A censura acadêmica: livros e autores proibidos nas instituições de ensino

escola-austriaca

O leitor já ouviu falar do Index Librorum Prohibitorum ou Índice dos Livros Proibidos? Se não, saiba que foi um documento promulgado em 1599 por Paulo IV e que listou obras e autores proibidos pela Igreja Católica. O Index existiu até 1948. A lista continha autores e obras que a Igreja considerava antagônicas às suas doutrinas e receava que a propagação daquelas obras e autores pervertessem a fé.

Proibição de autores que se posicionavam contra dogmas, exclusão deles das discussões, receio de trazê-los para o debate público. Isso soa familiar? Não é por menos. Hoje temos algo parecido que, a despeito de não ostentar o mesmo corpo, é guiado por alma similar.

Então voltemos à contemporaneidade, pelo menos no que diz respeito ao Brasil e às suas instituições de ensino. Você, caso for estudante, já ouviu falar de Mises na própria universidade? Entendo. As pessoas também ouviam falar de Giordano Bruno enquanto ele esteve no Index. Já ouviu falar de Michael Oakeshott? Um pouco mais difícil, mas ainda assim não chega a me impressionar, afinal, no século XVII também se ouvia falar de René Descartes, embora seu nome constasse no Index.

Disso concluímos que a questão não é saber que o autor existe, o que às vezes nem isso acontece. O ponto central aqui é outro, quer dizer, o autor até pode ter seu nome conhecido, o problema é que liberais e conservadores, por exemplo, chegam nos estudantes pela boca de seus professores, que não raras vezes também são sacerdotes de alguma seita política. Mas assim como os interessados do período em que vigorou o Index procuravam os autores proibidos de forma quase clandestina, hoje parte dos acadêmicos também busca referências fora da universidade. E quando não procuram? Aí é que está o problema, pois nesse caso, as ideias liberais e conservadoras chegarão quase que exclusivamente pelo professor que – salvo raríssimas exceções – distorce o conteúdo original para salvaguardar os dogmas de sua religião política.

Se as obras e nomes listados no Index eram considerados antagônicos às doutrinas católicas, hoje este índex contém obras e nomes que se opõem ao marxismo e seus derivados. Caso um professor-sacerdote esteja lendo este texto, pergunto: você já discutiu seriamente as ideias de Friedrich Hayek sem acusá-lo de “ultraliberal que favorecia a elite?” Você já discutiu Russell Kirk pela ótica do próprio autor, como faz com Eric Hobsbawm? A não ser que você seja a referida raríssima exceção, duvido muito que isso tenha acontecido.

Conhecer o nome de Roger Scruton não significa conhecer suas obras como ele as produziu. Aliás, como Scruton é um dos nomes presentes no índex universitário, talvez os estudantes nem o conheçam e, caso ouvirem falar dele, não conhecerão o autor, mas um espantalho montado pelo professor-sacerdote. Isso para ficar num só exemplo. O Index Librorum Prohibitorum pode ter morrido fisicamente, mas sua alma continua a assombrar o novo templo das religiões políticas.  

Ainda assim o leitor pode alegar que é possível encontrar livros liberais e conservadores na biblioteca das universidades. Concordo. Mas isso não muda muita coisa. Autores satanistas, ateus, materialistas e contrários à fé católica também podem ser encontrados em inúmeras bibliotecas católicas. Não é por isso que os sacerdotes irão utilizá-los positivamente na formação dos seminaristas. Ao contrário, se estudados, só o serão no intuito de serem refutados. Voltamos ao mesmo lugar.

Apesar disso tudo lembremos que as ideias de todos os autores citadas no Index permanecem. Seus livros continuam rodando o mundo enquanto o próprio Index desapareceu como documento e entrou para a história como uma iniciativa autoritária. O mesmo vai ocorrer no caso da “inquisição universitária”. Como diria Freud: “Onde há proibição nasce o desejo.” E com as ideias não é diferente! Quem, à época do Index e do apogeu do Santo Ofício, não gostaria de ler um autor como Galileu Galilei? Se antigamente sujeitos experimentaram a sensação de conhecer um mundo para além dos muros eclesiásticos, o mesmo parece ocorrer hoje em dia no caso da universidade. Quanto mais se descobrem autores liberais e conservadores, mas os estudantes observam a existência de um mundo para além do “santo ofício” dos seus doutrinadores.

Conselho: recorra com voracidade aos livros do “índex acadêmico”, mesmo que alguns semestres sejam simbolicamente terríveis como os autos de fé.

Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Leia também:  A filosofia do fracasso
Thiago Kistenmacher

Thiago Kistenmacher

Thiago Kistenmacher é estudante de História na Universidade Regional de Blumenau (FURB). Tem interesse por História das Ideias, Filosofia, Literatura e tradição dos livros clássicos.