Roberto Campos e a ironia dos ‘’ários’’
Atualmente, valoriza-se com frequência a centralidade de diferentes agentes sociais, aqui sintetizados na expressão “ários”: funcionário, operário e missionário. Curiosamente, o empresário raramente recebe o mesmo destaque no debate público. Esta reflexão inspira-se no estilo analítico de Roberto Campos, especialmente em entrevistas concedidas na década de 1990, nas quais se evidenciaram inconsistências recorrentes na formulação de prioridades no Brasil.
É uma premissa fundamental da tradição liberal que todos os indivíduos merecem igual respeito e dignidade. Afinal, o respeito ao indivíduo, seja ele qual for, constitui um dos primeiros atributos da tradição liberal. No entanto, a análise funcional de seus papéis revela distinções relevantes. Funcionários e operários são indispensáveis para a execução das atividades produtivas. Os missionários exercem uma função voltada à dimensão espiritual e ao serviço comunitário, contribuindo para a formação moral de inúmeras pessoas. Importa observar que o Concílio Vaticano II promoveu, em certa medida, uma inflexão nesse paradigma, ao incentivar maior engajamento com as realidades temporais. Ainda assim, verifica-se contemporaneamente um movimento de retomada de ênfases mais transcendentes. Nesse contexto, a figura do empresário permanece sub-representada, apesar de sua função estruturante.
O empresário ocupa uma posição singular no processo econômico. É quem identifica oportunidades, organiza os fatores de produção, investe capital, assume riscos e coordena recursos para transformar ideias em bens, serviços e empregos que demandam trabalho assalariado. Sem essa iniciativa, não haveria atividade produtiva capaz de sustentar as demais funções econômicas.
No Brasil, essa tarefa é desempenhada sob condições frequentemente adversas. A complexidade regulatória, a elevada carga tributária, a insegurança jurídica e a constante instabilidade das normas reduzem a previsibilidade e elevam o custo de empreender. Essa realidade confirma uma das críticas mais recorrentes de Roberto Campos: o excesso de intervenção estatal frequentemente transforma o empreendedor em um sobrevivente da burocracia.
Um país somente alcança prosperidade duradoura quando compreende e respeita aqueles que criam riqueza. Isso não significa conceder privilégios ao empresário, mas reconhecer objetivamente sua função na geração de investimentos, empregos, inovação e crescimento econômico, exercida por quem investe, empreende e gera atividade produtiva. Ao mesmo tempo, cabe ao Estado permitir que o cidadão comum tenha acesso aos pressupostos necessários para melhorar sua condição financeira, seja por meio do trabalho, do empreendedorismo ou da livre iniciativa. Entretanto, isso se torna inviável em um ambiente marcado por burocracia excessiva e elevada carga tributária, dificuldades que atingem desde pequenos empreendedores até empresários já consolidados. Trata-se, inclusive, de um fator que compromete a competitividade nacional e afasta investidores do Brasil.
Reconhecer a importância do empresário não implica desvalorizar trabalhadores, funcionários ou missionários. Significa compreender que a prosperidade nasce da livre iniciativa e da cooperação voluntária entre indivíduos e que o desenvolvimento sustentável depende de instituições que protejam a propriedade, os contratos e a liberdade econômica, previsível e favorável à produção.
*Isaac Leal da Silva Freitas é membro do Instituto Atlantos.



