O mito do inevitável domínio chinês
A China, desde a sua reabertura econômica em meados de 1980, se consolidou como a segunda maior economia do planeta e passou a ser apresentada por analistas e investidores como a sucessora natural dos Estados Unidos na liderança do comércio global. Tarifas, guerras comerciais, disputas tecnológicas e o avanço do yuan como alternativa ao dólar compõem o cenário de uma rivalidade que, para muitos, já está definida. Uma das vozes mais influentes dessa narrativa é o macro investidor Ray Dalio, que previu o declínio americano e sua substituição pela China com base em ciclos históricos de transição hegemônica. Este texto examina essa tese e questiona sua premissa central: a de que a ascensão chinesa é inevitável — argumentando que instituições, liberdade econômica e capacidade de inovação importam mais do que tamanho ou planejamento estatal.
O macro investidor Ray Dalio, em sua obra Princípios para a ordem mundial em transformação: Porque as nações prosperam e fracassam, previu o declínio do império norte-americano e sua substituição pela China, da mesma forma que “os holandeses perderam seu poder para os britânicos, que criaram um império maior e mais poderoso”, e os ingleses, posteriormente, perderam espaço para os americanos. “Esses grandes ciclos produziram mudanças na ordem mundial, em que novas potências substituíram antigas potências”, afirma o autor. Para Dalio, seria inevitável que a China substituísse os Estados Unidos no futuro próximo. O investidor relaciona os principais fatores que levaram os americanos a superar os ingleses após a Segunda Guerra Mundial; entre eles, destaca-se o fato de que “a libra esterlina foi substituída pelo dólar americano como principal moeda de reserva mundial”, em razão da confiabilidade institucional e da segurança jurídica existentes nos Estados Unidos.
Já a China não possui instituições capazes de garantir segurança jurídica plena, uma vez que permanece como um Estado despótico, que impõe diversos limites às liberdades individuais. Há, inclusive, crescente preocupação, amplamente documentada por analistas e observadores internacionais, de que Xi Jinping esteja se tornando mais autocrático do que Mao Zedong. O mundo escolheu o dólar como principal moeda de reserva justamente pela confiança nas instituições americanas e, segundo o próprio Dalio, ainda não existe outra moeda capaz de competir de forma real com o dólar diante da clara superioridade institucional dos Estados Unidos.
Outras características decisivas foram a educação, a competitividade, a inovação tecnológica, a capacidade produtiva, a participação no comércio mundial, a força militar e a posição dos EUA como principal centro financeiro global. Esses elementos consolidaram os americanos como protagonistas do progresso econômico mundial. O desenvolvimento econômico foi o principal motivo para a liderança americana no pós-guerra, e esse desenvolvimento decorreu da formação de instituições econômicas inclusivas, “que possibilitam e estimulam a participação da grande massa da população em atividades econômicas que façam o melhor uso possível de seus talentos e habilidades e permitam aos indivíduos fazer as escolhas que bem entenderem”. São instituições que garantem os direitos de propriedade, incentivam o empreendedorismo e criam um ambiente propício à inovação.
Segundo o laureado economista Douglass North, as instituições são as “regras do jogo”, responsáveis por assegurar estabilidade e continuidade ao ambiente econômico. Ao fornecer segurança ao empreendedor para inovar, essas instituições mantêm espaço aberto para a destruição criativa — processo de substituição tecnológica que impulsiona o desenvolvimento. Na visão dos premiados autores Daron Acemoglu e James A. Robinson, o crescimento chinês ocorreu de forma acelerada nas últimas décadas, mas “sob instituições políticas claramente extrativistas”, o que inevitavelmente impõe limites ao desenvolvimento sustentável. “O Partido Comunista Chinês controla rigidamente toda a vida política na China e dificilmente permitiria a destruição criativa em larga escala”, impossibilitando o pleno cálculo econômico. O dirigismo chinês permitiu um crescimento impulsionado pela adoção de tecnologias existentes e pela exportação de produtos manufaturados, mas isso não significa, necessariamente, crescimento sustentado no longo prazo.
O economista Joseph Schumpeter introduziu o conceito de destruição criativa como um processo de substituição tecnológica que modifica a “estrutura econômica de dentro para fora, destruindo continuamente a antiga e criando continuamente uma nova”. Um Estado fortemente centralizador, como o chinês, tende a limitar esse processo, pois a destruição criativa ameaça os detentores do poder político ao criar vencedores e perdedores e redistribuindo renda e influência econômica.
Para Schumpeter, o desenvolvimento depende diretamente da inovação e da destruição criativa. Já para Israel Kirzner, a inovação depende da atividade empresarial livre, resultado do cálculo econômico realizado pelo empreendedor em um sistema de instituições sólidas, capazes de garantir os direitos de propriedade e a liberdade econômica. A economia chinesa serve prioritariamente aos interesses do Partido Comunista, e não aos interesses espontâneos de empresários e consumidores. Segundo Ludwig von Mises, “onde não há mercado livre, não há mecanismo de preços; e sem um mecanismo de preços, não há cálculo econômico”. Sem esse cálculo, a economia passa a funcionar “como tatear no escuro”, tornando o crescimento econômico disfuncional, marcado pela má alocação de capital e pela produção desconectada das reais demandas dos consumidores. Um exemplo recente foi o estouro da bolha imobiliária na China, em 2021, cujos efeitos persistem até hoje diante do descompasso entre uma oferta artificialmente sustentada por estímulos estatais e a demanda real dos consumidores.
Outro problema da economia planejada, segundo Friedrich Hayek em seu discurso em memória de Alfred Nobel, em 1974, é que o conhecimento está disperso por toda a sociedade e “nunca existe de forma concentrada ou integrada, mas apenas como pedaços dispersos de conhecimento incompleto”, detidos por indivíduos separados. Como explica Jeffrey Tucker: “Nenhum planejador central, por mais inteligente que seja ou por mais potentes que sejam seus computadores, consegue processar a massa de informações locais e temporais que os indivíduos utilizam em suas decisões diárias”.
O planejamento chinês parte da pretensão de substituir a ordem espontânea do mercado por uma ordem projetada pelo Estado, conceito definido por Hayek como “arrogância fatal”. Para Tucker, ao explicar essa ideia, “o resultado não é a organização perfeita, mas o caos e o subdesenvolvimento”. Esses limites do planejamento central se tornam ainda mais evidentes quando observados na prática da política industrial chinesa. Enquanto a grande maioria das empresas americanas crescem de forma orgânica, conquistando mercado gradualmente, as montadoras chinesas são fortemente subsidiadas pelo governo. Desde 2009, Pequim já destinou cerca de US$ 231 bilhões diretamente ao setor. O subsídio estatal à indústria automobilística chinesa impacta toda a cadeia produtiva — considerada extensa pelo elevado número de materiais, peças e serviços especializados envolvidos — e cria um ambiente artificial de competitividade. Dessa forma, os veículos chegam ao consumidor por preços muito inferiores aos que teriam em um mercado sem a ingerência do Estado e sem a transferência indireta desses custos para toda a economia.
Para os autores Elias Jabbour e Alberto Gabriele, o Estado centralizado, sob “orientação socialista”, seria capaz de “acelerar o progresso das forças produtivas” e “controlar as instabilidades do mercado financeiro”. Já Ludwig von Mises e Friedrich Hayek refutam essa ideia ao argumentarem que nenhum órgão central possui conhecimento suficiente para coordenar racionalmente uma economia complexa. Para os austríacos, o planejamento estatal conduzido por “uma comissão de iluminados investida do poder de determinar tudo o que seria produzido e consumido” tende a gerar escassez generalizada, além de “fome e frustração em massa”, justamente porque substitui os sinais espontâneos do mercado por decisões burocráticas incapazes de refletir as reais necessidades da sociedade.
A teoria proposta por Jabbour e Gabriele sustenta que “um sistema socioeconômico nacional misto”, baseado em “planejamento e controle estatal direto”, seria “qualitativa e quantitativamente superior” ao modelo capitalista. A história, contudo, oferece resposta abundante a essa tese: existem inúmeros exemplos de países destruídos pela tentativa de substituir as decisões econômicas de indivíduos livres pela “sabedoria dos planejadores”. Até hoje não existem economias maduras e plenamente desenvolvidas organizadas sob esse sistema, sendo a China o principal — e talvez primeiro — grande experimento dessa proposta. Segundo a tradição austríaca, “quaisquer tentativas de se alocar eficientemente os recursos na ausência de propriedade privada dos meios de produção” e de preços formados livremente “irão necessariamente falhar”.
A economia americana, apesar dos inúmeros desafios e crises que enfrentou ao longo de sua história, continua sustentada por instituições que favorecem a inovação, a descentralização do conhecimento e a liberdade empreendedora. É justamente essa capacidade de adaptação contínua — baseada em segurança jurídica, proteção aos direitos de propriedade e destruição criativa — que diferencia os Estados Unidos de economias excessivamente centralizadas.
Por isso, o futuro da liderança econômica mundial talvez dependa menos do tamanho do Estado ou da capacidade de planejamento central e mais da liberdade que uma sociedade oferece para que indivíduos inovem, concorram e transformem espontaneamente a própria economia. Afinal, grandes potências não se sustentam apenas pela capacidade de produzir riqueza, mas pela liberdade institucional que permite continuar criando riqueza.
*Aléxis Melo Nepomuceno é diretor de projetos do Instituto Atlantos.



