Quem será o sucessor de Lulinha Paz e Amor?

COLABORADORES 04.04.08 Quem será o sucessor de Lulinha Paz e Amor?     MARIO GUERREIRO *   Qualquer analista político sensato e inaçodado diria que é muito cedo ainda para se pensar em sucessão. Cedo para quem e onde? Sim, pois no Brasil os prefeitos, governadores e presidentes (de clube de futebol, de escola de […]

COLABORADORES

04.04.08

Quem será o sucessor de Lulinha Paz e Amor?

 
 

MARIO GUERREIRO *

 

Qualquer analista político sensato e inaçodado diria que é muito cedo ainda para se pensar em sucessão. Cedo para quem e onde? Sim, pois no Brasil os prefeitos, governadores e presidentes (de clube de futebol, de escola de samba e até mesmo da Nação) começam a pensar na sua reeleição no dia seguinte da sua eleição. Este é um inegável fato!

No primeiro governo Lulla, ele não tinha que se preocupar com isso, porque – graças a uma mudança na “Constituição dos miseráveis” (os direitos autorais desta expressão são de Ulysses Guimarães) proposta por FHC – este mesmo não só foi agraciado com a alternativa da reeleição – a maior bobagem que ele fez na vida! – como também, querendo ele ou não, beneficiou qualquer um (ou um qualquer) que o sucedesse.

Como se sabe, para os chefes dos Executivos federal, estadual e municipal, nunca é cedo demais para cogitar a questão da sua sucessão. Por sua vez, os analistas políticos consideram prematura uma análise dessa espécie porque, geralmente, estão tão voltados para fatores de ordem conjuntural que negligenciam os de ordem estrutural. E entre estes, há os que já estão claramente delineados neste momento em que vou registrando minhas idéias na telinha de meu PC (personal computer).

Por exemplo: muitos pensam que Lulla está tranqüilo quanto à sua sucessão, simplesmente porque, graças ao seu prestígio pessoal [mais de 60% de aprovação nas mais recentes pesquisas] e seu grande “carisma”, ele facilmente os transferirá para qualquer um apresentado como o seu candidato. Até o Elio Gaspari acredita nisto!

Ocorre que esse negócio de transferência de votos é que nem briga ou paixão: coisas que jamais acontecem quando dependem só de um. Poder até que se pode, mas não se deve amar sem ser amado, é melhor morrer crucificado. Quando um não quer (ou não pode) dois não brigam (nem se apaixonam). Se, por um lado, o transferidor pode ser considerado muito eficiente, por outro há uma grande escassez de possíveis transferidos no PT (Perda Total) ou mesmo no serviçal PMDB, partido-lacaio do tipo: “Fazemos qualquer negócio!”

Recente pesquisa CNT/Sensus confirmou algo que eu – para ser sincero! – já estava careca de saber sem precisar fazer questionários para transeuntes nas ruas: o prestígio de Lulinha Paz e Amor, até o presente momento, não é transferível para os possíveis candidatos do PT. (Jornal do Commercio, 19/2/2008). Ao que eu acrescentaria: nem para nenhum candidato do PMDB, seu grande aliado, muito menos para o de qualquer outro possível partido, simplesmente porque prestígio político é que nem convite pessoal: não se pode transferir.

Quer o candidato de Lulla seja Tarso Genro, Patrus Ananias ou Dilma Rousseff, (entre enxaqueca, bico-de-papagaio e artrite reumática, é difícil apontar a dor pior!) qualquer um dos três será vencido facilmente por Serra (PSDB-SP). Na simulação feita com Dilma, Serra é o líder com 38,2%. A Ministra da Casa Civil – ilustre desconhecida da tela de TV e do povão – recebeu pífios 4,5%. Creio que esse número de votos não dá nem para se eleger deputado estadual no Amapá de Sir Ney.

Modifica-se, no entanto, o quadro sucessório, tornando-se o mesmo mais equilibrado, quando Aécio Neves (PSDB-MG) aparece como candidato dos tucanos, coisa, aliás, tão provável quanto o Brasil entrar para o Conselho de Segurança da ONU ou acabar com a Justiça do Trabalho [que, como todos sabem, é que nem jamelão: só existe em Terra Brasilis].

Nest’outra simulação, Ciro Gomes (o cabra-da-peste não está morto não!) fica com 25,8% das preferências. Heloísa Helena (onde é que fui amarrar meu jegue?!) fica com 19,1% – por mais inacreditável que pareça, essa esquerdista carnívora fica 2,5% na frente do bom administrador que tirou Minas do buraco negro em que foi colocada por Itamar, o Dom Quixote das Alterosas. Refiro-me a Aecinho, bom mocinho.

Todavia, o aspecto mais interessante é que Dilma Rousseff cresce de 4,5% para 5,4%, um crescimento realmente digno de total desprezo! Coisa comparável ao crescimento pífio do próprio país nos tempos chuchu-beleza de Lulinha-Paz-e-Amor!

Dizem, nos bastidores da Ilha da Fantasia, que Lulla não pretende modificar a Constituição propondo reeleição ad libitum do Presidente, muito menos dar um golpe à moda de Hugorila Chávez, o Chapolin Colorado. Ele sabe muito bem que as pesquisas têm mostrado que uma expressiva maioria de seus eleitores e reeleitores – malgrado insensata, seja só por nele ter votado – não apoiaria um golpe de Estado, nem mesmo uma emenda constitucional com vistas à reeleição indefinida. Enfim, algo sensato na cabeça desses energúmenos ou sacripantas, pois se o freguês de Lulla não é uma coisa, certamente é outra, e não pode ser uma terceira – tertium non datur – embora nada o impeça de ser ambas.

Mas, se é assim, que pretende ele? Certamente não é se aposentar, entrar de sócio para o Corinthians F.C. e bater uma bolinha todo domingo à tarde com velhos companheiros do ABC em São Bernardo (SP). Nada disso!

Aquele que não pode se suceder, nem cogita em botar um pijama, dando adeus às armas; pensa logo em alguém para sucedê-lo, comme il faut. Não só isso: quem pensa em um sucessor pensa também em subir nos palanques com ele e bradar, em alto e bom som – para quem quiser e para quem não quiser ouvir – “Este(a) é o homem(a mulher)!”.

Se Lulinha Paz e Amor não acreditasse em sua grande capacidade de transferir votos, não pagaria o mico de dar seu apoio a um(a) candidato(a) – felpuda raposa política que tem mostrado ser ele desde os tempos de piqueteiro no ABC. Mas Lulinha Paz e Amor crê piamente em sua grande capacidade de transferir votos. Logo, deduz-se – sem maiores sacrifícios das sinapses neuronais – que o distinto apoiará quem ele ache melhor para a suposta transferência.

E quem é esse candidato? Candidato não, candidata! Quem? Ora, na Ilha da Fantasia, todo mundo – até mesmo criança com pirulito na boca – já está sabendo, há bastante tempo, que a preferida de Lulinha Paz e Amor é a Mãe do PAC [Programa para Aparência de Credibilidade], companheira Estella, da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, a velha guerrilheira urbana de quepe e botina e Parabellum na cintura, Dilma Rousseff, que se dedicava a arrecadar dinheiro para La Revolución assaltando bancos e ricos burgueses, uma das que entregaram todo seu coração a el hombre muerto, de quem se tornou uma das milhares de inconsoláveis viúvas. Ah! Como era charmoso o
Che! Hay que edurecerse, pero no perder la ternura jamás!
[longos e embevecidos suspiros ao entardecer no último tango em Paris…].

Meus parcos, mas não porcos conhecimentos de marquetingue político garantem-me que se trata de uma candidata tão boa para Presidente quanto Ulysses fora para o PMDB em priscas eras quando esse partido, com a imagem muito desgastada, estava desejoso de sair de cena e atuar nos bastidores. Assim sendo, se era para perder eleição, nada melhor do que lançar o anticarismático Ulysses, cuja semelhança com o antitesão Amenófis IV até a turma do Casseta surpreendeu.

Dizendo em outras palavras: Dilma Rousseff é a melhor candidata para eleger José Serra (PSDB-SP), apesar da semelhança dest’último com Nosferatu, o vampiro expressionista de Murnau. Porém, duas coisas são certas neste domínio de incertezas acachapantes: a morte e os impostos, perdão: para bem ou para mal, Serra será o candidato do PSDB, quer chova ou faça sol. O sobrinho de Tancredo de São João del-Rei (MG) e o Picolé de Chuchu de Pindamonhangaba (SP) podem ir tirando seus cavalinhos da chuva!

A coisa é séria. Dilma não emplaca! Nem que a vaca cante La Cumparsita! Não porque o eleitor brasileiro seja preconceituoso e não vote em mulher. Nos últimos tempos, o eleitorado brasileiro, apesar de continuar votando muito mal – a maior prova é a reeleição de Lulla depois do mensalão e outras inenarráveis safadezas – mostrou bastante amadurecimento político, e tanto é assim que não só passou a votar em mulheres como também em velhinhos gagás e até em assumidos misóginos. Não se pode dizer que não tenha rejeitado arraigados preconceitos… e substituído por outros novos.

Trata-se na realidade de um problema de imagem. De um desses que dificilmente será resolvido pelos melhores marqueteiros políticos disponíveis no mercado. Diferentemente de unanimidades nacionais como Gracinha Massafera e Juliana Paes. (Ah! Juju! Ah! Juju!), a imagem de Dilma não agrada ninguém na tela da TV. Não por ser ela uma respeitável mocréia ou um poderoso tribufu como aquel’outra ministra de Lulla que mais parece uma assombração vinda das brumas do país-dos-pés-juntos.

Não, realmente, não se trata disso. A imagem de Dilma – não necessariamente correspondendo ao que ela é de fato! – é de uma gralha mandona, extremamente autoritária, de maus bofes, inteiramente desprovida de sense of humour, uma mulher que brasileiro nenhum queria para sogra! E brasileira nenhuma queria para mãe! Ainda não foi inventado regime (político ou alimentar) capaz de envernizar tal imagem negativa. De nada adianta ficar tão magrinha como a Noemi Campbell! Por isso mesmo, ambos, brasileiros e brasileiras, não votariam nela nem para síndica do edifício de apartamentos em que moram.

Se algum dia Dilma fosse eleita Presidente do Brasil, eu desfilaria na terça-feira gorda vestido de baiana e cantando o Tico-Tico no Fubá com aquela voz fininha de Carmen Miranda e com argolas penduradas nas orelhas, abacaxi na cabeça e balangandans mil deste meu Brasil varonil! Não, não! Retiro o que disse! Neste país, nunca se sabe o dia de amanhã. O absurdo é coisa tão rotineira quanto cortar as unhas e escovar os dentes. No Brasil, impossível é uma palavra de 10 letras com acento agudo no segundo i.

Enquanto isto no Planalto Central… “o deputado Beto Albuquerque (PMDB-RS) não pára de receber os cumprimentos de seus colegas na Câmara. Tudo por causa da frase dita à Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff: ‘O seu problema é que a senhora só tem boca, não tem ouvidos’. Era o que muitos gostariam de dizer, mas nunca tiveram coragem”. (Jornal do Commercio, 20/2/2008). [Obs.: Realmente, foi preciso aparecer um gauchão macho, de bota, bombacha e chibata na cinta, para enfrentar a fera!!!].

O fato é que Dona Dilma – mulher que foi capaz de pegar um fuzil e ir para a luta na guerrilha urbana – coisa que Heloísa Helena mais desejaria fazer em sua vidinha medíocre de professorinha burguesa – fez exatamente o contrário daquilo que o precavido Polonius aconselhava ao impulsivo Laertes em Hamlet (Shakespeare), a saber:
Lend thy ears to everyone but thy tongue to none
,
ou seja: “Dá teus ouvidos a todos, mas tua língua a ninguém”. Com isto, mostrou-se mais aristotélico do que o próprio Aristóteles, para quem a
phronesis
(prudência) era a mais elevada das virtudes dianoéticas. Ela era e continua sendo, ele que era, mas não mais é, ao menos neste mundo material governado pela geração e corrupção dos seres vivos.

Dona Dilma, escancare seus ouvidos e ouça a Voz da Sensatez, ao menos uma vez na vida: Se Deus nos deu dois ouvidos e uma só boca, é porque queria que ouvíssemos o dobro do que falássemos, n’é mesmo?! E isto não deixará de ser verdade, ainda que Deus inexista e/ou a senhora não acredite Nele, como o Rodrigo Constantino…

 
 

apêndice I: a vingança de washington luís

“Deposto por Getúlio Vargas no começo dos anos trinta, o presidente Washington Luís se exilou nos Estados Unidos e acompanhava à distância os movimentos do ditador. Certo dia, ele soube que, apesar das mudanças anunciadas, Getúlio reconduzira o advogado Coriolano de Góes ao cargo de Chefe da Polícia, que exercera no governo deposto. Washington Luís sorriu, afagou seus bigodes e observou:

‘Este Getúlio está perdido. Caçando com meus cães, vai acabar como eu: num mato sem cachorro.'”(Jornal do Commercio, 20/2/2008).

 
 

apêndice II:  só pagando pra ver

Não só o Elio Gaspari, como também muita gente boa e digna de crédito, pensam que tão grandes são o prestígio e o carisma de Lulla que ele consegue transferir votos elegendo qualquer poste. Segundo essas pessoas, a imagem do possível transferido não desempenha nenhum papel positivo no marquetingue político.

A esses eu gostaria de lembrar que Ulysses Guimarães, Darcy Ribeiro e muitos outros perderam eleições por uma só coisa: apesar de grandes nomes, caindo no popular: “não eram bons de cama, com mil perdões: bons de voto”.

* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.

 
 

As opiniões emitidas na Série COLABORADORES são de responsabilidade exclusiva do signatário, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Instituto Liberal.

O conteúdo do artigo pode ser reproduzido uma vez citada a fonte.

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal e Bernardo Santoro no Patreon!