3 motivos pelos quais o mercado não deveria confiar em Bolsonaro

A Revista Istoé lançou uma capa apontando João Amoedo, Henrique Meirelles, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro como os “candidatos do mercado”. É pacífico entre investidores a necessidade de eleger um presidente reformista, que dê jeito a nossa calamitosa situação fiscal e firme bases de crescimento sustentável em médio e longo prazo. E é justamente por esses motivos que os investidores não deveriam cair no “Canto da Sereia” de Jair Bolsonaro.

1- Historicamente Bolsonaro é um nacional-desenvolvimentista

Embora Jair Bolsonaro esteja flertando com uma agenda de Estado menor, toda sua trajetória aponta para ideias nacional-desenvolvimentistas. Atualmente, ainda apresenta restrições ao capital estrangeiro, mesmo sendo o Brasil economicamente mais fechado que Cuba ao comércio exterior.

A despeito de ter votado a favor da Reforma Trabalhista, não faz muito tempo que ele se absteve de votações importantes, como a da Terceirização ou mesmo a que inviabilizava o trabalho dos aplicativos de mobilidade urbana, como a Uber.

Se ao longo da vida ele sempre foi contrário a privatizações, hoje contrasta com o passado e fala a favor delas, apesar de algumas ressalvas. Suas declarações flertam com o passado intervencionista e o novo viés liberalizante.

Seu liberalismo, portanto, é de conveniência, não de convicções ideológicas. Mais que isso: é tarefa ingrata transformar um nacional-desenvolvimentista convicto em mocinho liberal, como afirmou Monica de Bolle.

2- Paulo Guedes pode ser o novo Joaquim Levy

Ter no governo pessoas cujas ideias contrastam com as alardeadas pela presidência já aconteceu. Era 2003 e Henrique Meirelles passou a presidir o Banco Central no governo Lula. Ele foi bem sucedido em sua política monetária, bem como o governo na área econômica, até o início de 2006, ocasião da queda do ortodoxo Antonio Palocci da pasta da Fazenda. Meirelles teve autonomia para trabalhar.

Outro episódio, bem diferente, ocorreu com Joaquim Levy como Ministro da Fazenda no início do segundo mandato de Dilma Rousseff. 11 meses no cargo e basicamente tudo que Levy buscou fazer Dilma sabotou. A presidência não o apoiou, não conseguiu convencer sua própria base em relação à necessidade do ajuste fiscal proposto e nada foi para frente. O Brasil perdeu rating de investimento, a recessão se agravou e o final da história todos sabem. Ao contrário de Meirelles, Levy não teve autonomia para trabalhar.

Contrastando com as ideias econômicas históricas de Bolsonaro, seu conselheiro econômico atual é Paulo Guedes. Se hoje escrevo este texto, é pela influência que Paulo teve em minha vida há alguns anos, ressalto. Em nenhum momento aqui há uma crítica a sua figura, pela qual não possuo apenas admiração, mas gratidão.

A despeito das capacidades de Guedes, não se sabe até que ponto ele influencia Jair. Mesmo com ele já o assessorando, o parlamentar foi irredutível em apoiar a Reforma da Previdência, essencial para evitar um colapso fiscal.

O discurso “essa reforma aí não” alardeado pelo presidenciável é equivocado e irresponsável. Primeiro porque Jair foi inerte durante toda a tramitação da reforma no congresso e não indicou emendas ao projeto, que foi alterado seguidas vezes desde sua apresentação original em Brasília. Depois porque, mesmo que Bolsonaro apresentasse um plano de reforma da previdência mais robusta, sugerida por Guedes com base na implementação de um modelo de Capitalização Individual, isso não faria a reforma proposta pelo Governo Temer inapta.

Embora o modelo proposto por Guedes se trate de um sistema muito mais adequado, sustentável e socialmente justo, instituí-lo atualmente é uma proposta inviável. Como afirma o consultor legislativo Pedro Nery, “regimes de repartição fortes que podem migrar para capitalização com tranquilidade, não os falidos como o brasileiro”. Para se ter ideia da dificuldade, o México adotou o modelo de capitalização individual para os trabalhadores privados em 1997. Duas décadas após e eles ainda estão em transição, fazendo haver forte pressão fiscal sobre os compromissos firmados anteriormente. São os tais dos direitos adquiridos. Certamente Guedes sabe disso, provavelmente aconselhou Jair – e o presidenciável não o ouviu.

Um outro ponto interessante a se analisar é até que ponto Bolsonaro estará disposto a levar adiante reformas, a princípio, impopulares. Como parlamentar, ele admitiu que se absteve de votar em relação ao projeto de terceirização por medo de críticas. Sua postura na presidência será diferente? O mercado não deveria trabalhar com tamanhas dúvidas.

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Em outra esfera, Guedes planeja arrecadar 700 bilhões de reais com privatizações. Jair titubeia ao defendê-las e relativiza a necessidade de acordo com “o interesse nacional”. É contrário privatizar estatais que considera atuarem em “setores estratégicos”. Ora, é justamente quando um setor é estratégico que mais devemos protegê-los de políticos e mantê-lo a salvo das ingerências do Estado – privatizando.

Guedes sugeriu ainda apenas 8 ministérios na composição de um eventual governo. Jair bateu o pé em 15. Não deixa de ser um avanço termos 15 ministérios em vez dos quase 40 de outrora, mas – novamente – Jair não é Guedes. Não 100%. Não sabemos quantos %. Incertezas afastam investidores.

Bolsonaro, que diz não entender de economia, dá todos os indicativos de que não abraçará todo o discurso de seu conselheiro – só o que lhe convém e quando convém. O que será da conveniência de Bolsonaro? Guedes pode ser o novo Meirelles, mas também pode ser o novo Levy. É um risco que investidores, simplesmente, não deveriam correr.

3-  Bolsonaro é um péssimo articulador político

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Apenas para melhor argumentar. Ignore a trajetória passada de Bolsonaro e considere que ele tenha se tornado o maior defensor de uma sociedade de mercado do país. Um novo Hélio Beltrão. Ou a reencarnação do pensamento de Milton Friedman. Ele abraçou completamente as ideias de Paulo Guedes e não irá sabotar sua atuação como Dilma fez com Levy.

Esse cenário, nada plausível, de nada serve se ele for um péssimo articulador político. Como ele o é, a tendência é que ele não consiga aprovar nada no Congresso. Seu governo será um Pato Manco, a exemplo do segundo mandato de Rousseff – mesmo contando com Michel Temer como articulador político, alguém que conhecia o parlamento como poucos.

O candidato não vai conseguir governar se personalizando sobre o Congresso. Dilma fez isso, mesmo com Eduardo Cunha distribuindo todas as cartas nele – e sabemos o que aconteceu.

Não é à toa que Jair demorou mais de 2 décadas para aprovar algo no Congresso, mal apresenta emendas a projetos, jamais presidiu comissões, tampouco é escalado como relator de PLs relevantes. É um parlamentar que nunca teve relevância dentro da Casa, mesmo estando lá há 7 mandatos. Um fato: ele é um péssimo articulador político.

E mais: de nada adianta projetar-se ao Palácio do Planalto estando filiado ao PSL, um partido nanico e que antes contava com apenas 1 membro no parlamento. E mesmo sendo um partido pequeno, muitos dos seus, agora, colegas de agremiação não gostaram de sua vinda, fazendo com que Jair tenha de enfrentar um ambiente hostil interno. Logo, há três elementos objetivos: historicamente Bolsonaro demonstrou não saber articular politicamente no Congresso; seu partido é pequeno e mesmo dentro dele não conta com apoio integral.   

Para se defender das críticas, a assessoria do presidenciável afirma que atualmente ele possui o apoio de 44 deputados e que na campanha pretende chegar a 100. Difícil de acreditar, considerando se tratar do mesmo parlamento que não lhe deu nem 5 votos para a presidência da Câmara dos Deputados há apenas um ano.

Só dá para confiar nesta informação quando pudermos contar os apoios que aparecerem publicamente. Mas, digamos que seja verdade. Em política tudo é verdade no instante em que é dito. Em agosto esses mesmos parlamentares podem migrar para uma candidatura que acreditem ter maiores chances de vencer a corrida presidencial. Muitas incertezas para investidores, não?

Conclusões

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Após a recessão de 2014-16 e seu consequente desemprego, o Brasil vive um momento de crise do intervencionismo, e a tendência é a aprovação de algumas reformas liberalizantes. É o que Sanford Ikeda chama de “a fase contracionista do ciclo intervencionista”.

O mercado deveria buscar um candidato que transmita segurança e previsibilidade, e, principalmente, alguém que, de fato, tenha capacidade para não apenas defender com veemência a necessidade de reformas, mas que consiga aprová-las.

Bolsonaro é um candidato que, no passado não muito distante, não defendeu ideias favoráveis ao mercado e, mesmo atualmente, vacila em fazê-las, logo representa uma enorme matriz de risco. O mercado apoiá-lo em um momento favorável a reformas pode ser o primeiro passo para desperdiçá-lo.

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