Foi-se a Copa, começa a verdadeira peleja

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No ultimo domingo, o escrete brasileiro foi eliminado da Copa do Mundo. Foi-se a Copa. Foi-se o sonho do hexa. Foi-se a convulsão coletiva que nos arrebata de quatro em quatro anos. Na segunda, acordamos para perceber que, na verdade, apenas mudamos de disputa. Durante algumas semanas, discutimos escalações, esquemas táticos, impedimentos milimétricos, árbitros, VAR e favoritismos (cada brasileiro, um técnico). O noticiário girava em torno de quem levantaria a taça – sim, ousamos sonhar!

Mas a Copa, como sempre, tem prazo de validade. A política, não! Estava apenas no aguardo do o apito final para “entrar em campo”. E entrou! Se a Copa revelou uma seleção incapaz de transformar talentos individuais em resultado, a corrida presidencial revela algo ainda mais preocupante: nosso sistema político parece incapaz de transformar representação em confiança. O brasileirão 2026 da política começou oficialmente sob uma curiosa coincidência. Sem novidades, os dois principais favoritos continuam sendo Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. As pesquisas mais recentes ainda os colocam em disputa direta, com alguma vantagem para Lula, enquanto os demais concorrentes aparecem fora da “zona de classificação”.

Até aqui, zero surpresa. A novidade, porém, atende pelo nome Banco Master. Em qualquer democracia saudável, banqueiros costumam frequentar as páginas de economia. No Brasil, conseguem o feito de comungar com candidatos à Presidência, ministros do Supremo, líderes partidários e alvos policiais. Daniel Vorcaro tornou-se, involuntariamente ou não, o personagem que unificou aquilo que o tal efeito polarização dizia separar.

Durante anos, a esquerda acusou a direita de servir aos grandes interesses econômicos. A direita respondia acusando a esquerda de promiscuidade entre Estado e grandes empresários amigos do poder. Então, surgiu um banqueiro que parecia ter com todos. Não importa o uniforme, a bandeira ou o escudo… Importa o acesso ao(s) vestiário(s)! As investigações e documentos revelados nos últimos meses desenham uma inacreditável teia de relações entre figuras influentes da política, do judiciário, do mercado financeiro e instituições, alimentando uma crise que ultrapassa partidos e ameaça atingir a própria credibilidade do sistema – se é que ainda resta alguma. O caso não é mais só policial… é político!

Lula precisou explicar uma reunião reservada com Vorcaro, articulada fora da agenda oficial. O presidente jura que deixou claro ao banqueiro que qualquer investigação seria conduzida tecnicamente, sem interferência política (a gente jura que acredita, Lula). Flávio Bolsonaro, por sua vez, enfrenta um desgaste ainda mais sensível. As revelações envolvendo conversas, pedidos de financiamento (multimilionário!) para um filme sobre Jair Bolsonaro e a proximidade com Vorcaro passaram a ocupar o centro do debate eleitoral, o que resultou em uma tremenda – embora não surpreendente – piora em sua posição nas pesquisas e, principalmente, em sua imagem pública.

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O curioso é que os dois antagonistas passaram a disputar não apenas votos, mas também a difícil tarefa de convencer o eleitor de que estavam suficientemente distantes do mesmo banqueiro – tarefa essa em que ambos têm falhado miseravelmente. É uma disputa inédita. Não sobre quem estava certo, mas sobre quem estava menos perto.

Enquanto isso, um terceiro personagem observa a partida das arquibancadas: Renan Santos. Durante anos, o MBL repetiu quase como um mantra que Lula e Bolsonaro eram faces distintas da mesma moeda, tese que muitos consideravam exagerada, por vezes até conveniente à retórica deles. O escândalo Master, porém, injetou combustível inesperado a essa narrativa. Ao atingir personagens centrais dos dois polos, o episódio permitiu que Renan afirmasse, com grande poder de persuasão, que o problema brasileiro talvez não seja apenas a alternância entre dois projetos de poder, mas uma velha e carcomida engrenagem que continua operando independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto.

Ainda é cedo para dizer se isso o transformará em fenômeno eleitoral. As pesquisas mostram que permanece relativamente distante dos dois protagonistas, embora tenha consolidado um espaço como terceira força em alguns cenários nacionais. Importante dizer, seria um erro ignorar a história recente. Há poucos anos, Javier Milei era tratado como uma excentricidade televisiva. Depois
tornou-se uma curiosidade eleitoral. Em seguida, um risco. Por fim, presidente da Argentina. Não, Renan Santos não é Javier Milei! Mas a história ensina que sistemas desacreditados costumam produzir candidaturas que, poucos meses antes, pareciam improváveis – sobretudo quando os candidatos sabem utilizar como poucos a força das redes sociais!

Há outro elemento igualmente inquietante. O Banco Master já não provoca questionamentos apenas sobre Executivo e Legislativo. O episódio também alcançou o Judiciário. Reportagens sobre relações pouco republicanas envolvendo pessoas próximas a ministros do Supremo – quando não os próprios – e o debate público acerca dessas conexões ampliaram a percepção de desgaste institucional, levando o próprio Lula (padrinho de indicação da maioria ali) a reconhecer que a imagem da Corte foi afetada. É exatamente esse o maior risco para uma democracia liberal.

Instituições vivem de confiança. Quando a confiança desaparece, sobra apenas o poder. E poder sem confiança exigirá cada vez mais força para se sustentar. Talvez essa seja a maior diferença entre a Copa e a política. No futebol, quando termina a Copa, o povo volta à rotina. Na pratica, a vida do cidadão comum não melhora nem piora com o sucesso ou o fracasso dos 11 milionários que vestem a amarelinha.

Na política é diferente! As decisões dos burocratas em Brasília raramente tem potencial de causar grandes melhorias na vida do já tão acossado povo brasileiro. Dificultar, porém… Mas voltemos ao ponto: a arena mudou. Os personagens são outros. As torcidas continuam existindo (por mais estúpido que seja o fã/tiete de político). E o árbitro, como sempre, está sob vaias.

Que vença o… melhor? Melhor? Perdoe a franqueza, amigo leitor, mas não consigo ser tão otimista assim! Queira Deus que o futuro nos reserve melhor sorte ao final de outubro do que tivemos
nessa Copa.

*Marlon Reguelin é empreendedor.

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