Por que os liberais defendem a liberdade de expressão?

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A liberdade de expressão está na constituição de quase toda democracia, e não é à toa – isso ocorre porque ela é um pilar de qualquer democracia. O melhor exemplo é a americana: ela está lá logo na primeira emenda, deixando clara sua importância para aquele país. Não chega a ser surpresa o fato de os EUA estarem em primeiro no índice de liberdade de expressão, seguidos de perto pela Polônia (Fórum Econômico Mundial, 2016).

Eu acredito que não tenho nada a perder ao defender o valor da liberdade de expressão. Existem razões pelas quais os liberais sentem necessidade de defender a liberdade de expressão. Neste texto, vou falar três motivos.

Karl Popper acreditava que qualquer teoria científica nunca poderia ser dada como definitiva, mas sim como uma conjectura. Exemplo: milênios atrás a humanidade acreditava no geocentrismo (a Terra está fixa no universo e os planetas e astros giram ao seu redor). O geocentrismo é a conjectura do momento até que surge Copérnico, que consegue refutar tal teoria, dando lugar ao heliocentrismo. Neste momento, o heliocentrismo deixa de ser a refutação para se tornar a nova conjectura – que está à espera de uma nova refutação. Este processo é chamado de “Conjecturas e Refutações.”

Tanto a parte de “conjectura” quanto a de “refutação” dessa fórmula pressupõe o exercício da liberdade de expressão. Oferecemos conjecturas sem qualquer garantia prévia de que estão corretas, como, por exemplo, o caso de um certo navegador italiano que jurava que conseguiria chegar às Índias navegando para o oeste da Espanha. É somente por meio de ideias e vendo quais resistem às tentativas de refutá-las que adquirimos conhecimento. Em outras palavras, sem a liberdade de expressão, torna-se quase impossível adquirir novos conhecimentos e fazer a humanidade avançar. No livro The Beginning of Infinity, o físico David Deutsch argumenta que a “conjectura e a refutação” são a única maneira, em princípio, com que o conhecimento pode ser adquirido.

A segunda razão pela qual a liberdade de expressão é fundamental para o desenvolvimento humano é sua essencialidade para a democracia, funcionando como um baluarte contra a tirania. No século XX, houve uma ascensão de regimes totalitários, merecendo destaque o nazismo e o comunismo. Pontos em comum entre tais formas de governo são a intimidação e a violência, tanto para chegar ao poder quanto para permanecer nele. Os totalitários criminalizam qualquer crítica aos seus respectivos regimes.

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De acordo com Steven Pinker, há uma razão sistemática pela qual os ditadores não toleram dissidências. Vamos supor que você é um cidadão norte-coreano que está infeliz com a constante falta de alimentos no país. Como não há liberdade de expressão, não tem como você saber que há outras pessoas insatisfeitas pelo mesmo motivo. A razão pela qual os norte-coreanos não resistem em massa a seus senhores é que eles não têm o que é chamado de conhecimento comum – o conhecimento que todos os outros compartilham desse mesmo conhecimento. Tal situação é ótima para a monarquia da família Kim, pois, se dezenas de milhões de cidadãos descontentes agissem juntos, nenhum regime terá a força bruta para resistir.

O conhecimento comum é criado por informações públicas, como uma declaração ou opinião transmitida. Pinker usa a fábula da roupa nova do rei que teoricamente era visível apenas aos inteligentes. Quando o menino gritou que o monarca estava nu, ele não estava dizendo nada que eles já não soubessem e que não pudessem ver com seus próprios olhos. Porém, a criança estava mudando o estado de seu conhecimento porque agora todos sabiam que todos os outros sabiam que o rei estava nu. Esse conhecimento comum os encorajou a desafiar a autoridade do imperador com suas risadas.

Por último, está a dificuldade (ou seria impossibilidade?) de decidirmos o que pode ser dito ou não. Uma ideia é proibir tudo aquilo que é mentira; mas quem é o juiz de algo que é verdadeiro ou não? O governo? Os parágrafos anteriores já deixam claro que essa é uma péssima ideia. No mais, vale lembrar que o princípio básico da liberdade de expressão é nos proteger no Estado. Opinião de especialistas? Complicado, pois até eles costumam discordar entre si (quem já viu debate entre economistas sabe o que eu estou falando).

Há também a possibilidade de traçarmos uma linha em “discurso de ódio”. Porém, vale aqui lembrar o que disse Jordan Peterson quando perguntado sobre por que o direito à liberdade de expressão deveria ser mais importante do que uma pessoa em não se sentir ofendida: “Para poder pensar, temos que correr o risco de sermos ofensivos”. Além disso, como vamos decidir o que é ou não discurso de ódio? Ninguém discute que a ideologia do Adolfo cai nessa categoria – isso é fácil; mas e o Jones Manoel quando disse que “uma das tarefas fundamentais da gente é estimular o ódio de classe”? Ou então o que fez na época o vereador Babá (PSOL – RJ) quando queimou a bandeira de Israel? Ou o colunista da Folha, Hélio Schwartsman, que escreveu um texto dizendo que torcia pela morte de Bolsonaro? Além da definição do que é ou não discurso de ódio, há também o problema dito no parágrafo anterior: e quem vai ser o juiz?

Não é agradável defender direitos de estranhos, especialmente aqueles cujas palavras nos causam desconforto. No entanto, é necessário. Um dia você pode precisar desse mesmo direito. Portanto, não podemos suprimir o direito dos outros de desafiar nossas crenças. Só podemos trabalhar para defender ideias melhores do que aquelas que defendem o ódio e a destruição porque, a longo prazo, não tenho dúvidas de que as boas ideias vencerão.

*Artigo adaptado de original publicado por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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