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A derrocada da diplomacia brasileira e o risco de limitá-la a relações pessoais

O mundo inteiro já sabe que Joe Biden dentro em breve será o novo presidente dos Estados Unidos. Pensem o que quiserem sobre ele, não procedo aqui a análise sobre Biden ou Trump, mas o fato é esse e ignorá-lo chega a ser um desrespeito com a democracia presidencialista mais longeva, em que Joe Biden venceu. No entanto, o presidente Bolsonaro, que até ontem empunhava o estreitamento das relações com o parceiro do Norte como uma bandeira de seu governo, não raro beirando ao puxa-saquismo – vide a participação do presidente por dois anos consecutivos em celebrações da independência americana -, até o momento em que escrevo esse artigo não parabenizou o futuro chefe de Estado do país que pretende ter como principal parceiro e aliado. Pior: na única ocasião em que fez menção à vitória de Biden foi para fazer uma ameaça velada tosca dizendo que “quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”, lançando o país que ele diz estar “acima de tudo”, mais uma vez, a uma posição vexatória.

Com sua postura, Bolsonaro coloca o Brasil ao lado da Rússia, China e Coréia do Norte, um clube interessante e contraditório para quem busca aproximação com os EUA. O que fica patente é que o governo Bolsonaro nunca buscou uma aproximação de nações, o que é certamente desejável, mas uma aproximação de caráter pessoal e ideológica, atrelada a Trump, que, obviamente, não ficaria no cargo para sempre – assim como Bolsonaro não ficará. Não se trata de uma mera leitura deste mero articulista, haja vista que esse foi explicitamente o argumento de Bolsonaro quando tentou fazer um dos seus filhos embaixador em Washington. Dizia ele na ocasião que Eduardo tinha boas relações com a família Trump, como se a relação entre dois países devesse ser pautada por relações pessoais entre personagens políticos temporários – governos mudam, países permanecem.

A derrocada da diplomacia brasileira é a consequência lógica do cancro reacionário que habita o Planalto e a Esplanada, sendo Ernesto Araújo, o atual porta-voz de nossa diplomacia, certamente o pior chanceler da história do país. Como esperar que alguém que chegou a afirmar em artigo para o Itamaraty que Trump seria o salvador do Ocidente, personificando uma pretensa vontade divina, pudesse servir como um conselheiro sensato ao presidente, ou que este último, ainda que fosse bem aconselhado, pautando como sempre tudo com base em sua ideologia sem bibliografia, agisse com sensatez? Araújo, aliás, e seu artigo não deixa margem para dúvidas, passa longe de ser um liberal, e custo a crer que qualquer liberal que se preze vá endossar qualquer visão paternalista e messiânica que preconize, não só salvadores da pátria, mas também “salvadores do Ocidente”.

O senso de importância e grandeza dessa turma é frontalmente confrontado com o deboche e com a possibilidade real de ostracismo diplomático. O risco aqui não é só com os EUA: Bolsonaro já proferiu, por exemplo, ataques ao atual presidente da Argentina, um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Não é que Alberto Fernández, que se esforça para destruir ainda mais a economia argentina, não mereça críticas, mas não é desejável que elas partam do chefe de Estado de um dos principais parceiros do país. Talvez o leitor se lembre de quando o chanceler de Israel qualificou o Brasil como “anão diplomático”; pois, de anão, o governo Bolsonaro talvez nos transforme em palhaços diplomáticos. Já conversei com estrangeiros suficientes para saber o quanto a imagem do país tem sido arranhada pelo inquilino do Planalto – e não falo aqui só de progressistas não.

A inconstância da diplomacia bolsonarista – de um momento para outro parte-se do puxa-saquismo para a recusa em parabenizar o futuro presidente dos EUA e para ameaças risíveis – é prova cabal do quão precário e nocivo é basear relações entre nações tão somente em relações pessoais entre mandatários, ainda mais quando estas relações são de pura coloração ideológica, como se os povos fossem massas homogêneas e uma eventual vitória nas urnas garantisse uma continuidade perpétua a governos de nações democráticas. Pessoas passam, nações ficam. Bolsonaro um dia passará, mas não sem antes deixar um grande estrago em nossa diplomacia e imagem.

Fontes: https://exame.com/mundo/nao-e-so-bolsonaro-quem-foram-os-presidentes-que-nao-parabenizaram-biden/

https://www.otempo.com.br/politica/bolsonaro-comemora-4-de-julho-na-casa-de-embaixador-dos-eua-em-brasilia-1.2356532

https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2019/07/pretendo-beneficiar-um-filho-meu-sim-diz-bolsonaro/

http://funag.gov.br/biblioteca/download/CADERNOS-DO-IPRI-N-6.pdf

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/07/israel-lamenta-decisao-do-brasil-de-convocar-embaixador-em-tel-aviv.html

https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/10/08/povo-argentino-lamento-e-o-que-voces-merecem-diz-bolsonaro-sobre-governo-de-pais-vizinho.ghtml

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.