Menos controle, mais resultado – Uma análise de O que é o liberalismo?
Aproximo-me do liberalismo sem compromisso ideológico prévio, e talvez isso seja um bom ponto de partida, principalmente em um tema que, no Brasil, costuma ser tratado mais como rótulo do que como estrutura de pensamento. Conhecer o liberalismo te obriga a pensar além do que é padrão ou confortável. Ele gera desconforto e talvez seja exatamente por isso que seja tão mal compreendido. Não porque seja complexo demais, mas porque exige coerência.
O liberalismo não começa defendendo mercado. Ele começa desconfiando do poder. E isso muda TUDO. Para mim, não se trata apenas de uma teoria política. É quase uma inversão de hierarquia moral e cultural. O poder deixa de ser algo natural e passa a ser algo delegado e, portanto, limitado. O liberalismo trata o poder como instrumento, não como fim.
Em uma sociedade historicamente acostumada à centralização, a ideia de que o poder deve ser limitado e não expandido desafia uma lógica que carregamos de forma intuitiva: a expectativa de que problemas complexos demandam soluções igualmente concentradas. O liberalismo segue na direção oposta.
Em vez de esperar que algo o favoreça pelo simples fato de sua posição na hierarquia social, ele sugere que você simplesmente faça – e fazer utilizando todo o seu potencial naquele momento, com as ferramentas daquele cenário, mas com o foco real de prosperar sem depender. É reforçar a máxima: se não eu, quem?
Ao recorrer a autores como John Locke e Adam Smith, Stewart resgata o fundamento de uma tradição que coloca o indivíduo no centro como unidade moral relevante. A função do Estado, nesse contexto, não é conduzir a vida social, mas garantir condições mínimas de ordem: segurança, justiça e estabilidade contratual.
Essa inversão de lógica — do poder como ponto de partida para o poder como instrumento limitado — é menos evidente na teoria do que em suas consequências práticas. O equilíbrio entre autonomia e responsabilidade talvez seja justamente o ponto em que o pensamento liberal oferece uma lente importante: a defesa da liberdade individual, da propriedade privada e da limitação do poder estatal. O que mais chama a atenção é perceber que o liberalismo não nasce como algo econômico somente, mas como defesa da dignidade individual de cada um de nós.
Ao longo do livro, fica claro que o liberalismo é muito mais sobre responsabilidade do que sobre mercado em si. Antes da leitura deste livro, é possível que se tenha uma visão simplificada: associar o liberalismo exclusivamente à economia e ao livre mercado. Mas a raiz é outra. É limitação de poder e centralidade do indivíduo.
O autor ainda reforça o conceito de liberdade negativa (ausência de coerção). Ele cita Friedrich Hayek e John Stuart Mill, enfatizando que o indivíduo deve ter autonomia para fazer escolhas desde que não prejudique terceiros – e este é um ponto essencial: liberdade sem responsabilidade não sustenta sistema nenhum! No mundo corporativo, isso é visível. Autonomia só funciona quando existe clareza. Talvez por isso o liberalismo converse tanto com ambientes de alta performance, porque ele pressupõe maturidade individual. No ambiente corporativo, a meritocracia é clara: melhor performance, mais crescimento e, logo, mais salário. A regra é que você não depende exclusivamente da empresa para prosperar. Depende mais da sua maturidade de entender que seu desenvolvimento é individual, único e exclusivo das decisões que você toma em sua rotina diária.
Esse é o ponto que causa maior impacto, porque, quando levamos isso para o mérito como sociedade, tal mindset é raro, principalmente em economias subdesenvolvidas como a nossa. O liberalismo é um modelo desenhado para quem consegue enxergar com clareza e maturidade os impactos de suas ações sobre seu futuro – mas isso, por mais óbvio que possa parecer, tende a ser a maior fraqueza do liberalismo, pois ele não infantiliza a sociedade, e ela carece de gente madura para tratar temas como adultos.
O livro também explica que o liberalismo clássico defende um Estado limitado às funções essenciais: segurança, justiça e garantia de contratos. Nada de interferência excessiva na economia. Em um país como o Brasil, com desigualdades estruturais profundas, até que ponto o Estado mínimo resolve ou amplia problemas? Como gestora, sei que ausência de governança gera caos. Mas também sei que excesso de controle sufoca a autonomia e cria dependência.
Este é, possivelmente, um dos pontos mais sensíveis do liberalismo. Defender limites ao poder implica aceitar que nem todas as soluções serão rápidas, nem todos os problemas serão resolvidos de forma uniforme e nem todos os resultados serão iguais.
Como acreditar que uma criança que nasce na favela, de classe baixa, chegará a ter um futuro próspero, orientado exclusivamente a suas ações e decisões? A igualdade de resultados nunca será real se partimos de um ponto de partida tão distante. Sabemos que, para quem vem de um histórico de pobreza, mudar seu destino requer mais esforço que quem nasce herdando um império.
É aqui que o liberalismo reforça: a sociedade não será igual! Com as premissas liberais, ela será mais próspera, ela será mais economicamente viva, mas ela permanecerá com marcas evidentes de desigualdade social, principalmente entre aqueles que menos confiarem na estrutura liberal.
Essa confiança, no entanto, não é automática. Ela depende de instituições sólidas, de regras previsíveis e de uma cultura que valorize responsabilidade tanto quanto liberdade. Nesse sentido, o liberalismo distingue igualdade perante a lei de igualdade de resultados. Seu compromisso está na neutralidade jurídica e na abertura de oportunidades.
Vejo que a resposta liberal tradicional aponta para o crescimento econômico como motor de ampliação de oportunidades. E é possível acreditar nisso. Economias livres prosperam mais. Países com instituições fortes crescem mais. O que gera inquietação é o caminho até lá. Como avançar em uma economia historicamente intervencionista, com mentalidade dependente do Estado? Como promover enriquecimento sustentável da sociedade e mudança de mindset ao mesmo tempo, uma vez que isso tende a gerar muito desconforto em uma população acostumada a sistemas que estimulam dependência do Estado?
Pois sim, o liberalismo pressupõe cidadãos capazes de assumir responsabilidade por suas decisões. Em vez de prometer proteção integral contra risco, ele oferece liberdade para escolher e inclusive correr riscos! E em vez de prometer garantias ilimitadas, ele garante direitos claros. Defender o liberalismo exige coerência. Exige aceitar limites ao poder, mesmo quando esses limites reduzem a capacidade de impor soluções rápidas. Exige confiar mais na sociedade do que no Estado. Exige acreditar que indivíduos livres, sob regras estáveis, produzem resultados superiores aos sistemas centralizados.
Em um mundo que busca respostas fáceis e soluções concentradas, o liberalismo continua sendo a defesa mais consistente da dignidade individual. Talvez o maior valor do liberalismo não esteja em oferecer soluções completas, mas em impor limites claros, principalmente ao poder, e, com isso, preservar um espaço onde a sociedade possa, com todas as suas imperfeições, evoluir.
Contudo, resta uma questão que permanece em aberto: estamos, de fato, dispostos a operar com menos controle, mesmo quando isso implica lidar com mais incerteza e mais responsabilidade Pode parecer ousado diante do cenário que vivemos, mas reconhecer a imperfeição humana e, ainda assim, apostar na liberdade pode ser a escolha mais corajosa nos dias atuais.
* Camila Gontijo é executiva de Supply Chain, com atuação em negociações estratégicas, comércio internacional e liderança de equipes de alta performance. Acredita na liderança como ferramenta de transformação.



