A regra e a tribo
A Copa do Mundo já começou e os Estados Unidos derrotaram o Paraguai por 4 a 1. O fato seria banal, não fosse a ironia histórica.
Durante décadas, o soccer ocupou nos Estados Unidos uma posição quase folclórica. Enquanto o Brasil produzia Pelé, Garrincha, Zico, Romário e Ronaldo, os americanos observavam o futebol com a mesma atenção que nós dedicamos ao críquete. O país do futebol era o Brasil. O da inovação, dos negócios e da tecnologia eram os Estados Unidos.
Hoje, porém, o país que nunca precisou do futebol aprende a jogá-lo cada vez melhor. Mas o país que acreditou que o talento resolveria tudo parece cada vez mais distante da excelência que o consagrou.
A explicação não está no esporte. Ela está nos incentivos. Os EUA estão longe da perfeição. A polarização existe, as disputas políticas são ferozes e os governos mudam constantemente. Mas existe algo que permanece relativamente estável: as regras do jogo. Contratos são respeitados, e a propriedade privada continua protegida. O sucesso empresarial não precisa pedir desculpas por existir. A inovação continua sendo recompensada. O fracasso continua produzindo consequências.
Os governantes passam; os incentivos permanecem. O Brasil teve um breve encontro com essa lógica. O Plano Real não derrotou apenas a hiperinflação. Ele representou um raro momento em que o país decidiu tratar a realidade com mais respeito do que a ideologia. A moeda recuperou credibilidade, o planejamento voltou a ser possível e parecia surgir a compreensão de que instituições sólidas importam mais do que salvadores ocasionais.
Mas a maturidade nos entedia. Voltamos rapidamente ao conforto das tribos. A discussão sobre produtividade foi substituída pela disputa entre narrativas. A criação de riqueza passou a interessar menos do que a disputa por sua distribuição. O adversário político deixou de ser alguém com quem se discorda para se transformar em alguém que precisa ser derrotado.
Quando a lógica tribal se impõe, o árbitro veste a camisa do time. Instituições deixam de ser percebidas como árbitros e passam a ser vistas como jogadores. Universidades deixam de ensinar como pensar e passam a ensinar em que pensar. O debate público abandona a busca por soluções e passa a selecionar culpados.
O resultado está diante dos nossos olhos e no bolso dos brasileiros. Um crescimento medíocre, moeda fragilizada, inflação recorrente, impostos elevados e serviços públicos incapazes de entregar aquilo que prometem.
O drama brasileiro nunca foi a falta de talento. Foi a incapacidade de construir regras capazes de sobreviver às paixões do palanque.
No fim, o Brasil tornou-se um país obcecado pela vitória da própria tribo. Países não prosperam quando concentram suas energias em vencer a guerra política. Prosperam quando alguém decide construir alguma coisa depois da batalha.
Hoje o Brasil enfrenta o Marrocos. Talvez vença. Talvez perca. O futebol raramente explica um país. Mas, de vez em quando, tem o estranho hábito de revelá-lo.
E nenhuma seleção, por talentosa que seja, consegue viver indefinidamente de glórias passadas. O mesmo vale para as nações.



