Reforma trabalhista: a esquerda fala o que o povo quer escutar

A ascensão da esquerda ao poder não é casual, nem é acidental sua permanência nele. É até muito compreensível e, por mistérios insondáveis, muitos conservadores e liberais não atinaram com a natureza do problema. Ressalvadas complexidades equívocas como revolução cultural, hegemonia, militância bem treinada, ocupação de espaços nas universidades e editoras, existe outra questão, muito […]

A ascensão da esquerda ao poder não é casual, nem é acidental sua permanência nele. É até muito compreensível e, por mistérios insondáveis, muitos conservadores e liberais não atinaram com a natureza do problema. Ressalvadas complexidades equívocas como revolução cultural, hegemonia, militância bem treinada, ocupação de espaços nas universidades e editoras, existe outra questão, muito mais prosaica, que nunca é considerada: a esquerda fala o que o povo quer escutar.

O discurso esquerdista é intuitivo e bastante eficaz. Simplesmente faz sentido, para um trabalhador pobre, quando lhe dizem que há milionários demais no mundo enquanto ele tem de esperar na fila do SUS para ser atendido  – ou morrer antes – e que isso, afinal, há de ser uma forma de injustiça. E garanto: existem muitos pobres no mundo e eles não são invenção de Karl Marx.

Dizer a um desempregado que a CLT e o salário mínimo são institutos que o prejudicam, e são, é como dizer a uma criança que doces fazem mal para a saúde. Ele simplesmente não vai entender a piada. Isso pode ser, e é, tecnicamente verdadeiro, mas exige muita suspension of disbelief para o gosto do freguês que, no caso, é o senhor eleitor. Não é possível flexibilizar as leis trabalhistas se o discurso correspondente é fossilizado e cheira a elite. Não é fácil vencer a concorrência desleal que o Estado pratica.

Antes de prosseguir, um parêntese: não é somente o desempregado, ou o trabalhador mais pobre, que se deixa seduzir por direitos e proteções. Essa disposição ideológica está muito bem distribuída entre todas as classes sociais, do metalúrgico ao professor universitário, da empregada doméstica à herdeira devotada à filantropia. Fecha parêntese.

O texto principal da reforma trabalhista foi aprovado e há quem tenha se jogado de pontes, entornado litros de cicuta, se enforcado em árvores como judas arrependidos. Sei de gente que nem foi trabalhar, de tão preocupada com trabalho está. Nenhum direito a menos, dizem, porque basta isso: em nossa fortíssima cultura bacharelesca, direitos são passes de mágica, sortilégios, milagres que fazem brotar da caneta do político o maná de que o povo gosta. Na prática, no mundo aqui fora, que não exatamente corresponde ao mundo de sindicalistas, militantes e ideólogos, nenhum direito a menos significa nenhum dinheiro a mais.

A verdade é que as reivindicações da esquerda e algumas de suas bandeiras são legítimas. Nas definições utilíssimas de Isaiah Berlin, o apelo à liberdade positiva – ou seja, a liberdade propositiva, o poder de participar, de tomar parte na coisa pública – é característico da esquerda. As pessoas querem tomar parte do que acreditam lhes caber, e não apenas confiar nas mãos do livre mercado que, por invisíveis, não se podem tocar. Todo pagador de impostos é um Tomé desconfiado – e tem suas razões para sê-lo.

Pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo, do Partido dos Trabalhadores (sic, mil vezes sic), revelou o que muita gente mais ou menos sempre soube: a população da periferia quer empreender, trabalhar e gerar riqueza. Não gosta de depender do Estado. Não espera coisas boas do Estado. Talvez por isso sua aceitação, ainda que muitas vezes a contragosto, do gerenciamento do tráfico. Se o Estado não faz o que dele se espera, o tráfico “faz”.

Mas o resultado da pesquisa é também um recado aos liberais: saibam vender o peixe do mercado no mercado das ideias, das trocas espontâneas, da liberdade econômica. Ideias políticas e medidas econômicas, para se materializar na vida cotidiana, têm de ser identificadas, nomeadas, virar gíria. Têm te ser facilmente apontadas com o mesmo dedo que apertará a tecla na hora do voto mais razoável.

Ou isso, ou o povo vai continuar desejando uma coisa e engolindo outra, porque não sabe exatamente como – e de quem – exigir o que espera, como um jovem coronel Aureliano Buendía*, que um dia o pai levou para conhecer o gelo, e viu que “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”.

*Referência ao personagem do livro “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez.

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