Quem não escolhe, aceita
Eu já estive perto o suficiente da política para ver o que normalmente não aparece. Trabalhei com alguns políticos no passado e acompanhei bastidores; vi decisões sendo tomadas por razões que jamais caberiam em discursos públicos. Aos poucos, foi se formando em mim uma sensação incômoda de inutilidade. Da minha inutilidade, especificamente. Foi quando a minha relação com a política começou a se desgastar. Não foi por falta de interesse nem por desconhecimento. Foi, na verdade, exatamente pelo contrário. Por ter estado perto o bastante para entender que, muitas vezes, as decisões não seguem a lógica que nos vendem, e que há incoerências demais escondidas em discursos bem construídos para o povo. Com o tempo, isso deixou de ser apenas incômodo. Virou uma grande descrença.
A ignorância, muitas vezes, parece uma forma de salvação, e talvez por isso seja tão desejada. Afinal, quando você começa a enxergar demais, acreditar na mudança se torna difícil.
Eu me lembro da sensação de sair de uma votação sem convicção alguma, olhando para as opções sem me reconhecer em nenhuma delas, sentindo que escolher era trair aquilo em que eu acreditava. Nesses momentos, o voto nulo parecia a única escolha honesta. Eu não estava me omitindo, ao menos era assim que eu me justificava. Continuava repetindo que estava sendo coerente comigo mesma.
Era fácil permanecer nesse estado: desejar a mudança, mas optar por me proteger pela inércia. Porque, ao mesmo tempo em que eu me recusava a validar aquilo em que não acreditava, eu também me afastava de qualquer possibilidade de influência. Era como se eu tivesse decidido que o jogo não valia a pena e, por isso, não faria mais parte dele.
Contudo, toda decisão cobra uma responsabilidade, e existe um custo silencioso nessa escolha em particular. Aos poucos, fui deixando de acompanhar, de me aprofundar, de me posicionar. Não por falta de capacidade crítica, mas por falta de sentido: eu simplesmente não via mais razão naquilo.
Como eu, há uma massa de pessoas descrentes. Dentro dela, há gente crítica, consciente e exigente, mas que simplesmente desistiu. Porém, ao desistirmos, não deixamos esse espaço vazio; ele é sempre ocupado de alguma forma.
Durante muito tempo, associei participação política a algo que nunca fez sentido para mim. Ir para a rua com bandeiras, defender nomes, levantar discursos prontos: nada disso fazia parte da minha rotina. Como eu não me via nesse papel, concluí que talvez o meu lugar fosse fora de tudo aquilo, apenas observando à distância.
Mas existe uma linha fina demais entre coerência e fuga. Eu precisei de tempo para perceber que, no meu caso, aquilo que eu chamava de coerência era muito mais desistência do que qualquer outra coisa.
Porque é mais fácil não escolher do que escolher com imperfeição. É muito mais confortável não se posicionar do que correr qualquer risco de errar. E é mais simples se proteger na crítica do que se expor em meio às discussões. Mas nada disso muda nada. O país continua sendo decidido sem você; as regras continuam sendo definidas por outras pessoas, muitas vezes por pessoas em quem você não acredita. Os impactos continuam chegando na empresa, no setor, na economia e na vida. Eles aparecem nos impostos que pagamos em cada necessidade diária, na forma como a economia afeta nossas carreiras e, diretamente, na taxa de desemprego do país.
Com ou sem a minha participação, com ou sem a sua, e também sem a participação daqueles que preferiram desistir, a vida pública continua avançando. Mas essa ausência não nos torna mais íntegros; torna-nos, na verdade, menos relevantes.
Nessa jornada, eu ainda não me vejo militando nem me imagino defendendo políticos em praça pública. Mas hoje isso deixou de ser uma justificativa para me ausentar completamente. Entendi que preciso começar a assumir minhas escolhas. Talvez eu nunca me sinta totalmente representada ou encontre uma opção que reflita exatamente aquilo em que acredito. Mas isso não elimina a minha responsabilidade de decidir. De acompanhar, ainda assim, e de não terceirizar completamente aquilo que também é meu.
Olhando com honestidade, percebo que esse desconforto pode abrir caminho para uma participação mais madura: longe das crenças cegas, mas capaz de resistir, questionar, duvidar e permanecer viva.
Não há um ponto confortável dentro da política, mas não deveríamos abrir mão do nosso lugar dentro dela.
*Camila Gontijo é gerente de Supply Chain, com atuação em negociações estratégicas, comércio internacional e liderança de equipes de alta performance. Acredita na liderança como ferramenta de transformação.



