Os lucros dos bancos deveriam ser confiscados?

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Alguns dias atrás, Renan Santos, coordenador do Movimento Brasil Livre, fez um vídeo criticando o lucro dos bancos. Em resumo, ele chamou de criminoso e imoral o aumento de 35% do lucro do Itaú em meio à pandemia. Além disso, ele: (1) defendeu a dissolução do Itaú em cinco outras corporações, (2) disse que o lucro dos bancos é uma transferência de renda “da pessoa (no caso o cliente) que está “se f****** para o dono do Bradesco e seus acionistas milionários”, (3) advogou que o presidente da República deveria confiscar metade dos lucros. Como essa parte chocou seus colegas de bancada, eles sugeriram que seria melhor confiscar apenas um trimestre dos lucros e deixar os outros três para os acionistas.

Como o leitor já deve ter percebido, este texto foi escrito para, de forma absolutamente cordial e respeitosa à entidade por ele representada, manifestar minhas discordâncias em relação a essa análise específica, que considerei desastrada. Apesar de não ter dito explicitamente, Renan deve acreditar que esse aumento dos lucros dos bancos é devido a juros abusivos – essa é a única explicação que eu vejo para ele dizer que tal desempenho financeiro é devido à transferência de renda de pessoas que estão mal das pernas para o “dono do Bradesco e seus acionistas milionários”. Uma pessoa que fala isso com toda a certeza nunca abriu o balanço de nenhum banco brasileiro.

Vale lembrar que praticamente todos os grandes bancos brasileiros são listados em bolsa; logo, seus resultados financeiros são públicos. Banco no Brasil ganha dinheiro principalmente de duas formas: gestão de ativos e seguros. De maneira geral, bancos por aqui não gostam/não querem emprestar dinheiro, e isso é um dos motivos pelos quais as taxas de juros são tão altas. “Recuperação Judicial” é o termo utilizado quando um banco tem que ir à justiça para cobrar alguém inadimplente e o “índice de recuperação judicial” é quando ele efetivamente consegue reaver.

A cada 100 vezes que uma instituição financeira procura a justiça para cobrar um devedor, em apenas 13 ela consegue reaver o dinheiro emprestado. No Reino Unido, é 89 em 100. Para piorar, o tempo de recuperação também é terrível: um ano e meio na Grã-Bretanha frente a quatro anos por aqui. Em outras palavras, emprestar dinheiro no Brasil é muito arriscado e, por isso, bancos por aqui não o fazem. “Se crédito desse dinheiro, os bancos estariam fazendo crédito”, foi o que disse Marcos Lisboa há alguns anos, e eu gostaria de acrescentar que, se emprestar dinheiro no Brasil fosse um bom negócio, haveria bancos do mundo inteiro por aqui. Não há.

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Sobre sua ideia de confiscar metade dos lucros dos bancos, lamento dizer ao Renan, mas, na prática, o governo brasileiro já faz isso. A carga tributária do spreed bancário no Brasil é de 40%. Um bom exemplo desse fenômeno é a CSLL. Enquanto os demais setores da economia pagam 9%, a alíquota para os bancos é de 15% (era de 20% até poucos anos atrás), e, apesar disso, ainda existem no legislativo brasileiro vários projetos de lei querendo elevar novamente a alíquota, que já é mais alta do que a dos demais setores da economia. Para critério de comparação, o único país do mundo com uma tributação maior que o Brasil no spreed é a Índia (42%). Seguramente, os liberais não querem que o Brasil se inspire na Índia.

Por último, vamos falar sobre a concentração bancária. Presumo que Renan não quis ser literal quando ele disse que defende a dissolução do Itaú ou do Bradesco em cinco bancos, porém ele acerta quando dá luz ao problema da pouca competição. O problema é que, no Brasil, deixar poucos players no mercado é uma política de Estado, mais especificamente do Banco Central, e no próximo parágrafo vou explicar por qual motivo. Eu não consigo imaginar nenhum país do mundo em que o sistema financeiro seja mais seguro que o brasileiro. O grande evento de crise financeira nos últimos anos foi em 2008, que começou nos EUA e se espalhou pelo mundo. Grandes bancos foram liquidados devido àquele evento, merecendo destaque o ABN AMRO Bank, Lehman Brothers e Bear Stearns; porém, na terra tupiniquim, nenhum banco fraquejou.

Essa solidez surgiu na década de 90, após o governo brasileiro ter que socorrer vários bancos para evitar um quebra-quebra generalizado (não terei tempo de me aprofundar sobre o caso, mas quem quiser saber mais leia sobre o PROER). Hoje, basicamente a única preocupação do Banco Central é entregar a segurança do sistema bancário à sociedade. Porém, tal segurança tem custos e um deles é a concentração bancária. Ora, obviamente é muito mais fácil monitorar um sistema com poucos players do que com vários. Quando o CitiBank e o HSBC saíram do Brasil, eles foram vendidos para o Itaú e Bradesco, respectivamente. Em qualquer lugar do mundo, o CADE (que tem como missão zelar pela livre concorrência no mercado e também fomentar e disseminar a cultura da livre concorrência) não deixaria isso ocorrer, mas, no Brasil, o Banco Central brigou para que os outros órgãos antitruste não tivessem poder sobre o mercado financeiro. Logo, se quisermos mais concorrência no mercado financeiro, o que deveria ser feito é afrouxar as regras do Banco Central para que novos players possam entrar. Eu não tenho dúvidas de que o Banco Central hoje funciona como uma barreira de entrada. Esse é o ponto que deveria ser atacado.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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