Andréia Sadi e o “jornalismo” que quer transformar a realidade
O presidente Lula afirmou em discurso que a eleição deste ano será uma guerra. Não especificou o porquê ou contra quem. Nem precisou: o país da bajulação consagrada como mérito dispõe de um exército de puxa-sacos em todas as áreas dispostos a defender o que quer que seja. A maior autoridade da República classificar a expressão máxima do jogo democrático como guerra é sintomático do seu desprezo pelas regras da própria democracia, mas há quem justifique.
A jornalista Andréia Sadi, da GloboNews, apresentou a expressão como algo aceitável pelo fato de o outro lado ter Bolsonaro. Falou em perfil conciliador do petista ao citar a articulação feita por ele para tentar salvar a ex-presidente Dilma Rousseff do impeachment. Não faltaram os chavões clássicos como ‘’extrema direita’’, mas exigir capacidade intelectual de quem se trata é pedir demais: ela se disse defensora da democracia ao justificar a censura imposta pelo Supremo Tribunal Federal a deputados do campo direitista. É uma dádiva.
É difícil saber por onde começar, mas algo que me chama imediatamente a atenção é o ar de autoridade da sra. Sadi ao lançar tais impropérios. Qualquer pessoa com mais de dois neurônios em pleno funcionamento é capaz de atestar a falsidade dessas premissas, mas ela, por trabalhar no principal grupo de comunicação do país, julga a sua posição ocupada como sinônimo de credibilidade inabalável. A grande mídia tem licença para mentir, distorcer e manipular fatos, narrativas e análises, pois os jornalistas estão imbuídos de uma superioridade moral inalcançável aos meros mortais. E ainda se surpreendem com a hostilidade recebida como resposta.
Vamos aos fatos: Lula não é conciliador coisa nenhuma. Que tipo de conciliação pode ser atribuída ao mesmo sujeito que falou em extirpar o Democratas – hoje União Brasil – da política brasileira? Ou que, no discurso de vitória em 2022, falou em dialogar com a esquerda e o centro sem fazer o mesmo com a direita? A sra. Sadi citou o impeachment de Dilma para embasar o seu argumento, mas não foi o próprio Lula a chamar o ex-presidente Michel Temer de golpista em 2023 – ato contínuo antes e depois dessa ocasião? Ele e o seu partido nunca tiveram apreço pelo entendimento, ao contrário: são os criadores do ‘’nós contra eles’’ e foram responsáveis pela instrumentalização da difamação como modus operandi da política brasileira. Classificaram José Serra e Geraldo Alckmin como nazistas e fazem o mesmo com Jair Bolsonaro para, logo em seguida, atribuir ao último a onda de extrema tensão no debate nacional. Santo cinismo.
Uma pequena digressão: Lula reuniu a bancada petista em 2015 e orientou os seus parlamentares para o enfrentamento com os partidários do impeachment. Como disse o então líder do PT na Câmara, Sibá Machado, seria ‘’bateu, levou’’.
Fica a questão: e se Jair Bolsonaro – ou algum aliado do ex-presidente – dissesse as mesmas coisas? O “outro lado”, “essa extrema direita”? A sra. Sadi atribui pecados aos opositores do lado que ela defende quando a situação é justamente o contrário. Só que vai além disso: ao justificar a guerra lulista, ela dá salvo conduto aos meios utilizados pelo presidente pelo fato de o bolsonarismo ser intolerável. Percebam o perigo desta bajulação inicialmente despretensiosa. Contra Bolsonaro, vale tudo. Os atos bolsonaristas são tão reprováveis que é necessário banir seus acólitos da vida pública, pois a democracia não aceita quem a quer destruir. Mas, se as regras do jogo – ou a aplicação intencionalmente equivocada – importam, desprezá-las para enaltecer um lado e aniquilar a existência de outro é destruir a própria democracia. Tal conclusão é óbvia, mas não se pode cobrar coerência de quem nunca teve.
É torpe, baixo e desprezível manipular a realidade com tamanha inversão dos fatos. Na melhor das hipóteses, revela uma ignorância genuína, incapacidade de fazer parte do debate político.
O jornalismo deixou de ser aquele irmão menor da ciência histórica e entidade neutra. Antes dedicado à missão de retratar a realidade, passou a ser um agente transformador da mesma. Não por acaso a KGB infiltrou seus agentes nos principais veículos de comunicação do Ocidente para plantar desinformação e orientar as tomadas de decisões do mundo livre conforme os seus objetivos. Ion Mihai Pacepa expôs isso no seu livro Desinformação. Um dos exemplos utilizados é a distorção empreendida pela grande mídia americana na cobertura da Guerra do Vietnã: ao superdimensionar as supostas crueldades do exército americano, ela pressionou a Casa Branca a abandonar o conflito e deixar o caminho livre para o terror comunista – esse sim cruel e assassino – naquele país e no vizinho Camboja. O preço foi o genocídio de três milhões de pessoas.
Nenhum dos iluminados das redações jornalísticas teve de prestar esclarecimentos a quem quer que seja. Suas carreiras continuaram intocáveis, e seus bolsos, cheios como sempre.
Sobre Andréia Sadi, o histórico dela fala por si. Entrevistando o senador Rogério Marinho (PL-RN), ela tentou vender a sua narrativa acerca da mudança do alcance do foro privilegiado como fato inquestionável. O entrevistado não gostou e reagiu de forma justa: quem entrevista não pode ter sua fala distorcida, coisa que a jornalista fez. Não foi a primeira vez com o próprio sr. Marinho: ao entrevistá-lo durante a eleição para a presidência do Senado, em 2023, ela mandou às favas a liberdade de expressão ao defender a censura suprema ao falar em “divulgação de conteúdo fraudulento” por parlamentares direitistas – sabe-se lá o que seria isso. Um pilar de qualquer democracia liberal vira um privilégio de quem diz o que agrada aos seus ouvidos. É patético.
Seja pela deselegância, incapacidade intelectual ou desonestidade nas análises, ela virou a cara do jornalismo brasileiro.



