O fim da cultura? A visão de Vargas Llosa sobre a sociedade do espetáculo
A civilização do espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura é um livro de autoria do escritor, político e jornalista peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura no ano de 2010 e falecido em abril de 2025. Em seu ensaio de 207 páginas, publicado originalmente em 2012, o autor explora suas percepções sobre o que entende ser a degradação da cultura tradicional em nosso tempo e as consequências dessa transformação.
O escritor questiona na obra se ainda existe cultura em seu sentido tradicional nos tempos atuais e se propõe a analisar, ao longo do ensaio, o que ele denomina de “metamorfose da cultura” – tema central do livro –, descrevendo esse fenômeno de alteração substancial de um mundo no qual a cultura se banalizou, a frivolidade se generalizou entre as massas e o jornalismo se tornou irresponsável e sensacionalista. A cultura atual, se é que poderia ainda ser denominada “cultura” na percepção do autor, estaria aumentando gradativamente sua tendência a criar “protagonistas políticos do entretenimento”, em substituição a pensadores e escritores, resultando em uma civilização na qual o entretenimento e a diversão ocupam o topo da escala de valores.
Vargas Llosa revisita, no ensaio, a obra de alguns pensadores que abordaram a questão cultural ao longo do desenvolvimento da humanidade no intuito de contextualizar sua descrição sobre a derrocada cultural que identifica nos tempos atuais. De T.S. Eliot, que descrevia a cultura estruturada em três instâncias interconectadas – indivíduo, elite/grupo e sociedade –, destacando a existência de uma “alta cultura”, inerentemente minoritária, mas necessária para evitar o seu empobrecimento; a Guy Debord, com sua análise de uma sociedade do espetáculo como uma forma de alienação capitalista, em que se substitui a vivência pela representação, empobrecendo o ser humano, que se entrega ao consumo sistemático de objetos, esvaziando sua vida interior de preocupações sociais, espirituais ou simplesmente humanas; a George Steiner e o conceito de “pós-cultura”, caracterizada pelo pessimismo, queda das hierarquias e subordinação da palavra (escrita e falada) à imagem e à música; a Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, que defendem a ascensão de uma cultura global que, em oposição à cultura elitista do passado, é acessível a todos e baseada no predomínio da imagem e do som, caracterizando-se como uma “cultura de massas” que não exige formação intelectual para sua fruição e tem o entretenimento como seu principal objetivo; e, finalmente, a Frédéric Martel, que descreve a “cultura do entretenimento”, composta por filmes, programas de televisão, videogames, mangás, shows de rock, pop ou rap, vídeos e tablets, assim como pelas indústrias que os promovem, em substituição à cultura tradicional, algo que Martel descreve com simpatia, enquanto Llosa referencia como “aterrorizante”.
A descrição de Martel acerca dessa “cultura do entretenimento”, na visão de Llosa, representa justamente o ápice do processo de banalização e desvalorização da cultura, no qual o sucesso comercial e a capacidade de divertir substituem a profundidade e a relevância intelectual e artística, o que bem ilustra a tese do autor sobre a crise – ou até mesmo o desaparecimento – da cultura tradicional, cedendo espaço ao efêmero e ao superficial. Nas palavras do autor, embora nunca na história se tenha escrito tanto sobre cultura como atualmente, ela está “prestes a desaparecer em nossos dias – e talvez já tenha desaparecido, discretamente esvaziada de conteúdo, tendo este sido substituído por outro, que desnatura o conteúdo que ela teve”.
Partindo desse contexto, Vargas Llosa define a civilização do espetáculo como aquela em que o entretenimento ocupa o mais alto posto na tabela de valores da sociedade, acarretando resultados preocupantes, como a banalização da cultura, equiparando obras de arte complexas a entretenimento popular; o desaparecimento da crítica cultural, cujo “vácuo” foi preenchido pela publicidade, que se tornou o vetor determinante da vida cultural; a proliferação de seitas e cultos alternativos; a primazia das imagens sobre as ideias, com os meios audiovisuais (cinema, televisão, internet) superando os livros; a banalização da política, substituindo ideias e programas por publicidade e aparências; a banalização do ato sexual; a deterioração do jornalismo, que passou a priorizar o entretenimento como valor máximo em face da informação; e o desapego à lei, fruto do desdém pela ordem legal e da indiferença moral.
Em suma, a civilização do espetáculo é um fenômeno em que o entretenimento se sobrepõe a qualquer outro valor, resultando na superficialidade, na desvalorização do pensamento crítico, na mercantilização de todas as esferas da vida e na proliferação da frivolidade social, o que para Llosa representa uma regressão cultural na qual o que antes era profundo se torna mero “passatempo popular”, uma “comédia de fantoches” ou uma “farsa”, nos termos do autor.
Os efeitos da civilização do espetáculo descritos por Mario Vargas Llosa são verdadeiramente característicos de nossa sociedade atual. O Brasil, cujo cenário político é tragicamente caricato, bem ilustra esses efeitos por meio de seus protagonistas políticos, que, longe de estamparem a imagem de líderes intelectuais, críticos e analíticos, são, em sua maioria, verdadeiros recreacionistas da sociedade, preocupados em entreter o eleitor médio via discurso vazio em troca de engajamento em suas redes sociais e do voto alienado.
O mesmo se replica nos outros campos da sociedade, dentre os quais um que me chama bastante a atenção é o jornalismo, também citado por Llosa, que, muito relacionado com a questão política anteriormente abordada, busca de forma desmedida o engajamento e o faz substituindo a acuracidade da notícia por conteúdos escandalosos e sensacionalistas. Na precisa descrição de Llosa, “o jornalismo de nossos dias, acompanhando o preceito cultural imperante, procura entreter e divertir informando”, de modo que, “nos casos extremos, se não tiver à mão informações dessa índole para passar, as fabricará por conta própria”.
Pouco ou nenhum esforço é necessário para identificarmos exemplos concretos dessa descrição em nossa sociedade, no âmbito não apenas brasileiro como também global. Veículos de imprensa, sobretudo aqueles representativos da mídia tradicional, frequentemente moldam os fatos à sua narrativa no intuito de entreter, de captar a atenção e de chocar o interlocutor. A notícia, falada ou escrita, perde a profundidade e o objetivo de informar em troca de conteúdos supérfluos e muitas vezes distorcidos, moldados de acordo com o objetivo político de quem a veicula e sem compromisso com a veracidade dos fatos.
Muito embora eu não discorde da análise do autor nesse ponto, apenas me questiono: será esse problema do jornalismo sensacionalista exclusivo dos nossos tempos? Tendo a acreditar que, inobstante seja inegável que a qualidade das notícias venha piorando com o passar do tempo e que seu conteúdo certamente esteja se tornando mais vulgar, esse não seja um problema reservado à nossa época, e que a caça sensacionalista pelo engajamento do interlocutor e a aspiração de moldar o pensamento humano às suas convicções acompanha os veículos de imprensa há muito tempo, quem sabe desde a sua criação.
Ao longo do livro, Llosa expressa sua preocupação sobre a banalização da cultura, temendo que esta perca completamente a influência na vida social. Ele reconhece o avanço material e tecnológico da sociedade, mas questiona o progresso cultural e moral, argumentando que a civilização do espetáculo nos distrai dos problemas sérios e nos submerge em um “paraíso artificial”.
O autor não apresenta no ensaio uma receita pronta para solucionar o problema enfrentado pela civilização do espetáculo, mas faz um apelo à consciência e à revalorização de princípios que se perderam ou foram banalizados. Nesse contexto, ele expressa a necessidade de a palavra escrita se aprofundar na análise dos problemas, preenchendo o espaço deixado pelos meios audiovisuais, que naturalmente são limitados em sua capacidade crítica e tendem ao entretenimento.
Ele enfatiza, portanto, a importância da literatura como uma “consciência que impedia as pessoas cultas de darem as costas à realidade nua e crua de seu tempo”. Embora a literatura possa entreter, sua função principal, na visão do autor, é “preocupar, alarmar e induzir a lutar por uma boa causa”, apontando o paradoxo de que, em países que não são livres, a literatura ainda é temida e censurada, reconhecendo seu poder subversivo e libertador.
Concordando com o autor ao afirmar que nossa cultura está em declínio, penso que as novas formas de expressão, com o cinema, a música e as artes modernas, também sejam expressão culturais e possam ser apreciadas. No entanto, não devem ser confundidas com a cultura erudita – ou tradicional, na acepção do autor –, sob pena de esvaziarmos o seu conteúdo e, a partir disso, permitirmos a erosão dos valores que a cultura tradicional cultiva.
A obra de Vargas Llosa aponta causas e fornece uma análise atual para um problema social complexo que enfrentamos como sociedade. Conforme ele sugere no ensaio, ao salientar a capacidade humana de autocrítica e retificação, o reconhecimento dos problemas é o primeiro passo para superá-los e construir um futuro diferente.
*Gabriel Siviero Dal Ponte é advogado tributarista, sócio do escritório Fernandes, Fochesatto e Ceolin Advocacia e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).



