Quarentena: o fim da responsabilidade individual

Ao proibir que milhões de pessoas estudem, trabalhem e circulem sob o argumento de que isso será bom para o coletivo, o estado está proibindo que cada indivíduo priorize seu bem-estar e seja responsável por seus atos − somos um bando de animais incapazes de pensar e discernir. Portanto, os políticos devem cuidar de nossas vidas.

O fato é que não existe uma única pessoa neste mundo que queira ser infectada por qualquer vírus. Também não há empresário que não esteja disposto a sacrificar seus lucros para manter seu negócio funcionando; assim como não existe ninguém fora dos sindicatos e dos partidos de esquerda que prefira o desemprego ao emprego.

Se não houvesse a imposição da quarentena, cada pessoa e empresa teria criado formas de atender a seus interesses particulares considerando a realidade da pandemia.

Se o governo atuasse apenas como portal de informações e de recomendações, distribuindo itens de higiene nas áreas mais pobres e promovendo a higienização de locais públicos de grande movimento, pessoas e empresas teriam conhecimento dos riscos de contágio, dos procedimentos para evitá-lo e condições para discernir sobre como ajustar suas atividades à situação.

Empresários de todos os portes decidiriam manter ou não seus negócios abertos. Decidindo por abri-los, tomariam determinadas precauções justamente por saber que seus clientes não querem correr risco de contágio, o que os levaria a proporcionar ambientes de trabalho mais seguros para seus funcionários.

Sendo o transporte coletivo um cartel legitimado pelo estado, as empresas teriam que atender a normas de higienização e de contenção de aglomerações.

Quando o estado cobra impostos da população, ele é responsável pela manutenção dos serviços públicos. Deve, portanto, manter suas escolas e universidades funcionando, adequando-as à situação da pandemia.

Não estou “viajando” na teoria. Supermercados estão dando o exemplo de como fazer isso. Uma grande rede mantém há duas semanas funcionários especificamente para despejar álcool gel nas mãos dos fregueses e nas barras de contato dos carrinhos de compras. Vários outros cuidados estão sendo feitos sem qualquer obrigação legal.

Os restaurantes que continuam funcionando sob sistema drive thru ou delivery adotaram outras normas, com cada um encontrando um modo de se ajustar à situação.

Esses exemplos indicam que todo o restante da economia poderia ter sido mantido livre para trabalhar. Quem quisesse trabalhar, trabalharia, sendo responsável por esta decisão. Cada consumidor decidiria quais locais e situações lhe seriam seguras. Cada cidadão avaliaria os riscos de suas atividades.

Devemos nos lembrar que um dos principais argumentos liberais contra a intervenção do estado na economia é que leis e normas gerais são burras e injustas, porque ignoram as características e as necessidades de cada pessoa e empresa. Cada pessoa sabe, melhor do que qualquer político, o que é melhor para si.

Se os princípios liberais de responsabilidade tivessem sido considerados, caberia aos chefes de família proteger e acompanhar adequadamente seus dependentes que compõem o grupo de risco.

Sempre foi bem assimilado que se uma pessoa da família estiver com catapora, sarampo ou conjuntivite, por exemplo, certos procedimentos devem ser adotados. A possibilidade de que alguém possa estar contaminado pelo coronavirus num ambiente familiar forçaria a adoção de outros procedimentos – o que já foi explicado e sugerido por vários pesquisadores.

Dada a emergência da situação, as pessoas deveriam ter ainda a liberdade de utilizar os medicamentos que já vêm apresentando bons resultados, mesmo que eles ainda não tenham sido aprovados pelos órgãos governamentais.

As pessoas também teriam liberdade para ir e vir pela cidade, frequentar praias, praças e parques de acordo com a avaliação de cada um. A consciência da pandemia basta para as pessoas evitarem aglomerações.

Neste cenário, o estado concentraria seus esforços na prontidão de uma estrutura de acolhimento e tratamento emergencial das vítimas.

Isso nos faria superar essa crise de saúde pública sem criar uma crise econômica. Então, por que não foi feito dessa maneira?

Porque não daria protagonismo político. As ações contra a pandemia estariam dispersas por toda a sociedade, com as pessoas pensando e discernindo conforme cada situação, com o estado apresentando-se apenas para orientar e acolher.

Sem a quarentena, não haveria justificativa para o governo iniciar mais uma onda de protecionismo e assistencialismo.

Sem a quarentena, também não haveria ambiente para os absurdos que muitos agentes do estado estão promovendo, saqueando empresas e constrangendo cidadãos honestos.

A imposição da quarentena criou ainda a necessidade de o estado perseguir uma meta de número de mortos pelo vírus – como a medida sugerida pelo Ministro da Saúde e acatada pelo CNJ, de que todos os óbitos sem causa conhecida devem ser registrados como morte por coronavírus. O estado precisa que muitas pessoas morram para justificar o circo. Se morrer um número muito menor de pessoas do que o previsto, o povo poderá descobrir que foi maquiavelicamente enganado – o que muita gente, principalmente nas periferias, já está descobrindo.

Resumo:

Não foi suprimida apenas a liberdade individual, mas a responsabilidade das pessoas. Em vez de cada cidadão ser estimulado a pensar e discernir por si mesmo, foram convencidos de que devem fazer o que os políticos mandam, inquestionavelmente, com cada um se tornando fiscal do estado contra a desobediência de vizinhos, amigos e colegas. Comunismo. Socialismo. Fascismo. Tudo junto e misturado.

João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É militante liberal/conservador com consciência libertária.