Eleições britânicas: o homem comum derrubou a espiral do silêncio
O resultado das eleições no Reino Unido pode ser descrito com um único adjetivo: histórico. É corriqueiro utilizá-lo e muitos comentaristas políticos lançam mão do termo mágico que cabe em qualquer análise de querelas eleitorais, mas o que aconteceu na Ilha dos Anjos – assim chamada por São Gregório Magno ao falar de um povo generoso e cândido ainda alheio ao Cristianismo – ficará para a história como capítulo especial. Os britânicos impuseram uma severa derrota na política tradicional, rejeitaram os dois grandes partidos e afirmaram de vez o crescimento da direita populista encarnada no Reform UK.
Não apenas a sova levada por trabalhistas e conservadores explica a dimensão histórica do fato. O homem comum do Reino Unido optou pela agremiação política liderada por Nigel Farage por uma série de razões que merecem maiores comentários neste artigo, mas a principal variável desta equação eleitoral impõe-se de antemão: a derrubada da Espiral do Silêncio. Tachado como extremista, racista e xenofóbico, o Partido Reformista foi a escolha dos corajosos, pois a pressão imposta pelo mainstream contra tal opção foi enorme.
Basta notar o que a grande mídia diz de Nigel Farage. Ao atacá-lo e descrevê-lo da forma mais caricata possível, ela o julga representante de uma corrente de pensamento destinada a desaparecer para o bem da humanidade, indigna de ser levada a sério. Rejeitar a imigração descontrolada, governos pífios que não entregam resultado e estagnação econômica permanente é sinônimo de obscurantismo criminoso, pois basta falar uma palavra contra o consenso progressista para a mão pesada do Estado aplicar um soco violento. Uma matéria da Gazeta do Povo mostra como as forças estatais criminalizaram a liberdade de expressão e amordaçaram a visão conservadora – algo com que os brasileiros estão tristemente familiarizados.
A pressão exercida contra os conservadores por lá é tão grande que Margaret Thatcher é constantemente demonizada e tratada como símbolo ultradireitista. Ela tem os seus méritos pelo triunvirato dividido com Ronald Reagan e o Papa João Paulo II que aniquilou a União Soviética, além de ter defendido a liberdade econômica com habilidade e resultados. Mas, por exemplo, ela votou favorável à legalização do aborto na Inglaterra – a maior intromissão estatal possível no direito mais básico e elementar de qualquer ser humano: o direito à vida.
Pois bem, como o Reform UK foi vitorioso? Simples: o partido atacou os principais problemas da população britânica. A imigração ilegal e desenfreada é o principal deles e não haveria como ser diferente. Permitir a entrada de milhares de imigrantes sem o mais mínimo critério é a receita ideal para um esgarçamento do tecido social, principalmente quando eles possuem um arcabouço cultural amplamente oposto ao dos ingleses. Diversos bairros de Londres viraram califados particulares e os casos de violência envolvendo muçulmanos contra cidadãos ingleses cresceram exponencialmente. O episódio que mais me impactou foi o assassinato de David Amess, parlamentar do Partido Conservador, por Ali Harbi Ali, de origem somali. Esse crime foi cometido dentro de uma igreja, com o político sendo esfaqueado até a morte. Junte esse caso com a crueldade dos incontáveis atentados terroristas ocorridos em Londres e Manchester. Como não se revoltar? Como não querer ações dos representantes eleitos para evitar novos desastres?
Antes que venham dizer que Ali Harbi Ali era cidadão britânico legal, não custa lembrar que o processo de islamização da Europa (I) é um fato documentado, (II) a Inglaterra é o exemplo mais visível desse fenômeno e (III) a União Europeia adota há décadas uma política permissiva de fronteiras praticamente abertas. A primeira resposta do povo britânico veio no Brexit, quando Nigel Farage liderou uma campanha exitosa para devolver ao Reino Unido parte da soberania perdida após entrar no bloco.
A insatisfação do britânico também é de ordem econômica e explica-se pela incapacidade dos últimos governos em promover prosperidade perceptível com ganhos para as classes mais baixas. Tanto conservadores quanto trabalhistas falharam em entregar resultados palpáveis, com uma economia alternando crescimentos em torno de 1% e recessões pequenas, mas com impactos significativos na renda dos cidadãos. Se David Cameron, Boris Johnson, Theresa May, Keir Starmer e tutti quanti falharam miseravelmente em mais uma área, por que não tentar uma opção diferente? Embora seja pouco claro o que Nigel Farage e seu partido pensam acerca da economia, os eleitores demonstraram uma insatisfação clara contra o que o establishment vem fazendo.
Resta saber como o partido de Nigel Farage irá aproveitar esta barulhenta e significativa vitória para obter algo semelhante na querela eleitoral para a Câmara dos Comuns. Uma repetição desse cenário será a única grande chance de salvar o Reino Unido de virar um califado em plena terra de São Bento. Não é exagero ou tampouco discurso antiliberal: defender um controle migratório e a reafirmação das identidades nacionais, por paradoxal que pareça a alguns, deveria, sim, ser parte das plataformas políticas liberais – ao menos como se concebe a definição desse termo no Brasil. Normas supranacionais de blocos como a UE destroem os fundamentos de qualquer democracia liberal ao transferir o poder dos representantes eleitos pelo povo aos burocratas de Bruxelas.
O Reform UK propõe o exato oposto disso. Por isso saiu vitorioso. E o homem comum daquela ilha fascinante teve a coragem de optar pelos outsiders.



