Possíveis equívocos da visão antropológica contemporânea

Pode-se dizer que vários são os acertos da humanidade na atualidade. Para muitos, é como se ela tivesse alcançado a fase adulta nos últimos quatro séculos. Avanços tecnológicos, aumento considerável da qualidade de vida, enfim, vários são os aspectos que trazem benefícios sentidos no cotidiano. Esses acertos são vistos como fundamentados em uma espécie de sabedoria decorrente da experiência humana moldada pela racionalidade “amadurecida” desde o advento do Iluminismo. Lutar pela dignidade, pela liberdade, por aquilo que se convencionou chamar de “direitos humanos”, etc., faz parte dos avanços em busca de uma sociedade mais justa, cujos efeitos se traduzem na diminuição da violência e da miséria.

Porém, suspeita-se que estes acertos têm sido acompanhados por um erro fundamental na própria concepção que a humanidade vem tendo de si mesma. Tal erro é tão sedutor quanto pernicioso, o que faz dele um erro fatal com desdobramentos catastróficos para a sociedade em geral. O erro não reside nas ações malévolas como os assassinatos, o tráfico e consumo de drogas ilícitas, a corrupção estrutural, o consumismo desenfreado, etc. Esses são apenas efeitos do erro que acomete boa parte da humanidade, qual seja: a ideia equivocada que ela possui de si mesma e do mundo da qual faz parte, isto é, o desconhecimento de si mesmo.

A máxima socrática “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”, inscrita na entrada do santuário de Delfos, continua atual e indispensável a qualquer tentativa de se viver com autonomia. É nesta esteira que o discurso de posse do atual embaixador Ernesto Araújo[1], se utilizando de importantes elementos como conhecimento, verdade e liberdade, traduzidos dos termos gregos gnosis, aletheia e eleuteria, se faz urgente para o aprofundamento da reflexão sobre a mudança de paradigma antropológico que a humanidade vem sofrendo nos últimos séculos.

O homem do Medievo olhava para si e percebia que, em si mesmo, não havia qualquer padrão ou fundamento ético e de dignidade humana, uma vez que estas provinham do exemplo máximo de abnegação simbolizada pela cruz de Cristo, expressão máxima do favor de Deus à humanidade. Tal pensamento fundamentado na ideia cristã de Deus em nada obnubilava as ações e descobertas relativas à “boa ciência”. Pelo contrário, vários são os exemplos de que religião e ciência, e razão, se constituem como dois remos do barco do conhecimento que ruma à verdade. Um desses exemplos pode ser visto na belíssima Carta Encíclica Fides et Ratio do Papa João Paulo II, cuja introdução diz: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.

Já o ideal de homem a partir da Modernidade, na exclusão da ideia de Deus, se tornou deus de si mesmo. Na verdade, o homem apenas realocou a fé de um ser transcendente para um ser imanente. Dito de outro modo, a fé que o homem tinha em Deus foi depositada em si mesmo e em suas realizações de ordem científica e política. Com isso, a ciência e a política “suplantaram” a religião, tornando-se portadoras da chave que abre a porta para o progresso e para a paz mundial.

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Isso demonstra o quanto o homem jamais poderá fugir do exercício religioso constitutivo de seu próprio ser. Assim como o filósofo, cientista e teólogo do século XVII, Blaise Pascal, afirmava, o coração possui razões que a própria razão desconhece, ou seja, o coração é o centro religioso da existência humana que intui a necessidade de Deus. Quando o homem deixa de crer em Deus, acaba por crer em qualquer coisa, já dizia o grande escritor do século XIX, G. K. Chesterton.

Ao excluir Deus da equação da vida é inevitável que a nossa visão de mundo seja, no mínimo, incompleta. Vários são os problemas que decorrem disso. Um deles é a crença em que os Direitos Humanos se assentam em alguma forma de Direito Positivo modificável ao bel prazer de “juristas iluminados pela razão”. No livro Contra o cristianismo: A ONU e a União Europeia como nova ideologia, é dito que a dignidade da pessoa humana é fruto da semelhança da pessoa humana com o seu Criador. É sobre esta afirmação que a Declaração de 1776 dos EUA foi inspirada. Já a Revolução Francesa em 1789 e, mais tarde, a Declaração da ONU em 1948 depositaram a fé na razão como via para se alcançar a paz, excluindo qualquer possibilidade de Direito Natural decorrente de uma autoridade supra-humana.

A este respeito o filósofo francês do século passado, Emmanuel Levinás, dizia que os direitos humanos transcendem a ordem política e que são exteriores à própria humanidade. A negação de aspectos da transcendência, em que pese à dissociação dos direitos humanos do Direito Natural, abre espaço para o estabelecimento da alta confiança no racionalismo e no progresso moral da humanidade, ambos, caminhos que se mostraram equivocados na prática. Basta olhar para o período em que estamos, chamado por muitos especialistas de “pós-modernidade”, entendido como uma espécie de “escombro residual de crenças frustradas nas instituições que se firmaram a partir da pretensa autonomia da razão humana e do avanço da ciência como fontes imaculadas para obtenção da paz mundial”. As guerras mundiais e os genocídios do século passado são provas do fracasso do empreendimento da fé nos pressupostos imanentes do iluminismo.

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A partir desse itinerário não é difícil observar que a fé deslocada da transcendência para a imanência resulta em grandes problemas concretos de ordem política e social. O escritor reformado sul-africano Jean-Marc Berthoud, em sua obra “Uma religião sem Deus”, nos ajuda a compreender que conceitos como o de liberdade, quando vistos a partir de uma cosmovisão ateísta, resultam em, pelo menos, dois grandes problemas. Por um lado, resulta na autoproclamação do indivíduo como um deus que pratica esta liberdade de forma anárquica e, por outro, na divinização do Estado como entidade acima do bem e do mal que, geralmente, torna-se totalitária e genocida a partir da consolidação deste tipo de cosmovisão.

É por esses e outros aspectos similares que boa parte da humanidade segue tendo uma ideia equivocada de si mesma ao desconsiderar a importância da religião e, em ultima instância, a existência de um Ser absoluto e supra-humano, o Summum Bonum, do qual falava o proeminente doutor da igreja, Santo Agostinho.

Diante disso, se o conhecimento produzido e fomentado por qualquer sociedade for equivocado, todo o restante, bem como sua práxis, o será. Como já dito, por conta das guerras e dos genocídios do século passado, o homem da “razão iluminada” sofreu uma espécie de bug mental. Por puro orgulho e vaidade concentrou em si mesmo a crença que projetava nas instituições que tornaram-se líquidas no sentido baumiano do termo. Ao invés de dar um passo atrás no reconhecimento dos fundamentos metafísicos que moldaram o processo civilizatório do Ocidente, preferiu prosseguir com uma fé cega e individualista que, mais do que nunca, fez de sua satisfação pessoal um deus a ser venerado e atendido cegamente.

No final das contas, é provável que a mudança do objeto de fé por boa parte da humanidade se apoie em alguma forma de pathos (paixão), ou seja, de uma disposição afetiva fundamental própria do ser. Em outras palavras, a decisão de crer em algo (religião, teoria política, filosofia, etc.) geralmente é precedida pelo tipo de satisfação pessoal a que o próprio indivíduo se submete. A crença, neste caso, funciona como uma espécie de autoridade que chancela as escolhas e satisfações pessoais, conferindo sentido e aprovação para a nossa consciência.

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Seja uma coisa, seja outra, toda sociedade possui uma cosmovisão firmada em algum tipo de crença determinante. Em razão disso, infere-se que a religião e a própria noção de Deus são fundamentais para o processo de autoconhecimento humano. Enquanto a humanidade insistir com uma antropologia equivocada, que considere o homem como arché e telos[2] de todas as coisas, cada vez mais problemas surgirão em decorrência da antiga concepção filosófica de se tomar o homem como a medida de todas as coisas.

Uma pista para a correção deste equívoco pode ser encontrada já no pensamento de Hugo de São Vitor, proeminente filósofo e teólogo do século XII. Findo este texto, deixando aberto o caminho para a reflexão sobre o assunto, a partir de um pequeno trecho do livro Didascálicon, do qual o Mestre Hugo se utilizava para lecionar aos seus alunos em Paris: “De todas as coisas a serem procuradas, a primeira é a Sapiência, na qual reside a forma do bem perfeito”. Mas esta Sapiência não é alguma coisa, um estágio do conhecimento ou uma sabedoria qualquer. A Sapiência é Alguém. É a Segunda Pessoa da Trindade, o Verbo, o Logos, o Pensamento divino, a Mente de Deus. Por que esta Sapiência deve ser a primeira a ser procurada? Porque ela – explica Hugo – é a nossa origem. Conhecendo-a, conhecemos a nós mesmos. Com efeito – continua o Mestre – estava escrito na trípode do templo de Apolo em Delfos o famoso ditado: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas, o que significa para o homem conhecer-se a si mesmo, senão conhecer a sua própria origem, o lugar divino de onde veio?

[1] Link do vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=prT5npDcDhY

[2] Arché e telos são conceitos gregos geralmente traduzidos por origem e finalidade, respectivamente.

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