O fetiche muda, o fracasso não

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Fui convidado para um debate na televisão. O tema era a captura de Nicolás Maduro.

Ao chegar ao estúdio e observar a mesa, tive aquela intuição que só a experiência concede. Sim, eu teria de me controlar. Duas professoras de Direito de universidade pública. Ali, já estava claro o tipo de abordagem que prevaleceria. Não encontrei juristas interessadas na análise concreta da realidade, mas representantes de uma leitura ideológica dos chamados direitos humanos — um moralismo seletivo que tende a relativizar tiranias e a substituir fatos por enquadramentos retóricos.

Nesse ambiente, a reflexão crítica cede lugar à repetição de pressupostos. Não se trata de investigação, mas de reprodução de narrativas consolidadas. A dissonância cognitiva, longe de ser um desvio ocasional, torna-se um método recorrente: quando os fatos ameaçam a crença, ajusta-se a linguagem para neutralizar a realidade.

A luta marxista não desapareceu; apenas mudou de campo. Abandonou a economia — onde acumulou fracassos evidentes — e migrou para a linguagem, para os campi universitários e para tribunais morais informais. Sustenta-se em abstrações porque os dados empíricos a desmentem. Já não se dedica a explicar a geração de riqueza; limita-se a deslegitimar quem a produz. Já não promete prosperidade material; oferece compensações simbólicas. O concreto constrange; o abstrato protege.

Durante anos, o grande fetiche foi a terra da arepa. Não por virtude institucional, capacidade produtiva ou sofisticação econômica, mas por um fator circunstancial: o preço do petróleo. Enquanto a renda fluía, a ineficiência era reinterpretada como política pública, o autoritarismo como coragem e a corrosão institucional como ousadia histórica. Bastou o ciclo das commodities se inverter para que a construção retórica perdesse sustentação. Não havia um modelo econômico sólido; havia dependência de renda transitória.

O desfecho foi previsível. Moeda desvalorizada, produção colapsada, inflação descontrolada, repressão crescente e um êxodo humano que desmonta qualquer discurso humanitário consistente. Um humanismo performático, orientado por visibilidade, aplausos fáceis e pertencimento simbólico.

Economias centralizadas prometem justiça e entregam escassez; prometem igualdade e produzem hierarquias rígidas; prometem libertação e culminam em coerção e empobrecimento generalizado. Ainda assim, cada colapso é tratado como exceção, jamais como consequência lógica. Nunca como padrão. As falhas são sempre atribuídas a fatores externos, nunca ao próprio modelo.

Como toda construção ideológica se desgasta, é preciso substituí-la. Não por revisão teórica, mas por exaustão retórica. A ideia fracassa, a crença persiste, apenas desloca seu objeto. O erro jamais é estrutural; é sempre a implementação, o embargo, o imperialismo — ou a própria realidade, tratada como obstáculo inconveniente.

Foi então que uma das debatedoras acusou Israel de genocídio. Nesse momento, considerei necessário intervir. Não por provocação, mas por responsabilidade intelectual. Um conceito criado para nomear a tentativa sistemática de extermínio dos judeus passa a ser empregado de forma imprecisa, descolado de critérios jurídicos e históricos, frequentemente ignorando o uso de civis como escudos humanos e a natureza de organizações terroristas. Não se trata de simples confusão conceitual, mas de esvaziamento deliberado da linguagem.

Há ainda um aspecto recorrente e desconfortável: a disposição em relativizar regimes autoritários quando estes se alinham ao campo ideológico considerado correto. Ditaduras são contextualizadas, perseguições minimizadas, a miséria reinterpretada. O critério não é moral; é político.

Hoje, o pensamento crítico parece condicionado a validações prévias. Questionar converte-se em suspeita. Quando os fatos desagradam à narrativa dominante, passam a ser tratados como falhas éticas de quem os expõe, não como problemas da própria tese.

Trata-se de um ambiente moldado por utopias que não produzem bens, apenas slogans. Utopias podem conquistar cátedras, espaços institucionais e microfones, mas não substituem a realidade.

Títulos acadêmicos não garantem discernimento; muitas vezes apenas formalizam prestígio. A sabedoria nasce do confronto honesto com os fatos. Ideologias passam, mas a realidade permanece. E a experiência histórica é clara: delírios marxistas, em suas múltiplas versões, reiteradamente desembocam em coerção e empobrecimento.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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