Como um liberal deve votar em 2026?

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Um liberal não deveria votar para colocar a pessoa certa acima das instituições, mas para impedir que qualquer pessoa fique acima delas. Essa distinção parece simples, porém altera completamente a maneira de avaliar uma eleição. Enquanto grande parte do eleitorado procura líderes capazes de resolver pessoalmente os problemas nacionais, a tradição liberal parte da desconfiança em relação ao poder concentrado. Não importa apenas quem governará, mas quais limites essa pessoa reconhecerá, quais instituições estarão em condições de contê-la e quais incentivos orientarão suas decisões. O voto liberal, portanto, não deveria ser um ato de devoção a personalidades, mas um exercício de controle do poder.

Essa reflexão é especialmente importante nas eleições gerais de 2026. Em 4 de outubro, o eleitor escolherá deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente da República. Serão renovadas as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e 54 das 81 vagas do Senado Federal, correspondentes a dois terços da Casa. Os senadores eleitos exercerão mandatos de oito anos. Eventual segundo turno para presidente e governadores ocorrerá em 25 de outubro.

É importante estabelecer os critérios pelos quais candidatos, partidos, federações e alianças deverão ser avaliados. O primeiro desses critérios é a coerência. O liberalismo não pode ser reduzido a um rótulo eleitoral, a uma identidade partidária ou a um discurso favorável ao empreendedorismo. Um candidato liberal precisa demonstrar compromisso simultâneo com liberdade econômica, responsabilidade fiscal, propriedade privada, segurança jurídica, liberdade de expressão, igualdade perante a lei, descentralização e limitação institucional do poder. Não basta defender privatizações enquanto se apoiam privilégios para grupos próximos. Não basta prometer redução de impostos enquanto se vota pela expansão permanente das despesas. Também não basta falar em liberdade econômica enquanto se desprezam o devido processo legal, a separação dos poderes e as liberdades civis.

Essa coerência deve aparecer principalmente nos momentos difíceis. Quase todo político aceita limites quando está na oposição. O verdadeiro teste ocorre quando seu grupo controla o governo, possui popularidade e encontra resistência às suas decisões. Um candidato comprometido com o Estado de Direito precisa respeitar as regras mesmo quando elas dificultam seus próprios objetivos. Instituições não devem ser avaliadas apenas pelo uso que um governante admirado pretende fazer delas, mas pelo uso que poderão receber quando estiverem sob o controle de seus adversários. Uma prerrogativa excepcional concedida ao político preferido de hoje poderá ser empregada amanhã por alguém que o eleitor considera perigoso.

O segundo critério é a relação do candidato com os privilégios. O liberalismo não representa uma defesa automática dos empresários, mas da livre iniciativa, da concorrência e da igualdade jurídica. Empresários também buscam proteção estatal, subsídios, crédito favorecido, reservas de mercado, barreiras contra concorrentes e contratos públicos direcionados. Quando isso acontece, deixam de disputar a preferência do consumidor para disputar a proximidade com o governo. O candidato verdadeiramente liberal precisa combater tanto o intervencionismo declarado quanto o capitalismo de compadrio, no qual os lucros permanecem privados, mas os prejuízos e os riscos são transferidos para os contribuintes.

Defender o mercado significa aceitar a concorrência, inclusive quando ela ameaça empresas tradicionais ou setores politicamente influentes. Significa simplificar a entrada de novos empreendedores, reduzir burocracias desnecessárias, proteger contratos e permitir que negócios ineficientes percam espaço sem serem permanentemente sustentados pelo Estado. Um político pode defender empresas específicas e ainda agir contra a economia de mercado. Essa distinção deveria ser central na análise de candidatos que se apresentam como representantes do setor produtivo.

O terceiro critério é a responsabilidade fiscal. Toda promessa eleitoral possui um custo, ainda que esse custo seja omitido da propaganda. O Estado não produz recursos próprios. Aquilo que distribui foi retirado do contribuinte por meio de tributos, obtido mediante endividamento ou financiado por mecanismos que comprometem o poder de compra e a capacidade econômica futura da sociedade. Quando um candidato anuncia benefícios, reajustes, subsídios, obras e novos programas, a pergunta liberal deveria ser imediata: quanto custará, quem pagará e qual despesa será reduzida para abrir espaço no orçamento?

Essa análise não pode ser substituída por discursos genéricos de austeridade. Responsabilidade fiscal não significa cortar despesas indiscriminadamente enquanto se preservam privilégios corporativos, estruturas redundantes e programas de baixa eficiência. Significa estabelecer prioridades, avaliar políticas públicas, encerrar iniciativas que não produzem resultados, melhorar a qualidade do gasto e reconhecer que recursos públicos são limitados. Um plano de governo que promete atender a todos os grupos e resolver simultaneamente todos os problemas não demonstra ambição administrativa, mas incapacidade de fazer escolhas.

O histórico do candidato deve valer mais do que suas declarações de campanha. Parlamentares que já exerceram mandatos podem ser avaliados por seus votos, projetos, relatórios, atuação em comissões, gastos, emendas, posicionamentos e fidelidade às orientações partidárias. Governadores, prefeitos, ministros e outros gestores podem ser julgados por resultados administrativos, evolução das despesas, qualidade das equipes, ambiente regulatório, transparência e capacidade de execução. Não é necessário exigir concordância absoluta em todas as questões, mas é indispensável procurar coerência entre aquilo que o político afirma defender e aquilo que fez quando teve poder para decidir.

A escolha de um deputado exige uma atenção adicional porque o sistema proporcional brasileiro não transforma o voto em uma relação exclusivamente individual. As cadeiras são distribuídas inicialmente entre partidos e federações de acordo com o desempenho eleitoral das respectivas listas e, depois, preenchidas pelos candidatos mais votados dentro de cada organização. Em outras palavras, o voto dado a um candidato também fortalece seu partido ou sua federação e pode contribuir para a eleição de outros integrantes da mesma chapa.

Por isso, não basta perguntar se determinado candidato parece razoável. É necessário verificar quem são seus companheiros de lista, como vota a bancada de sua legenda, quais alianças o partido construiu, quais lideranças controlarão a organização e quais compromissos serão assumidos depois da eleição. Um candidato pode adotar um discurso independente durante a campanha e, depois de eleito, obedecer a orientações partidárias incompatíveis com aquilo que prometeu. Também pode receber votos sem ser eleito e, ainda assim, ajudar sua legenda a conquistar uma cadeira ocupada por alguém ideologicamente muito diferente.

As federações partidárias tornam essa análise ainda mais necessária. Elas atuam eleitoral e parlamentarmente como uma única agremiação e precisam permanecer reunidas por pelo menos quatro anos. Assim, o eleitor não está fortalecendo apenas a sigla formal do candidato, mas a estrutura política mais ampla à qual ela se encontra vinculada.

Também é preciso abandonar a ideia de que um bom deputado é necessariamente aquele que apresenta o maior número de projetos. O Brasil já possui uma quantidade excessiva de normas, muitas vezes contraditórias, sobrepostas e de difícil compreensão. Um parlamentar pode servir melhor à liberdade revisando regulações, revogando leis inúteis, impedindo novos gastos, fiscalizando o Executivo e consolidando regras existentes do que apresentando dezenas de propostas simbólicas. A produtividade legislativa não deve ser medida pelo volume de páginas acrescentadas ao ordenamento jurídico, mas pela qualidade das decisões tomadas e dos abusos evitados.

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Chega-se, então, à questão central: o liberal deveria preocupar-se mais com o Executivo ou com o Legislativo? Em termos institucionais, ambos são indispensáveis. Em termos eleitorais, porém, o brasileiro precisa dedicar muito mais atenção ao Legislativo do que tradicionalmente dedica. Isso não ocorre porque a Presidência tenha perdido importância, mas porque o Executivo já recebe uma atenção desproporcional, enquanto deputados e senadores são frequentemente escolhidos de maneira apressada.

O presidente da República dirige a administração federal, nomeia ministros, sanciona e veta projetos, edita medidas provisórias nas hipóteses constitucionais, expede decretos e regulamentos, participa da elaboração do orçamento e indica autoridades para funções relevantes. O governador exerce atribuições semelhantes na esfera estadual e controla estruturas decisivas nas áreas de segurança, educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico. Por essas razões, a qualidade administrativa, a equipe, a responsabilidade nas nomeações e o respeito às limitações do cargo devem ser cuidadosamente avaliados. As competências centrais do Executivo federal estão previstas especialmente no artigo 84 da Constituição.

Entretanto, o Congresso Nacional não é um poder secundário nem uma simples base de apoio ao presidente. Cabe a ele legislar, modificar tributos, aprovar o orçamento, fiscalizar a administração, analisar vetos, deliberar sobre reformas constitucionais e sustar atos do Executivo que ultrapassem o poder regulamentar. Um presidente reformista depende do Congresso para transformar propostas em mudanças legais duradouras. Um presidente autoritário pode ser contido por parlamentares independentes. Da mesma maneira, um Congresso fisiológico pode bloquear reformas, ampliar despesas, preservar privilégios e obrigar qualquer governo a negociar permanentemente com grupos interessados no controle do orçamento. Essas atribuições estão concentradas, entre outros dispositivos, nos artigos 48, 49 e 52 da Constituição.

O retrospecto orçamentário recente reforça essa conclusão. A Lei Orçamentária de 2026 prevê aproximadamente R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Desse montante, R$ 37,8 bilhões correspondem a emendas de execução obrigatória, sendo R$ 26,6 bilhões em emendas individuais e R$ 11,2 bilhões em emendas de bancadas estaduais. As emendas de comissão somam R$ 12,1 bilhões. Esses valores demonstram que deputados e senadores não apenas produzem leis e fiscalizam o governo. Eles também influenciam diretamente a distribuição de uma parcela relevante dos recursos públicos federais.

A ampliação do poder orçamentário do Congresso não é necessariamente ruim. Em tese, ela pode reduzir a concentração de decisões no Executivo e permitir que demandas regionais recebam maior atenção. O problema surge quando a descentralização ocorre sem transparência, planejamento, critérios técnicos e responsabilização. Nesse caso, as emendas podem fragmentar políticas públicas, financiar projetos pouco prioritários, alimentar redes clientelistas e transformar recursos do contribuinte em instrumentos de reprodução eleitoral. Um liberal não deveria defender o monopólio do orçamento pelo Executivo, mas também não deveria confundir descentralização com distribuição opaca de verbas.

Se existe um cargo que merece atenção especial em 2026, é o Senado. Cada estado elegerá dois senadores, e os vencedores exercerão mandatos até 2035. Além de participar da elaboração das leis e das mudanças constitucionais, o Senado possui competências privativas para analisar indicações a tribunais superiores, ao Banco Central, à Procuradoria-Geral da República e a outras instituições, bem como para processar e julgar determinadas autoridades nos casos previstos pela Constituição.

A escolha de um senador, portanto, não deveria ser baseada apenas em popularidade, desempenho nas redes sociais ou proximidade com um candidato presidencial. É preciso avaliar equilíbrio, independência, conhecimento institucional, respeito ao federalismo e capacidade de examinar autoridades indicadas sem submissão automática ao governo ou à oposição. Um senador eleito em 2026 poderá participar de decisões cujos efeitos ultrapassarão amplamente o mandato do próximo presidente.

Diante disso, o liberal deve preocupar-se mais com o Legislativo? A resposta mais precisa é que deveria corrigir a desproporção atual. Não se trata de ignorar a Presidência ou os governos estaduais, mas de reconhecer que a sociedade brasileira investe enorme energia na escolha do Executivo e quase nenhuma na composição dos órgãos encarregados de criar leis, controlar o orçamento, fiscalizar o governo, aprovar autoridades e alterar a Constituição. Um bom presidente não compensa um Congresso ruim. Da mesma forma, um Legislativo responsável pode limitar os danos de um Executivo intervencionista e criar condições para reformas que sobrevivam à alternância de poder.

Nos candidatos ao Executivo, o eleitor deve procurar competência administrativa, qualidade de equipe, viabilidade fiscal, respeito ao federalismo e disposição para governar dentro das instituições. Nos candidatos ao Legislativo, deve procurar coerência de votos, independência, conhecimento das competências do cargo, compromisso com a fiscalização, responsabilidade orçamentária e disposição para eliminar regras e privilégios, e não apenas criar novos programas.

É igualmente importante examinar as propostas dentro das competências reais de cada função. Deputado não é prefeito e não deveria ser escolhido apenas por prometer obras ou distribuir recursos. Presidente não possui autoridade constitucional para executar sozinho todas as reformas que anuncia. Senador não pode ser reduzido a cabo eleitoral de uma candidatura presidencial. Quando o candidato promete algo que seu cargo não pode entregar, demonstra desconhecimento institucional ou aposta na desinformação do eleitor.

O liberal também deve observar a origem dos recursos de campanha, a declaração de bens, as certidões apresentadas, a situação jurídica da candidatura e as prestações de contas. Depois dos registros oficiais, essas informações poderão ser consultadas nas ferramentas de divulgação da Justiça Eleitoral. A transparência financeira não garante virtude, mas ajuda a identificar relações, interesses e incoerências que a propaganda procura esconder.

Nenhum desses critérios eliminará completamente a incerteza. Candidatos mudam de posição, partidos celebram alianças inesperadas e governos enfrentam circunstâncias que não existiam durante a campanha. O objetivo não é prever o futuro com perfeição, mas reduzir a distância entre o discurso eleitoral e o comportamento provável. Para isso, histórico, incentivos, partido, federação, equipe e respeito às competências constitucionais oferecem sinais mais confiáveis do que slogans, vídeos emocionais e declarações cuidadosamente preparadas.

O voto liberal não deve escolher quem promete utilizar um poder ilimitado para fazer o bem, mas quem reconhece limites que continuarão protegendo a sociedade quando seus adversários chegarem ao governo. Em 2026, isso exige atenção especial ao Congresso, principalmente ao Senado, sem negligenciar a responsabilidade administrativa do presidente e dos governadores. Exige também compreender que o voto para deputado fortalece uma chapa inteira, que promessas possuem custos e que liberdade econômica sem liberdade institucional é apenas uma concessão temporária do governante.

A pergunta decisiva não é qual candidato utiliza com maior frequência a palavra liberdade. É qual deles demonstra, por seu histórico, suas propostas e suas alianças, que aceitará governar sem retirar dos outros o direito de discordar, empreender, possuir, contratar, produzir e conduzir a própria vida. O político mais compatível com o liberalismo não é aquele que pede confiança ilimitada para transformar o país. É aquele que compreende que nenhum projeto político, nem mesmo o seu, deve estar acima da lei e da liberdade individual.

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João Loyola

João Loyola

Formado em administração pela PUC Minas e em Gestão de Seguros pela ENS, Pós-Graduado em Gestão Estratégia de Seguros pela ENS, é sócio sucessor da Atualiza Seguros, sócio da Botrel e Loyola consultoria e é associado do IFL-BH.

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