A tolerância com os intolerantes 2

Mais uma vez, o mundo se comove diante das atrocidades de grupos radicais islâmicos. Não há semana sem pelo menos uma notícia de barbaridade contra inocentes. Centenas de meninas sequestradas de uma só vez para serem vendidas a chefes de tribos, cristãos e grupos minoritários sendo reunidos e queimados vivos, estupros coletivos e mutilação de mulheres, decapitação de jornalistas e muitos outros absurdos são alimentados tanto pela complacência das sociedades envolvidas quanto tolerância do ocidente.

Alguém já ouviu pelo menos uma declaração de algum líder islâmico pregando paz e respeito entre todas as religiões?  Não. As manifestações sempre são de ódio, guerra e vingança – “morte ao ocidente!” -, ou no mínimo pregando a destruição do grupo islâmico vizinho, como vemos desde sempre entre sunitas e xiitas.

A grande maioria das pessoas, de qualquer religião que seja, deseja apenas tocar sua vida e negócios em paz. Nenhuma mãe quer ver seu filho entre tiros e bombas. Indivíduos não desejam guerras. Porém, esta pacificidade acaba se transformando numa passividade que se volta contra eles mesmos. Ninguém fala nada, ninguém contesta nada… então uma bomba explode dentro de casa ou um parente é degolado.

A urgência: O ocidente precisa se livrar do sentimento de culpa herdado do cristianismo – “Jesus morreu por nós!”. Chega! Nós, aqui, em pleno século XXI, não temos responsabilidade sobre as tragédias daquelas sociedades. Eles vivem em guerra entre eles mesmos desde sempre. Eles desrespeitam uns aos outros desde sempre. A pobreza africana é uma realidade histórica; a escravidão no continente já acontecia entre as tribos locais muito antes da chegada dos europeus.

A verdade: nós, ocidentais, somos os desenvolvidos e civilizados, não eles. Apesar de ainda sofrermos diversos problemas sociais e políticos, somos nós que reduzimos drasticamente a pobreza, que massificamos a educação, que desenvolvemos a cura de diversas doenças, que criamos inúmeras tecnologias que possibilitaram a humanidade sofrer menos e viver mais. Enquanto eles instituem diversas formas de discriminação de mulheres, gays e crentes de outras religiões, somos nós que permitimos que mulheres, gays e crentes de outras religiões ocupem altos cargos em governos e em empresas. Enquanto eles explodem as mesquitas uns dos outros, em nossas cidades erguem-se igrejas de todas as religiões. Enquanto coíbem a educação e a liberdade intelectual de seus jovens, nós oferecemos bolsas de estudo para jovens de todos os cantos do mundo em nossas universidades.

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Compreendo que para nós, latino-americanos de origem cristã, seja um tanto difícil assimilar a extremamente complexa composição política, cultural e religiosa das regiões citadas. Para nós, é realmente muito difícil assimilar as rivalidades milenares entre vilas e clãs. Porém, essa incapacidade de entendê-los motiva o ocidente a tentar “catequizá-los” cultural e politicamente por meio de patéticas ações diplomáticas ou através de intervenções militares quase sempre desastrosas, o que na maioria das vezes transforma o próprio ocidente no vilão da história.

O ocidente tenta fazê-los se conciliarem uns com os outros, quando nenhuma das partes deseja isso. O ocidente insiste em oferecer valores que eles não querem conhecer. O ocidente não entende que o conceito de liberdade deles é outro, outra “coisa” muito, muito distinta do que acreditamos. Pior: o mesmo ocidente que cobra de si mesmo os mais nobres direitos humanos, financia grupos e até governos que desrespeitam grotescamente esses mesmos direitos.

Sempre me lembro do grupo de viúvas de vítimas dos atentados de 11 de setembro que foram ao Afeganistão para… pedir desculpas as famílias atingidas pelos bombardeios norte-americanos! Volta e meia chega à notícia de freiras que, prestando serviços humanitários na África, acabam sendo estupradas, torturadas e mortas. Soma-se ainda um punhado de ONGs que arrecadam montanhas de dinheiro para viabilizar ajudas a países cujos governos que não têm a menor preocupação com suas próprias populações. Enquanto tais governos alimentam com armas seus conflitos internos, organizações como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras praticamente imploram pela possibilidade de levar água, comida e remédios às vítimas. Nós, direta ou indiretamente, trabalhamos para sustentar isso.

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Nos últimos doze anos, assistimos o governo brasileiro gastando bilhões de dólares em ajudas a ditaduras. Faz mais de cinquenta anos que as sociedades ocidentais desenvolvidas assistem seus governos destinar muitos outros bilhões a ditaduras ou guerras que alimentam outras guerras, a maioria delas entre eles mesmos. O Afeganistão estava muito bem até o final da década de 1970. Então a antiga União Soviética o invadiu e por quase 10 anos cometeu as piores atrocidades contra civis, enquanto os Estados Unidos armavam os grupos de resistência que, assim que expulsaram os russos, voltaram-se contra… os Estados Unidos! É assim que eles fazem, sempre. Certos da complacência de suas sociedades e do sentimentalismo ocidental, pequenos grupos radicais imperam o terror sobre todos, pedindo nossa ajuda quando lhes é conveniente para logo depois voltarem-se contra nós.

O Iraque era um país assombrado pela tirania de Saddan Hussein, que perseguiu e matou centenas de milhares de xiitas e curdos, utilizando até armas químicas. Então os Estados Unidos o invadiu, gastando trilhões de dólares numa guerra sem vencedores mas que deixou pelo menos uma semente de democracia. Resultado: assim que os americanos foram embora, grupos de dentro do próprio Iraque se levantaram uns contra os outros e hoje vemos o ISIS tomando para si todo o país por meio do terror.

O ocidente também gastou bilhões para ajudar os rebeldes sírios que tentavam depor seu governo, o único da região que oferecia liberdade para os cristãos. Resultado: os grupos rebeldes perseguem e matam os cristãos. Creio que nem preciso nos lembrar da quantidade de dinheiro e de paciência gastos com os palestinos.

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Alguns dizem que a culpa dos conflitos no Oriente Médio é da demarcação de território arbitrada pela Inglaterra no começo do século XX. Lorota. Qualquer que fosse a demarcação – ou que não tivesse havido nenhuma -, eles buscariam na história mil razões para se enfrentarem, como sempre fizeram. Dizem também que a tragédia atual na África meridional é resultado dos períodos em que foi colônia ocidental. Outra lorota. Estando livres há várias décadas, o que cada um daqueles países faz com suas riquezas? O petróleo e os minerais são convertidos em quê? A verdade é que a pobreza da região é resultado tão somente da incapacidade de se organizar social e politicamente de forma coesa, objetivando educar a população e desenvolver a economia. Quem explora as riquezas africanas são grandes empresas russas e chinesas.

Agora estamos vendo mais uma coalisão do ocidente gastando mais uma montanha de dinheiro para salvar vidas e almas de sociedades que não prezam por elas; e para dar um toque a mais de demagogia, Dilma Rousseff, em discurso na ONU, lamentou a falta de diálogo com o ISIS, o singelo grupo de terroristas que todos os dias publica um vídeo degolando algum ocidental.

Em pleno século XXI, eis o mundo!

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Comentários

  1. Claro e direto…muito bom, e dificil ler algum artigo tao sincero e sem devaneios como este…

  2. Quanto mais violência, mais violento é a resposta, é o que vemos. Se se aplicasse os princípios liberais, então, qual seria a resposta? Pena que a humanidade a abandonou pelas opções do nacionalismo, socialismo e intervencionismo e isto desde das ultimas décadas do século 19 e ainda não refletiu o quanto perdeu e quais as possibilidades para o seu retorno. Um exemplo: O Vietnam. Os norte americanos desataram uma guerra prolongada com mortes e atrocidades sem fim. O fim da guerra veio. As empresas e os grandes negócios então tiveram sua vez de invadir o Vietnam. Claro que eles se convenceram das vantagens. Hoje eles travam uma outra guerra:ganhar dinheiro. O negócio é trocar uma filosofia por outra, a filosofia guerreira pela filosofia das trocas voluntárias. O socialismo pelo capitalismo. Mas quem está preparado?