Resenha do livro Viagem (Graciliano Ramos na URSS de Stalin)

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Ao visitar a União Soviética, Graciliano Ramos encontrou algumas das coisas que esperava encontrar, percebeu outras que o azedaram e, sobretudo, deixou registrado um dos mais interessantes documentos literários sobre a experiencia de um grande escritor no país que se tornou uma das mais sangrentas ditaduras do século XX. Em abril de 1952, Graciliano Ramos partiu do Brasil rumo à União Soviética.

Não era exatamente uma viagem turística, embora o escritor tenha conhecido Moscou, a Geórgia e outros lugares do vasto território soviético, além da Checoslováquia. Era, sejamos honestos, uma espécie de peregrinação política.

Membro do Partido Comunista do Brasil desde 1945, Graciliano integrou uma delegação tupiniquim em jornada à URSS para acompanhar os festejos do Primeiro de Maio, a convite do Comitê Central do partido. Já reconhecido como um dos mais importantes romancistas brasileiros, o autor do esplêndido Vidas Secas não escondia de ninguém sua inclinação à esquerda, de maneira que visitar a URSS em pleno governo Josef Stalin (que morreria no ano seguinte) acabou por ser, para Graciliano, uma forma de unir o útil ao agradável. O resultado daquela experiência seria Viagem, livro publicado postumamente, em 1954, um ano depois da morte de Graciliano.

A obra permanece uma peça curiosa na bibliografia do escritor. É simultaneamente relato de viagem, diário, crônica, documento político e exercício literário. E talvez seja justamente essa mistura que o torne tão interessante para o leitor contemporâneo.

Graciliano não era um escritor qualquer viajando para um país qualquer. Era um dos maiores observadores da realidade brasileira do século XX indo conhecer aquilo que, para boa parte da esquerda intelectual de seu tempo, representava o futuro – e ainda hoje há quem mantenha viva essa ilusão. Não se tratava apenas de conhecer Moscou, mas de perceber in loco a sociedade que alegava ter descoberto o caminho para superar a exploração, a desigualdade e mazelas do capitalismo.

É aqui que começa a ironia. Sabemos hoje coisas que Graciliano não poderia saber em sua completude: que aquela sociedade não estava simplesmente “construindo o futuro”. Estava, sobretudo, escondendo o passado, controlando o presente e produzindo, em escala monumental, vítimas que a propaganda oficial não permitia atinar. Isso não significa que Viagem seja um panfleto soviético. Também não significa que Graciliano tenha sido um escritor intelectualmente desonesto. Pelo contrário. Na realidade, o livro é muito mais interessante do que qualquer dessas interpretações simplistas.

O escritor diante da realidade

Uma das grandes virtudes de Graciliano Ramos era justamente sua capacidade de observar. Seu estilo não combina muito bem com propaganda barata. A prosa é seca, econômica, mau humorada – esse traço, inclusive, chega a fazer rir não poucas vezes. Graciliano não era dado a entusiasmos fáceis. Mesmo quando se admirava, seu olhar permanecia atento aos detalhes. É por isso que Viagem merece ser lido. O escritor vê árvores, ruas, pessoas, fábricas, hotéis, monumentos, estações de metrô, praias, trabalhadores. Repara em coisas aparentemente insignificantes. Em determinado momento, chega a ser repreendido por fumar no metrô de Moscou, em uma passagem que revela, com o habitual humor seco do autor, o contraste entre seus brasileiríssimos hábitos e a disciplina gelada do ambiente soviético. Relata a visita a uma fábrica de meias em Tbilisi, que lhe parece ser muito mais do que uma simples fábrica: uma espécie de instituição social destinada a organizar a vida dos trabalhadores. Em Gagra, conhece uma colônia de férias ligada à indústria de chá e observa, com genuíno interesse, aspectos da vida cotidiana soviética que se lhe apresentam.

O ponto onde deixa sua paixão comunista mais evidente talvez seja o capítulo 9, quando não apenas registra a profusão de retratos de Stalin (figura quase onipresente) por toda Moscou, mas também faz loas à figura do mandatário soviético chamando-lhe de “estadista”, “tremendo condutor de povos” e “símbolo nacional”. Stalin morreria em março de 1953; Graciliano, quinze dias depois. Infelizmente, não viveu para ouvir o “discurso secreto” de Nikita Khrushchev, em 1956, no qual o novo dirigente soviético denunciaria os crimes de Stalin e o culto à personalidade (literalmente um messianismo às avessas) construído em torno do ditador. Ou seja, chegou à União Soviética no apogeu do stalinismo e morreu antes que o próprio regime começasse a admitir publicamente parte dos crimes de seu principal dirigente.

Graciliano viu bastante coisa. Lendo o livro, resta claro: ele está realmente olhando. Alguém poderia dizer: olhou o que lhe permitiram… não protesto. Déspotas costumam ser excelentes propagandistas. O problema maior, ouso dizer, é que olhar não significa necessariamente compreender. E talvez essa seja a questão central de Viagem.

A ideologia também é uma forma de cegueira

Ter o privilégio do distanciamento temporal e saber da cosmovisão do autor são aspectos que nos proporcionam uma chave especialmente fecunda para compreender a obra. Ao passear pelas 34 crônicas, notamos que Graciliano apresenta considerável fascínio pela realidade soviética, muito embora, ao mesmo tempo, sua construção literária acabe deixando aparecerem aqui e ali, ainda que indiretamente e contra as intenções do autor, aspectos da autocracia stalinista. Essa talvez seja uma observação mais interessante do que simplesmente afirmar que “Graciliano foi enganado pela propaganda”. Ele também interpretou. E interpretou a realidade a partir de uma visão de mundo previamente estabelecida. Essa diferença é fundamental.

Todo viajante leva consigo uma bagagem que não cabe na mala. Carrega expectativas, valores, preconceitos, simpatias e antipatias. Vê o que existe, mas também aquilo que está previamente preparado para reconhecer. Graciliano chegou à União Soviética esperando encontrar uma sociedade que havia tomado um caminho histórico superior. Sua admiração não era gratuita ou puramente propagandística, estava ligada a uma convicção política profunda. Por isso, certas coisas que, para um observador liberal (estamos no IL, afinal), poderiam parecer imediatamente perturbadoras eram interpretadas por ele dentro de outra moldura.

A fábrica podia ser vista como demonstração de organização social. A disciplina podia soar interesse coletivo. A centralização podia ser apresentada como planejamento racional. O sacrifício presente podia ser justificado pelo glorioso futuro. E este último ponto talvez seja o mais importante de todos. Poucas ideias políticas foram tão perigosas no século XX quanto aquela segundo a qual o sofrimento de hoje pode ser legitimado pela promessa de um paraíso terreno amanhã.

O futuro precisava de uma fila

Hoje sabemos que a União Soviética de 1952 estava muito longe da imagem de sociedade emancipada que propagandeavam. A documentação posteriormente aberta nos arquivos soviéticos permite compreender com muito mais precisão o funcionamento do regime. Stalin promoveu coletivização forçada da agricultura, deportação de milhões de camponeses, industrialização compulsória, expansão dos sistemas Gulags, perseguições políticas e campanhas de repressão que atingiram milhões de pessoas (se fosse falar sobre o “grande expurgo”, este artigo precisaria se tornar um livro). A farta documentação reunida pela Library of Congress mostra a dimensão do sistema de trabalho forçado, da coletivização e da fome associada às políticas stalinistas. A coletivização iniciada no final dos anos 1920 foi acompanhada por violência e deslocamentos em massa. Os documentos registram que cerca de um milhão de famílias classificadas como kulaks — aproximadamente cinco milhões de pessoas — foram deportadas, ao passo que a coletivização forçada contribuiu para a devastadora fome de 1932–33. Em 1940, aproximadamente 97% das propriedades camponesas haviam sido coletivizadas. O Gulag, por sua vez, não era uma aberração marginal do sistema. Tornou-se parte da própria engrenagem econômica/politica soviética.

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Milhões de presos passaram pelo sistema, incluindo criminosos comuns, dissidentes e opositores políticos e religiosos. Prisioneiros foram utilizados – praticamente escravizados – na construção de canais, ferrovias, hidrelétricas, estradas e empreendimentos industriais. As condições eram extremamente severas, com alimentação insuficiente, roupas inadequadas, jornadas exaustivas e elevada mortalidade. Nada disso aparece diante de Graciliano em 1952 com a clareza com que aparece para nós em 2026. Há, porém, razão histórica para tanto.

Quando Graciliano viajou, o regime soviético continuava sendo uma sociedade fechada, submetida a rígido controle político e informacional. O viajante estrangeiro não estava simplesmente entrando em um país, mas em um espaço cuidadosamente organizado para controlar aquilo que o estrangeiro poderia ou não ver (Graciliano chega a fazer troça disso, sugerindo que conterrâneos já lhe tinham dito coisa parecida). E aqui a questão deixa de ser exclusivamente histórica. Ela se torna liberal.

Quem controla a informação controla o mapa

Há uma velha pergunta que a experiência soviética deveria ter tornado permanente: como saber se uma sociedade é realmente livre quando o Estado controla as informações disponíveis sobre ela? Não basta perguntar quem possui as fábricas. É preciso perguntar quem possui os jornais. Não basta perguntar quem administra as escolas. É preciso perguntar quem decide o que pode ser ensinado. Não basta perguntar quem planeja a economia. É preciso perguntar quem pode contestar o plano e os resultados. Não basta perguntar quem promete igualdade. É preciso perguntar quem pode dizer que a igualdade prometida não existe. Essa é uma das contribuições mais profundas que a leitura contemporânea de Viagem pode oferecer.

O socialismo soviético não produziu apenas um problema econômico. Produziu um problema de conhecimento. O planejador central pretendia conhecer uma sociedade inteira. O Partido pretendia saber quais eram as necessidades dos trabalhadores, quais bens deveriam ser produzidos, quanto deveria ser produzido e onde os recursos deveriam ser alocados. Ao mesmo tempo, o sistema político controlava os canais pelos quais informações “inconvenientes” poderiam escapar. O problema, portanto, não era apenas que o Estado controlava a economia, mas que ele pretendia controlar a própria realidade. Ou, pelo menos, a versão da realidade que poderia ser publicada.

É justamente nesse ponto que a distância entre Graciliano Ramos e Friedrich Hayek (para citar um autor liberal) se torna interessante. O primeiro via na organização soviética a possibilidade de superar a desordem social do capitalismo. O segundo havia identificado no planejamento central um problema muito mais profundo: nenhuma autoridade possui o conhecimento necessário para substituir a miríade de informações dispersas entre milhões de indivíduos. A economia não é apenas uma máquina. É um sistema de informações. Quando se destrói a liberdade necessária para que essas informações circulem, o problema não desaparece. Ele apenas é lançado à vala comum – junto a milhões de cadáveres inocentes.

O livro que o Partido preferiria não ter recebido

Há outra ironia. O Partido Comunista Brasileiro não recebeu Viagem de maneira inteiramente confortável. Um estudo publicado pela UNESP mostra que a recepção da obra dentro do PCB passou por diferentes momentos: houve tentativa de desqualificação do livro, críticas iniciais e, depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, uma revisão da maneira como os comunistas brasileiros haviam tratado escritores ligados ao partido. Isso diz alguma coisa.

Se Viagem fosse simplesmente uma peça de propaganda soviética, não haveria necessidade de explicar suas ambiguidades. Mas Graciliano era Graciliano. Mesmo quando sua convicção política queria admirar, seu talento literário permanecia observando. É nesse ínterim que o livro ganha força. Felizmente, o escritor não consegue abandonar por inteiro o homem em favor do militante. E talvez seja por isso que, décadas depois, Viagem seja mais interessante para nós do que outros relatos de viagem escritos por intelectuais comunistas que visitaram a URSS e voltaram ao Ocidente munidos de elogios perfeitamente alinhados à propaganda oficial. Graciliano tinha uma qualidade que a propaganda não gosta muito de encontrar: olhos.

O problema não é que Graciliano fosse comunista

É importante fazer aqui uma ressalva. Uma resenha liberal de Viagem não precisa — e não deveria — cair na tentação de transformar Graciliano Ramos em caricatura. Seria intelectualmente fácil. Pior, intelectualmente desonesto. O velho Graça foi um grande escritor. Suas obras literárias permanecem fundamentais para compreender o Brasil. Sua experiência de prisão e testemunhos em Memórias do Cárcere revelam justamente uma sensibilidade extraordinária diante da privação de liberdade e sofrimento humano. É justamente por isso que Viagem é leitura tão cativante.

O mesmo homem que possuía uma capacidade excepcional de enxergar a violência e a miséria podia, quando diante de uma realidade política que desejava admirar, relativizar aquilo que, em outros contextos, provavelmente lhe provocaria desconfiança. Isso, contudo, não é uma peculiaridade de Graciliano. É fraqueza humana. A ideologia tem essa capacidade terrível de transformar nossos critérios de julgamento. Quando o adversário comete violência, chamamos violência. Quando o nosso lado comete a mesma, oferecemos explicação. Quando o adversário impõe disciplina, vemos autoritarismo. Quando o nosso lado impõe disciplina, vemos organização. Quando o adversário censura, gritamos tirania. Quando o nosso lado censura, é por responsabilidade social. O problema não é a existência de ideologias. O problema é quando a ideologia passa a valer mais do que a realidade.

O que sobra da viagem

Toda obra envelhece. Muitas ficam datadas. Há, ainda, aquelas que, com o passar do tempo, mudam de significado. Viagem me parece pertencente à terceira categoria. Em 1954, podia ser lida como o testemunho de um grande escritor brasileiro diante da experiência socialista soviética. Hoje, pode ser lido também como documento de uma época em que intelectuais ocidentais ainda discutiam se o comunismo soviético representaria o futuro ou tão somente uma outra forma de despotismo. Nós, leitores contemporâneos, possuímos vantagem que Graciliano não teve: sabemos o desfecho. Sabemos o que aconteceu com Stalin; com os Gulags; as vítimas da coletivização; a morte da liberdade de expressão e pensamento.

Sabemos, finalmente, o que aconteceu com a própria União Soviética. Mesmo assim, essa vantagem histórica não deve servir à tentação de olhar Graciliano de cima para baixo. Ao contrário, deve fazer-nos mais humildes. Deve nos colocar em cheque: quantas vezes nós próprios deixamos de enxergar a realidade porque desejamos demais que nossas premissas sejam verdadeiras? Graciliano foi à União Soviética em busca do futuro. Nós podemos voltar com ele, mais de sete décadas depois, para uma viagem ao passado e talvez encontrar ali uma advertência absolutamente atual: se uma ideia exigir de nós que fechemos os olhos diante dos fatos para continuar acreditando nela, o problema já não está nos fatos. Está na ideia!

*Marlon Reguelin é empreendedor.

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