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A ciência da prudência

“Se você quiser realmente procurar a verdade, é necessário que, pelo menos uma vez na vida, você duvide, o máximo possível, de tudo.” (René Descartes)

No ano de 2020, temos ouvido aos quatro ventos que “a ciência” diz muitas coisas; entretanto, o pai do método científico, René Descartes, ficaria decepcionado com a maioria delas. 

Atualmente, a maneira de buscar o conhecimento atingiu patamares inacreditáveis. Em um piscar de olhos conseguimos identificar o que causa uma doença, suas formas de contágio e possíveis tratamentos. Contudo, essas facilidades nos deixaram exigentes. Não basta saber que uma doença assustadora avassalou um país em outro continente. Não basta saber que ela se dissemina com o contato pessoal. Queremos uma solução imediata e efetiva, queremos ver o fim de uma doença que acabou de surgir. Alguns diriam que queremos mágica.

O método científico, a semente desse vasto conhecimento, envolve uma dose grande de ceticismo, não só do conhecimento consolidado, mas também dos conhecimentos inovadores – e prudência é a mais válida virtude para o cético. Em todas as medidas de enfrentamento que experimentamos, foi a prudência o princípio mais ferido.

Comecemos pelo fechamento econômico. A dicotomia entre vida e economia é a premissa mais falsa vista na nossa guerra. O mundo encontrou níveis inimagináveis de prosperidade desde o entendimento de Adam Smith de que as trocas entre pessoas geram riqueza. Essa mesma riqueza gerou o ambiente que trouxe as possibilidades de tratar essa doença. Desprezar isso é especialmente complicado em um país como o Brasil, em que pessoas buscam o seu sustento com o trabalho diário, apesar de saber que manter a vida normal é uma impossibilidade. 

Nesse momento, a ciência da saúde entrou em choque com a ciência econômica. De um lado as ciências biológicas, baseadas na observação da natureza, demonstraram o grande valor do distanciamento; do outro, a ciência econômica, baseada na observação da ação humana, entendeu que as pessoas precisavam de incentivos para manter as suas vidas funcionando. Não achando essas vozes harmonia, sobreveio a crise. De um lado as pessoas tentando “achatar a curva”, usando as palavras vindas dos países mais afetados pela praga. Do outro, os céticos, avisando sobre a impossibilidade de conseguirmos enfrentar a situação com as nossas condições. Essa guerra interna gerou a fragilidade que derrubou ministros, gerou intervenções entre poderes, etc. Enfim, perdemos tempo.

Porém, não bastasse a guerra entre saúde e economia, dentro das ciências da saúde, surgiu uma crise. 

Para o leitor não acostumado, precisamos tornar precisos alguns termos. Estudos científicos existem em várias formas. A mais básica delas, a dos estudos de laboratório, levanta hipóteses para serem testadas. Após isso, se observa o mundo natural para identificar alguns efeitos, para que posteriormente tudo seja testado de forma comparativa. O nosso inimigo invisível tem uma característica que não podemos esquecer: apesar de se espalhar rapidamente, de pessoa para pessoa, ele causa doenças graves apenas em um pequeno número delas. Sabendo disso, entendemos que nem todo doente sofrerá da mesma forma. Somente comparando um número suficiente de pessoas parecidas, podemos chegar ao real efeito. 

Entendendo esse campo de batalha, vamos conhecer nosso arsenal. 

Ainda em março deste ano, surgiu nossa primeira esperança – a cloroquina. No sul da França, foi usada em alguns pacientes, com resultados animadores. Com o passar do tempo, foram testados em mais e mais pacientes, em diferentes momentos da covid-19 e, até hoje (julho), não apresentou a resposta esperada. 

Tempos após, foi levantada a hipótese, a partir de estudos “in vitro”, de que a ivermectina, uma medicação há muitos anos utilizada contra infestações por parasitas, poderia ter efeito contra o novo coronavírus. Entretanto, a dose necessária para esse efeito seria demasiada alta (cerca de 100 vezes a dose usual e 10 vezes acima da dose tóxica). Agora, os médicos esperam os testes posteriores para saber o efeito real dessas opções. 

É argumentado que essas medicações são seguras e que já foram usadas de forma efetiva em outras cidades, com resultados animadores; mas, infelizmente, e por mais que doa ao médico à frente do paciente, esse tipo de comparação não nos traz a segurança de que precisamos para indicar o uso dessas medicações. Outras explicações poderiam ser dadas para esse resultado, entre eles, a imunidade de rebanho, quando o vírus não tem mais quem infectar, ou mesmo o isolamento que a população passou a fazer após notar a piora da saúde. Mais estudos estão sendo realizados ainda neste momento para entender o real efeito dessas medicações no início da doença ou na sua prevenção. Por enquanto, o risco dos efeitos adversos ainda supera a esperança da sua utilidade.

A única arma que se mostrou eficaz contra a doença é um leito de UTI, com pessoal treinado para o tratamento dos severamente acometidos. Entretanto, essa arma é escassa, em especial nos momentos mais críticos. 

Após demonstrar o nosso parco arsenal, resta a última arma, a bomba atômica contra o avanço dessa doença: o cessamento das relações humanas e, por conseguinte, fechamento da economia. Esse amargo remédio, tal qual a bomba que acabou com a Segunda Guerra, deve ter seu uso muito bem calculado e seus efeitos adversos não podem, de forma alguma, ser menosprezados. Os seres humanos são sociais por natureza, o convívio – e as trocas – são tão importantes quanto o oxigênio e o alimento. Apesar de ordens burocráticas tentarem impedir essas atividades, “a ciência” tem mostrado não ser tão efetivo quanto pensamos.

Uma visão pessimista sobre todas as medidas acima é fundamental para entender que nenhuma “ciência” tem resposta para tudo – lembrando que a prudência é o fundamento principal para a tomada de decisões e que a comunicação é, talvez, a ferramenta mais importante para a articulação de todas as “ciências” envolvidas.

*Guilherme Peterson é médico.

Instituto Liberal

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