A direita além de Bolsonaro

Minha estreia no Instituto Liberal se deu com um artigo de título um tanto extenso: Com o silêncio dos moderados, nossa pretensa primavera liberal pode acabar ainda em seu alvorecer. O título, por si só, já era bastante sugestivo. Versava sobre duas coisas, sendo a primeira uma notória ascensão de ideias liberais no país nos últimos anos e a quebra da hegemonia de esquerda na vida intelectual brasileira, e a segunda, o problema em se apoiar “incondicionalmente” Jair Bolsonaro, se recusando a aceitar ou tecer críticas de qualquer gênero. O artigo não era um convite à oposição absoluta, ressaltando que o apoio a reformas importantes era natural e necessário, sem que isso devesse significar subserviência e abandono do senso crítico, que deve caracterizar mesmo aqueles que apoiam um determinado governo. Quando escrevi o artigo, tinha em mente o Bolsonaro que todos já conhecíamos, o que ganhou notoriedade nacional por “tretar” com a Preta Gil no CQC, que acumulou declarações preconceituosas e de apoio à ditadura em sua insignificante vida parlamentar e que continuou o clima de campanha mesmo após já estar sentado na cadeira presidencial. O que eu não imaginava, nem nos meus piores pesadelos, é que Bolsonaro viria a protagonizar o show de horrores que temos visto nos últimos dias.

Muitos viam as polêmicas prévias de Bolsonaro como um mal menor e até apequenavam suas declarações e atitudes como as de um tio grosseirão, que fala barbaridades no churrasco de família, mas que, no fundo, tem um grande coração. Para muitos essa visão permaneceria, não fosse por um evento trágico e inesperado: a pandemia do coronavírus. Traçar a cronologia completa dos erros do presidente diante dessa pandemia é desnecessário, afinal, aqueles que não estavam em Marte nas últimas semanas sabem muito bem do que estou falando. O combo de atrocidades inclui desde ter ido a uma manifestação no dia 15, ter gravado pronunciamento oficial negando a necessidade das medidas de isolamento, conclamado o povo de volta à normalidade – poucos dias após ter decretado estado de calamidade pública -, ter atacado governadores e prefeitos que seguem as recomendações da OMS e a prática internacional corrente, além de, o mais grave de tudo, defenestrar publicamente seu ministro da Saúde, com sucessivas ameaças veladas de demissão, e tudo porque o ministro, que está fazendo um excelente trabalho, se recusa a dançar conforme sua música fúnebre.

Bolsonaro manifesta reiterada preocupação com 2022 e faz cálculos políticos enquanto pessoas morrem. O presidente demonstrou nos últimos dias não só uma inaptidão para o cargo – algo que muitos creditavam à “inexperiência” ou por supostamente ser um “outsider” -, mas total desconsideração pela vida humana, pela vida de cidadãos brasileiros. Diante disso, fica evidente que Jair Bolsonaro entrará para os anais da história brasileira como uma figura pitoresca, uma lástima. Não, os historiadores não precisam ser comunistas para que isso aconteça. Se nesse ponto você está listando nomes piores do que ele, duas considerações: Bolsonaro é tão bom que para elogiá-lo é necessário estabelecer uma comparação com alguém supostamente pior; uma lástima não exclui a outra e Bolsonaro ser o que é não diminui os vícios de presidentes anteriores.

Tudo isso que estou colocando ainda é inadmissível para uma parte considerável da direita brasileira. Alguns podem estar em negação, um subproduto da desilusão que não admitem reconhecer, mas todos os chamados “passadores de pano” têm um traço em comum: afirmam que a parcela da direita que se nega a bater continência para o manicômio bolsonarista acarretará a volta do PT ao poder. Sério mesmo? Diante de tudo isso vocês ainda acham que são os críticos do governo e não seus subalternos que preparam o terreno para isso acontecer? Não que eu seja vidente, ninguém sabe o que acontecerá em 2022, mas o argumento pode ser assim posto: “Bolsonaro é nossa única opção”. Aqui está o erro monumental, que não só é pensar que Bolsonaro é o iluminado que promoverá uma “revolução liberal” no Brasil, mas de pensar que precisamos de um iluminado para começo de conversa.

Vejam bem, é natural que nos preocupemos em eleger políticos que representem nossos valores e ideias, e os liberais devem sim trabalhar para encontrar e eleger tais lideranças. O problema é que se perde de vista que a divulgação de ideias liberais – aqui tratando especificamente do liberalismo – visando a torná-las cada vez mais aceitas em uma sociedade marcada pelo estatismo é uma tarefa atemporal e que independe dos governos de ocasião. Reitero, devemos sim trabalhar para eleger governantes que vão em linha com essa visão, mas uma coisa não anula a outra. Se Bolsonaro não foi eleito por agradar uma parcela minoritária e reacionária do eleitorado, também não o foi por ter Paulo Guedes na equipe – o foi, principalmente, pela rejeição ao PT. Tendo isso em mente, não pensem, por um segundo sequer, que o povo que em 2018 apoiou algo como a greve dos caminhoneiros se converteu ao liberalismo. Isso apenas ilustra a importância de trabalhos de think tanks e daqueles que trabalham para a divulgação de um pensamento liberal.

No entanto, parte da direita passou a adotar a visão inversa e, de maneira extremamente contraditória, colocaram o governo como o agente canalizador dessa divulgação, que passou a ser não mais de baixo para cima, mas de cima para baixo. É como se todo o trabalho e militância feita por cabeças pensantes à direita nos últimos anos tivesse como único desiderato a eleição de Bolsonaro e como se a sobrevivência e perpetuação dessas ideias dependessem única e exclusivamente dele. Abandona-se o ceticismo político que conservadores e liberais deveriam direcionar ao governo, adota-se uma visão de cima para baixo e de quebra se tenta marginalizar aqueles que ousam criticar o presidente, ainda que estejam há anos trabalhando pelo ideário liberal. A conclusão mais mirabolante e proselitista que fazem é a de que Bolsonaro não só é um liberal – coisa que nunca foi -, como ele é mais liberal do que os demais liberais. Lembrem que, já pré-candidato à presidência, o então deputado Jair Bolsonaro desfilava por aí demonizando a reforma da previdência e agindo como sindicalista informal dos milicos.

Devemos sim buscar eleger novas lideranças, e é no plural mesmo, porque outro defeito dessa visão de cima para baixo é focalizar excessivamente no presidente e esquecer a importância de se eleger bons nomes para o legislativo. Diria que isso pode ser até mais importante. Muitos, encorajados pela onda bolsonarista, perderam de vista a importância de se elegerem bons legisladores e tacaram nas urnas tudo o que tinha o 17 na frente sem maiores considerações.

Colocar Bolsonaro como o carro-chefe desse momento de inflexão política que veio com o impeachment de Dilma e que colaborou para que ideias liberais ficassem em evidência sequer lhe faz justiça histórica. Bolsonaro foi hábil em aproveitar esse descontentamento com o petismo e em canalizar para si os votos da maior parte dos descontentes – não todos, pois há os votos nulos, brancos e abstenções -, mas sua relevância para por aí. Qual foi a colaboração do deputado Jair Bolsonaro para o impeachment de Dilma? Ter emporcalhado a votação com uma dedicatória a um conhecido torturador. Vou além, o grande guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, no princípio teceu fortes críticas ao impeachment, para depois da coisa encaminhada, como todo bom engenheiro de obra pronta, clamar um papel de pioneirismo na inflexão política iniciada com a queda de Dilma. Digo isso para dizer que, se já é uma grande mentira creditar a Bolsonaro os ventos de mudança que vieram da sociedade civil, é mais ainda achar que dele, e só dele, dependerão os ventos de mudança que ainda podem estar por vir.

O problema dessa parcela da direita que se ajoelha ou faz parte da seita – sim, seita – bolsonarista é que demoraram tanto para chegar ao poder que, quando finalmente chegaram, adotaram o tudo ou nada. Se antes o discurso era fazer diferente do que o PT fez, passou a ser fazer o mesmo com sinal trocado, tudo dentro da agenda de “guerra cultural”. Ora, que a esquerda identitária tem maluquices inomináveis, isso não é novidade, e se há uma guerra cultural de fato, que a travem no plano cultural, como indivíduos pensantes. A única circunstância na qual um governo alinhado com essa visão poderia fazer diferença seria se fosse para barrar ou se opor a projetos de leis que incorporassem essas maluquices. Colocar, no entanto, o estado como carro-chefe dessa “contra guerra cultural”, novamente de cima para baixo, é defender, como muitos fazem sem sequer ruborizar, o aparelhamento cultural. É nesse sentido que Bolsonaro não fala em fechar a Ancine, mas sim em nomear um presidente “terrivelmente evangélico”, por exemplo. E quem saliva dizendo que Bolsonaro não faz aparelhamento e que isso era coisa dos malvados comunistas, como vocês chamam querer nomear o próprio filho para uma das embaixadas mais importantes do país? O presidente só abandonou a ideia porque previu a derrota certa no Senado.

Contra o que digo, muitos podem dizer que estou contrariando a visão do “povo” e que Bolsonaro incorpora valores que careciam de um representante capaz de vocalizá-los. Ah, o povo, essa massa que as ideologias, mesmo quando ocultas sob a égide de valores, tentam moldar e definir! Sim, é evidente que estou contrariando milhões de brasileiros, mas o contrário também seria verdade se estivesse enaltecendo o presidente – e isso nos leva a outro problema a ser superado por parte da direita brasileira: a bolha. Ora, se você se cerca majoritariamente de pessoas que pensam como você, tanto de maneira pessoal quanto (principalmente) virtualmente, é muito fácil você se iludir quanto à percepção do resto da sociedade, pensando que se, digamos, 90% do seu círculo é composto por pessoas que veneram o presidente, logo isso se aplica a todo o povo. Se, por exemplo, você apresentasse a mesma visão em uma bolha de outro tipo – um DCE de uma universidade federal, por exemplo -, muito provavelmente a maioria discordaria de você, sem que isso também significasse que toda a sociedade rejeita o presidente.

Esse é o problema das bolhas, elas dão a ilusão de que são um estrato fiel da sociedade e levam a leituras políticas equivocadas. Isso é muito bem personificado quando vemos bolsonaristas argumentarem que o presidente teve 57 milhões de votos, como se todos esses votos fossem de pessoas ideologicamente sintonizadas com o presidente. Ora, não nos esqueçamos de que o mesmo povo que o elegeu também elegeu o PT por quatro vezes consecutivas. Isso significa que a maioria era de esquerda e que mudou de posição em 2018? Não, significa que há uma parte significativa do eleitorado, provavelmente a maioria, que não tem posição política definida e que está distante das querelas políticas do cotidiano, guiando seu voto por questões concretas como saúde, educação, segurança e economia. Não significa que essa massa seja formada por “centristas”, mas certamente são pessoas que preferem estar longe dos extremos e do debate acalorado. Essa massa não teve problema em trocar o PT por Bolsonaro e já havia trocado FHC pelo PT no passado. Sim, é claro que o perfil do eleitorado pode mudar ao longo dos anos, mas se o argumento de fundo é que Bolsonaro representa valores enraizados culturalmente em nossa sociedade e que esses valores são avessos ao “esquerdismo”, o que explicaria quatro vitórias consecutivas do PT?

Meu argumento é de que é essa massa, apartidária, mas não necessariamente apolítica, quem mais colabora para decidir as eleições. Essa massa, como vimos, reage a problemas concretos, não a ideologias. Como sabemos, estamos vivendo um problema concreto sem precedentes e as respostas dadas a este problema vão guiar a percepção dessa massa nas próximas eleições; mas meu foco aqui não é 2022, meu foco é a sobrevida política e intelectual da direita como um todo. O bolsonarismo é um barco afundando e é de se duvidar da capacidade e do capital político do presidente para conduzir as reformas profundas, em especial as privatizações, que tanto motivam o apoio resiliente de tantos liberais e conservadores. O bolsonarismo é um navio afundando e os apoiadores incondicionais podem se afogar agarrados ao mastro.

Em síntese, penso que os novos caminhos para a direita brasileira implicam:

Não prestar apoio incondicional e não temer criticar o presidente, sob risco de a visão do que é direita brasileira ficar atrelada a Bolsonaro de maneira irreversível, incluindo a direita liberal.

Buscar sim, a cada ciclo eleitoral, selecionar e eleger boas lideranças, principalmente para o legislativo, mas não adotar uma visão de cima para baixo.

Enxergar a sociedade civil e não o governo como veículo canalizador das ideias liberais, afinal, se a sociedade brasileira é marcada pelo estatismo, desejamos uma mudança de visão dos membros da sociedade, o que só pode ser atingido culturalmente e com o debate de ideias. A esquerda não atingiu sua hegemonia intelectual de outrora de cima para baixo, eles sempre souberam ocupar espaços dentro da sociedade civil, a exemplo de organizações estudantis. A direita deve fazer o mesmo. O Instituto Liberal, por exemplo, é um excelente exemplo de organização da sociedade civil que atua para a promoção do debate liberal.

Reconhecer que a direita, bem como o próprio liberalismo, é plural, e qualquer tentativa de chegar a um denominador comum tende a fracassar. Há muitos tipos de liberalismo e embora o liberalismo e o conservadorismo tenham pontos de convergência, eles não são a mesma coisa. Ambos devem debater sem tentar se aniquilar.

Fugir do economicismo dogmático e da separação das liberdades políticas e individuais das econômicas. Uma depende da outra. Mesmo com visões diferentes, acredito que todos hão de concordar que precisamos do tripé: democracia representativa, estado de direito e economia de mercado.

Essas são algumas singelas sugestões do que penso que deve ser uma visão de direita além de Bolsonaro e por que penso que ignorar as atitudes do presidente nas demais áreas em nome de uma agenda econômica, que essas mesmas atitudes podem acabar inviabilizando, pode ser a ruína política da direita brasileira. Quem apostar todas as fichas em Jair Bolsonaro não só vai perder a aposta, como também pode acabar expulso(a) do cassino.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.