Princípio Supremo

Clipping do artigo Indivíduo e Comunidade*

Jovens_interagindo_Oslo_NorwayA principal regra de convivência dos indivíduos entre si é: O direito de cada um termina onde começa o do outro, ou, nas palavras de Oliver Wendel Holmes Jr., ex-Ministro da Suprema Corte dos EEUU: “O direito de eu movimentar meu punho acaba onde começa seu queixo”.

Isto significa que os indivíduos devem cumprir uma máxima benéfica para todos, sintetizada nas palavras de John Stuart Mill: No harm to others, ou seja: Não causar nenhum dano (material e/ou moral) para o outro.

Por “danos materiais” devemos entender violação e/ou destruição do patrimônio e/ou da integridade física do outro (como avançar o punho e dar um soco no queixo, boca e/ou nariz do outro).

Por “danos morais” devemos entender qualquer atitude capaz de afetar gravemente a integridade moral do outro. Resta definir o que entendemos por “integridade moral”, o que não é tarefa fácil, porém necessária.

Importante assinalar que todas ou ao menos a maior parte das regras de convivência têm um caráter universal e negativo. Elas não dizem o que devemos fazer, porém o que não devemos sob nenhuma hipótese.

Tanto Confúcio como Thomas Hobbes enunciaram outro princípio mais genérico, do qual podem ser derivados os de Oliver Wendel Holmes Jr. e John Stuart Mill, a saber: Não faça ao outro o que você não gostaria que o outro fizesse a você. Este princípio supremo tem sido chamado de a Regra Dourada.

Em seu livro O Espírito da Liberdade, Erich Fromm, um conhecido filósofo contemporâneo, relata um caso tradicional em que são contrastadas as visões de mundo de dois rabinos e cujo desfecho é extremamente importante para o ponto que desejamos sustentar neste artigo.

Quando um pagão procurou Shammai e lhe pediu que explicasse toda a Torah enquanto ficava de pé sobre uma perna, Shammai o expulsou. Quando o pagão fez a Hillel o mesmo pedido, recebeu a resposta seguinte: “A essência da Torah é o mandamento: ‘Não fazer ao próximo o que não desejamos que o próximo nos faça’. O resto é comentário (Fromm, 1966, p.15; os itálicos são nossos).

Provavelmente, o primeiro rabino, levando em consideração toda a riqueza de ensinamentos contida no livro sagrado e por sentir dificuldade em refletir a respeito da mesma, tomou o pedido do pagão como um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Como colocar o oceano em um copo d’água? Como explicar tal coisa no curto espaço de tempo em que um homem consegue ficar em equilíbrio apoiado em um só pé?

O segundo rabino, por sua vez, provavelmente percebeu que se tratava de um desses desafios em que alguém, julgando ser impossível responder a uma pergunta, a faz para que seu interlocutor se sinta ridicularizado e embaraçado. Trata-se de uma espécie de xeque-mate perverso.

No nosso livro Liberdade ou Igualdade? (Porto Alegre. Edipucrs. 2002, pp.187-197) procuramos mostrar como todos os principais princípios da Ética podem ser deduzidos da Regra Dourada: Não faça ao outro aquilo que você não gostaria que o outro fizesse a você.

Na sua comovente simplicidade, tal Princípio Supremo não é nada fácil de ser posto em prática.

Para tal, é preciso se colocar no lugar do outro, mediante um mecanismo de projeção afetiva, e perguntar a si mesmo: “Eu gostaria que ele fizesse comigo isto que estou pretendendo fazer com ele?”

Se isso fosse posto em prática, toda vez em que se mostrasse necessário, nossos problemas de convivência com os outros seriam muito menores do que realmente são. Colocar isso em prática é uma condição necessária para a boa interação e talvez seja também suficiente.

* Artigo Indivíduo e Comunidade

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imagem: Wikipédia

 

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Mario Guerreiro

Mario Guerreiro

Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.