da Arena, estava presente. O filhote da ditadura convertido a homem incomum, nas palavras de Lula, o filhote do Golbery.

“A direita é incapaz de refletir sobre o fato de que está na origem da estrutura corruptora das empreiteiras, enfim descoberta como se fosse uma corrupção transgênica, sem história e sem pai.”

Novamente cumpre perguntar: que direita é essa? As empreitares se servem do estado brasileiro desde muito tempo. Tempo esse em que, durante sua totalidade, somos administrados por governos intervencionistas que de modo algum pode ser considerados “de direita”. Getúlio Vargas, pai do trabalhismo e mentor de Brizola era de direita? E Jucelino? O que havia de reacionário nele?

A história da corrupção brasileira é indubitavelmente atrelada ao tamanho do Estado, que é o seu verdadeiro e único genitor. A “direita” de Moisés não passa de um bode expiatório, um chiste, um clichê, uma fabula moderna criada nos diretórios dos partidos de esquerda. A “direita” de Moisés é um moldura adequada de inimigo que na realidade não existe.

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Para encerrar seu confuso texto, Moises manda o que segue:

“A direita brasileira pós-ditadura ainda é estudantil, quase secundarista na insistência do golpe como única alternativa a um ciclo que completará 16 anos de fracassos eleitorais.”

Se a direita pós-ditadura é “estudantil”, qual o motivo de Moisés Mendes cobra-la por fatos que são anteriores a sua existência. Por fatos que não dialogam com seu surgimento? Se há uma direita pós-ditadura, ela não é filha do Golpe de 64, mas da redemocratização e da anistia. Ela não é reflexo dos coturnos, mas das liberdades públicas. Liberdade pública que não nos foi dada de presente pela esquerda, essa sim filha dos grupos terroristas que operavam durante a ditadura.

Não sei se o que temos no Brasil pode ser considerado “direita”, e muito menos se o nome adequado é esse. O fato é que se multiplicam iniciativas liberais, libertárias e conservadoras. Cada uma ao seu modo, com seus centros de estudo, com suas divergências, com suas convergências, se fortifica sem precisar amealhar recursos desviados de estatais, como faz o partido de esquerda que está no poder.

Por fim, Moisés Mendes atola na ignorância completa. Transforma a discussão de um eventual impeachment em golpe, atribuindo o debate que surge das ruas, não da oposição política organizada, como suposto resultado das derrotas e fracassos de uma corrente de opinião que, ao contrário do que ele diz, jamais foi representada pelos candidatos que perderam para o PT.

O fato evidente é que, além de dar coro a tese que o petismo está tentando espalhar por ai, o jornalista de Zero Hora cobra dos outros a autocomiseração que não tem em relação ao seu próprio texto.

 

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Comentários

  1. Os argumentos desta esquerda falida, e de seus apoiadores despreparados, são baseados em um personagem do programa a Praça é Nossa. Na visão deles, basta martelar, martelar, e martelar na mentira, porque: “Vai que cola”.

  2. Ótima refutação.

    É sempre bom refutar essas desonestidades intelectuais dos “intelequituais” esquerdistas.