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A coxinha e a mortadela no Datafolha – não é a renda, é a escolaridade

“Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas.” - Benjamin Disraeli
“Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas.”
– Benjamin Disraeli

Uma manchete da Folha de S. Paulo chama muito a atenção: “Mais pobres, 54% dos manifestantes anti-impeachment aprovam Dilma”. Ato de “protesto a favor” (!) de Dilma. Apenas 54% aprovam Dilma. Ou traduzindo: Em ato de revolta pró-Dilma, 46% reprovam Dilma.

Tente explicar isso para um estrangeiro, que não sofre o tipo de alienamento do contato direto com a realidade a que estamos submetidos nas mãos de professores e jornalistas petistas e esquerdistas, e é possível que você acabe como Simão Bacamarte.

coxinhas2Não é de hoje que a Folha de S. Paulo, destacando-se o Datafolha, parece comprar a cantilena que se tornou o discurso do PT 2015: a verborréia de que quem é contra o partido seria apenas uma elite ricaça e egoísta, e ainda por cima branca, que não quer “dividir” sua riqueza com os pobres – e estes, todos, votariam no PT porque é o único partido que se preocupa com eles. A elite seriam os “coxinhas”, que merecem desprezo tão somente porque se lhes imputou um nome feio.

Subtraído a um esqueleto economicista, todo o conteúdo da discussão evanesce a uma luta de classes repaginada (afinal, tal expressão é proibida de ser dita, sobretudo por aqueles que a defendem). Os opressores contra os oprimidos. Os “coxinhas” contra a turma do pão com mortadela.

Desta forma, “esquece-se” que entre aqueles que são contra Dilma e o PT incluem-se até a imensa maioria social-democrata brasileira, que acredita em um Estado atuante – mas não vê mérito na gestão petista para isto, já que a maior parte do dinheiro subtraído do povo pelo PT não vai aos mais pobres, e sim aos Marcelos Odebrechts da vida.

Posteriormente, os mesmos jornalistas usam este contingente “centrista” como prova de que a manifestação não é como “dizem” – mesmo que todos já saibam disso, exceto os próprios jornalistas surpresos, que deveriam ser os primeiros a saber.

No texto da reportagem da Folha, uma informação feita para tentar corroborar esta lengalenga classista: “Na comparação com o perfil dos manifestantes anti-Dilma de domingo (16), chama a atenção o contraste em relação à renda e à cor declarada.” E tome-se um chorume numérico sobre a “elite branca” anti-Dilma e os pobres oprimidos que a defendem.

O problema que parece passar à margem da percepção do jornalista, ou mesmo por suas costas: o contraste de renda e de cor de pele é na verdade muito pequeno entre as duas manifestações.

O que realmente chama a atenção é o contraste de escolaridade e de apoio a figuras do meio do tiroteio, como Eduardo Cunha e Renan Calheiros (que é rejeitado por apenas 51% dos manifestantes pró-Dilma da Marcha da Mortadela – não queira ver a reação a seu nome entre quem não vota no PT).

Quanto maior a escolaridade, ou seja, maior o acesso ao ensino, à informação crítica, mais tempo dedicado ao estudo e ao conhecimento, maior a probabilidade de o manifestante estar no domingo, contra o PT, do que numa quinta-feira, o defendendo. Isto é completamente ignorado pela Folha.

Ainda assim, tal diferença é grande, mas não enorme – embora muito maior do que a alegada diferença de renda ou cor de pele. Contra Dilma, 76% têm ensino superior. A favor, são 52%.

Quem possui ensino superior raramente faz parte das camadas mais baixas da população (realmente baixas, não apenas se considerar pobre porque pega ônibus e não almoça em restaurante), o que já retira praticamente metade dos mortadeleiros da “baixa renda”.

Tal fato é confirmado pelo próprio Datafolha, a despeito do comentário infeliz do jornalista. Este é o perfil de renda dos manifestantes contrários a Dilma:

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E este é o perfil de renda dos manifestantes a favor da petista:

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Como se vê, o grosso dos dois protestos está na faixa variando de 2 a 20 salários mínimos, o que perfaz, naturalmente, a classe média. A variação maior é só a partir de cinqüenta salários mínimos, algo meio irreal para o padrão brasileiro e um percentual ínfimo para a Folha afirmar que “chama a atenção” – e como se produzir cinqüenta salários sem ser via petrolão fosse demérito para alguém.

Não se trata apenas de variações de “sub-classe” (média, alta etc), mas de momentos de vida das pessoas: manifestantes a favor do impeachment tendem a ser mais jovens (dados do Datafolha), vendo ainda possibilidade de crescer por mérito próprio – o que é impedido pela gestão e pelo modelo de Estado inchado e interventor da petista. Engolidos pela economia que os mantém onde estão, não importando o quanto trabalhem ou estudem, acabam se voltando contra Dilma.

A grande variação é um aumento da primeira faixa (de 0 a 2 salários mínimos) que, à margem da zona economicamente ativa, é mais favorável a Dilma.

coxinhas5Tal fato é comemorado por “pesquisadores” como Esther Solano (apresentada por Mônica Bergamo apenas como “professora da Unifesp, sem menção a ser co-autora de um livro para “tentar compreender” a tática black bloc) e Pablo Ortellado (também apresentado só como “professor da USP”, e não ativista do MPL co-autor do livro “20 Centavos: a luta contra o aumento” e posfaciador do livro de Solano) como uma mostra de que os pobres são petistas, e que, citando-os, o protesto contra Dilma é “socialmente excludente” (como se os manifestantes saíssem expulsando quem é pobre da Paulista) ou que a periferia não se identifica com ele, pois “o movimento não consegue agregar pessoas e grupos sociais com pautas diferentes” (a saber, o movimento é ruim porque quer o impeachment de Dilma, e não plantar guaranis-kaiowás ou ser contra a PEC 37).

Ou seja, para tais pesquisadores, basta dizer que algo é defendido pela periferia ou pelos pobres que este algo se torna automaticamente mais virtuoso. Pensemos no funk ostentação.

Não percebem eles que, justamente, quem está na zona economicamente inativa é aquela fatia da população que não lê nem jornal, que dirá Max Horkheimer, e que vai a qualquer protesto em troca de um pão com mortadela ou a promessa de R$ 50 – compra de consciência que é cada vez mais descaradamente admitida até pelo perfil oficial da CUT no Twitter ou pelo Instituto Lula, sem a menor vergonha.

Para tais pesquisadores, Dilma ser defendida por quem está em desespero econômico é prova de que um protesto contrário a ela é falso.

Para tais gênios, Dilma é boa e quem é contra ela é mau porque Dilma é defendida apenas por quem não deve saber o que é o STF, que dirá o que significam nomes como Janot, Moro, Toffoli, Fachin, Marcelo Odebrecht, Youssef, Vaccari, Pascowitch e tantos personagens da mais do que bilionária ópera bufa que passa despercebida pela “periferia”.

Para tais luminares do saber mundial, ônibus entupidos de “manifestantes” chegarem para fazer peso no protesto não é motivo para separar um protesto popular e espontâneo de uma convocação a soldo de CUT, MST, UNE e afins, preferindo-se tratar estes dois protestos como “equivalentes”. E até o segundo como mais virtuoso e representativo do povo e da periferia do que o primeiro.

E sem perceber que o pão com mortadela prometido é que faz com que o “protesto a favor” (!!) de Dilma tenha a “estatística” de que supostamente “mais pobres” defendem a presidente.

coxinhas6Ao invés de uma sapiente e virtuosa preocupação com os pobres, em ouvir os pobres, entender as demandas dos pobres e buscar representar tais pobres, tudo o que se vê nesta defesa da Marcha da Mortadela contra os “coxinhas” é, justamente, um brutal elitismo de pesquisadores como Esther Solano e Pablo Ortellado, ou de jornalistas como Mônica Bergamo e todo o Datafolha e seus comentadores na Folha: os pobres usados como massa de manobra, destituídos de personalidade e independência, vendidos por um pão com mortadela, apenas para defender um péssimo governo como número, sem conhecer o que acontece em Brasília, nas empreiteiras, nas ditaduras amigas do PT. Algo que, por si, deveria causar um novo escândalo a impugnar todo um partido, num país sério.

Isto para não entrar no mérito da “auto-declaração de cor de pele”, como se isto significasse alguma coisa: no dia em que tivermos uma definição do que significa, de fato, “pardo”, num país latino em que é possível ser “pardo” tendo 100% de sangue europeu ou ter a pele muito mais branca sendo descendente de indígenas ou africanos, talvez até levemos esta besteira a sério – até mesmo antes de reclamarmos da total ausência de asiáticos na contagem, relegados, coitados, à categoria “outros”.

Enquanto a narrativa jornalística, a infowar de que tanto alertei em meu livro, trata dois eventos sem o menor parentesco ou semelhança como dois lados da mesma moeda, a realidade ficou inexplicada na numerologia alquimista da Folha.

Por exemplo, entender que a variação verdadeira é de escolaridade – e muito mais do que isso, algo que não se mede em nenhuma pesquisa estatística: de percepção e entendimento da realidade – que faz com que a maior parte de quem protesta contra Dilma tenha alguma compreensão ainda que básica sobre as notícias políticas, enquanto apenas 54% de quem perde uma quinta-feira para ir a um “protesto a favor” (!!!) de Dilma de fato a apóie.

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Ou de muitos ali, na verdade, acharem que estão em um ato CONTRA Dilma Rousseff.

Ou de, como a reportagem da Folha mostra, em um ato contra o impeachment de Dilma, 13% (cabalístico?) apoiarem… o impeachment de Dilma (!!!!!). Ou de 20% (!) classificarem a gestão da petista como ruim ou péssima.

Alguém aí perguntou a opinião de Esther Solano ou Mônica Bergamo sobre como está a “identificação da periferia” no ato “socialmente includente” de pessoas usadas como número amorfo sem nem saberem o que estão fazendo graças à sua humilde condição, tão deteriorada pela própria política econômica intervencionista de Dilma Rousseff?

Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para o jornal Gazeta do Povo , além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Lançou seu primeiro pela editora Record Por trás da máscara, sobre os protestos de 2013.

2 comentários em “A coxinha e a mortadela no Datafolha – não é a renda, é a escolaridade

  • Avatar
    24/08/2015 em 6:19 pm
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    Ótimo post. O PT está numa “bad trip” mesmo, delirando com saudações a mandiocas, protestos a favor etc. E eu nunca imaginei que o partido ficaria tão mal na foto, ia descer tanto no conceito da população como está hoje. Treze (ops) anos no governo mentindo sem parar, além da incompetência, deram nisso.

    PS: não dá para o pessoal do IL tirar essa barra de rolagem vertical do blog e deixar a comum do navegador? Aqui tá horrível para navegar, e no meu tablet Android não funciona. Abs

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    24/08/2015 em 4:33 pm
    Permalink

    “Neide Maria, 60, faz parte de um movimento de moradia e veio para a manifestação pedir o impeachment de Dilma Rousseff. ‘Antes do PT eu tinha dinheiro para o aluguel'”

    Neide Maria, sem dinheiro para o aluguel, aceita um bico no “protesto a favor” “pago” pela CUT e não consegue esconder o que pensa. Apesar dos pesares a noção falou mais alto. Só prova o quanto o povo carente, público alvo da política petralha, tem dignidade, diferente dos almofadinhas, como esse empresário mongolão da reportagem.

    Ou talvez esse empresário não seja esse mongolão aparente, mas esteja defendendo a gangue pra continuar fazendo a festa, pois faz parte da mesma.

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