Você é a favor da guerra às drogas?

Para você que está concordando comigo quando eu digo que drogas fazem mal ao indivíduo, salvo em alguns casos medicinais para os quais são recomendadas, mas discorda de mim quando dizem ser contra a liberação do uso e comércio de drogas porque têm casos na família ou conhecem pessoas próximas que padecem dos efeitos que […]

Guerra Drogas
Para você que está concordando comigo quando eu digo que drogas fazem mal ao indivíduo, salvo em alguns casos medicinais para os quais são recomendadas, mas discorda de mim quando dizem ser contra a liberação do uso e comércio de drogas porque têm casos na família ou conhecem pessoas próximas que padecem dos efeitos que o abuso das drogas pode provocar, eu pergunto, você chamou a polícia para prender os criminosos que usam drogas na sua família? Você denunciou seus conhecidos usuários ou traficantes ao Denarc? Pergunto isso porque quem é a favor da criminalização das drogas é a favor da guerra contra elas, é a favor da prisão dos usuários e traficantes porque segundo o seu critério, eles devem ser tratados como criminosos por estarem envolvidos com elas, é o que a lei diz.

Se você me disser que não chamou porque agora elas estão fazendo tratamento médico e não são perigosos para serem denunciados, que o caso está sob controle, então você está dizendo uma coisa e fazendo outra. Isso se chama hipocrisia. Se você que é médico e recebe um usuário para tratamento, você chama a polícia ou acha que deve, por uma questão humanitária, ou financeira, tratar do paciente que lhe procura, em vez de enviá-lo para o sistema carcerário promíscuo, imundo e degradante, onde usará drogas sem que ninguém o importune? Se você trata seu paciente e não o denuncia, você está sendo hipócrita. Se não é hipocrisia deliberada, você foi tomado pelo pensamento mágico de que a guerra às drogas é justa e eficaz para acabar com o uso e o comércio delas.

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Sim, só pode ser pensamento mágico pois a guerra contra as drogas é um retumbante fracasso. Nenhuma ação governamental produz mais mal, violência e destruição do que uma guerra. Guerras se justificam quando as forças armadas de um país contra-ataca as forças armadas de outro país para se defender e retaliar. No caso da guerra às drogas, as forças armadas do país iniciam o uso da violência atacando seus próprios cidadãos, alguns violentos, outros, na sua imensa maioria, não.

É fácil dizer que apóia a guerra às drogas quando suas vítimas são pobres desconhecidos, miseráveis em todos os aspectos da vida. Ricos usam todo tipo de drogas impunemente.

É fácil dizer que apóia a guerra às drogas na retórica, mas na realidade aplica o seu próprio código moral para decidir qual o tratamento a ser dispensado ao usuário ou ao traficante.

Se você conhecesse um ladrão, um estuprador ou um assassino, você não o denunciaria à polícia? Você se sentiria bem com tal cumplicidade? Imagino que denunciaria, porque esses criminosos são violentos, fizeram algo contra terceiros, inocentes, e todos sabemos que merecem punição e que precisam ser segregados da sociedade pelo bem dela.

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Mas e os usuários e traficantes de drogas? Fizeram algum mal a terceiros? Claro que não. Mas mesmo assim, se você é a favor da guerra às drogas, você acha que mesmo não tendo feito mal algum a ninguém a não ser, talvez, a si mesmo, você acha que esse mal foi pouco. Você acha que não basta o mal que as drogas podem fazer ao indivíduo. Você acha que esse mal é insuficiente, por isso aceita e apóia que a sociedade faça ainda mais mal para ele, segregando-o e punindo-o de forma exemplar e irreversível ao jogá-lo numa cela, onde usar drogas é a única coisa que parece fazer bem.

Para acabar com a hipocrisia, eu não estou convidando ninguém a denunciar quem não faz mal aos outros. Eu estou convidando-o a pacificar a sociedade que já sofreu demais com uma guerra que só causa violência, corrupção e agiganta o estado que em vez de combater crimes verdadeiros, atua a serviço de uma moralidade tacanha e retrógrada.

O uso de drogas, que por sinal eu acho imoral porque prejudica a consciência do indivíduo, deve ser tratado cientificamente, através do uso da razão e não com o uso da coerção. Coerção se usa para combater a violência e o uso e comércio de drogas não é um ato de violência, mas o exercício dos direitos à liberdade e à propriedade que cada indivíduo possui.

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Inúmeros países já liberalizaram o uso de drogas. Inclusive nos Estados Unidos, país que iniciou essa guerra, pelo menos em dezenove estados já há tolerância legal com determinados tipos de drogas. Portugal liberalizou o uso indiscriminado de drogas há mais de 10 anos com resultados que contrariam o senso comum. Em Portugal, apesar da liberação de todas as drogas, o consumo diminuiu, a violência diminuiu e as doenças ligadas ao uso de drogas, como a contaminação por HIV também diminuiu.

O economista Milton Friedman já teorizou sobre as razões econômicas para que o comércio e uso de drogas fosse liberado. A compreensão disso sob o ponto de vista econômico é necessária mas não é suficiente. Precisamos nos ater aos aspectos éticos para diferenciar o que é um crime e o que não é. Até quando vamos ser hipócritas e desonestos?

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