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Por que eu sou liberal e não sou de direita

por CARLOS NEPOMUCENO*

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Um bom ponto de partida é o conceito de cosmovisões.

A cosmovisão marxista criou a ideia da esquerda e direita e dentro dela estabelece uma lógica entre ricos e pobres.

A dicotomia entre ricos e pobres sempre será usada na história por alguém, ainda mais quando tivermos crises e mais ainda em forte concentração de poder como agora. Robin Hood sob este ponto de vista era de esquerda e o Xerife de Nottingham de direita.

A lógica dessa cosmovisão, que é um tipo de pensamento social, que não vem com o marxismo, mas que teve eco na cultura católica e tribais entre ricos e pobres, é binária e divide o mundo com ênfase radical de diferentes interesses pelas posses.

De fato, em vários momentos, as classes sociais podem definir interesses, como tantas outras peculiaridades do mundo. Enfatizar isso é opcional, conjuntural.

Isso é opcional em uma cosmovisão.

Não é assim, PODE SER ASSIM, caso a pessoa queira provocar esse tipo de sentimento de inveja, que sempre é mobilizador.

Ao se concentrar FORTEMENTE OU UNICAMENTE na dicotomia pobre-rico e fazer com que isso se espelhe em direita-esquerda se está forçando e ressaltando UM dos aspectos das diferenças sociais.

É opcional, tanto quanto dividir em raça, região, religião, etc….

Uma cosmovisão, assim, é algo criado por alguém ou por alguéns, forma uma cultura e é difundida na sociedade, querendo impor, em uma corrida de cosmovisões, sua hegemonia.

Não é uma verdade, ou uma realidade, mas uma das cosmovisões oferecidas com uma lógica,um propósito, que serve bastante na luta pelo poder e no convencimento de simpatizantes.

Se você entra na sua lógica interna, passa a ser uma armadilha da qual você não tem como escapar. Você entra em uma lógica que rege uma cosmovisão e que te impede de construir algo diferente. O jeito é identificar a cosmovisão e poder sair dela, o que é difícil, quando uma cosmovisão consegue que parte da sua lógica seja de uso corrente na sociedade.

Quer ver?

Eu sou filho de mãe judia e não me considero judeu.

Na cosmovisão judaica, quem é filho de mãe  judia é judeu.

Ou seja, eu posso aceitar, ou não, a cosmovisão judaica.

Eu, na minha cosmovisão, escolho a minha religião, ou cultura, que não acredito que possa ser sanguínea e rejeito a lógica da cosmovisão judaica, não necessariamente questionando-a, mas passando ao largo.

Não compro a lógica!

Posso dizer que naquela cosmovisão existe este pensamento. uma lógica, mas que eu não sou obrigado a entrar nela para que eu defina minha identidade, pois ela é uma nesga criada de como um grupo vê a sociedade e não como ela de fato é.

Se eu me digo liberal, ou parto do liberalismo como uma identificação política na sociedade, eu escolho uma cosmovisão, sob a qual coloco o adjetivo digital (liberal digital). Neste momento, estou procurando me posicionar, a ter um projeto que me auto-define para mim e para os outros.

Isso parte da minha consciência e eu abraço uma cosmovisão por opção pessoal, a partir de reflexões feitas.

E para um liberal não há esta ênfase fundamental como referência entre pobres e ricos, isso não é a minha base de pensamento, pois este tipo de divisão, na minha forma de pensar, é inerente à sociedade humana.

Isso sempre houve e sempre haverá; diferenças sociais.

Ou seja, é chover no molhado, como acreditar em um mundo sem religião, ou sem ódio, violência, inveja, etc….

A história serve para mostrar mais ou menos quem somos. O que nos resta é nos render a ela e ver como podemos, a partir das nossas imperfeições, tentar a sociedade MENOS RUIM possível.

Um liberal se preocupa em permitir que as desigualdades sociais não sejam consolidadas, estáticas, que os mais ricos sejam mais ricos pelo mérito, que os que não são ricos possam querer lutar para ser e tenham condições para isso.

O liberalismo é a defesa permanente do aumento da taxa de mérito social.

(Os neoliberais do século passado não tinham esse foco, ao contrário.)

A luta  constante pelo aumento da taxa de mérito gera riqueza e consegue, de uma forma melhor, resolver o nosso grande impasse: ter produtos e serviços para atender as necessidades da espécie.

Um liberal tem, assim, outra lógica.

Diria mais:

Que o pensamento liberal é fruto da última Revolução Cognitiva do papel impresso e que todos os pensadores liberais resolveram criar uma nova cosmovisão para fazer frente à que era hegemônica, a cosmovisão católica-monárquica.

E ainda: a construção da cosmovisão liberal clássica foi feita para criar a república, um ambiente político mais descentralizado do que era o do rei e que permitia acabar com o conceito de verdade centralizada,  de heresias. E um sistema econômico mais dinâmico que pudesse lidar com a complexidade emergente da época.

Criou-se a possibilidade de uma abertura de rede econômica (que chamaram de capitalismo – o nome é da cosmovisão marxista) e de uma rede política (república) que foi a cosmovisão liberal clássica, que nos levou ao que chegamos hoje.

Uma Revolução Cognitiva, assim, é provocadora de novas cosmovisões, pois ao descentralizar ideias oxigena a sociedade, tira os filósofos alternativos do armário (incluindo os descentralizadores), permitindo uma inovação social, que antes, com a concentração das ideias, não era possível.

Assim, não só eu não aceito que seja definido por uma cosmovisão que não é a minha, como a própria cosmovisão liberal impressa, digamos assim, precisa ser refeita.

E o que temos em comum entre a atual Revolução Cognitiva impressa e a digital.

Em ambos os casos, o movimento liberal clássico foi o único que defendeu a descentralização de poder e de renda, reforçando o poder dos indivíduos, as pontas das redes humanas, que estava centralizadas com a monarquia.

(Os liberais conseguiram superar a visão católica vigente do rico versus pobre, os marxistas engoliram esse anzol com chumbada.)

Na cosmovisão liberal de hoje ou ontem não faz sentido o conceito de esquerda e de direita, por uma questão de ênfase em um aspecto da realidade que é de rico x pobre. A preocupação não é não ter mas ricos, mas por que o cara fica rico, se mantém rico e como um pobre pode e deve ter chances de chegar lá também. É a batalha pelo mérito. (Se houver um liberal defendendo uma organização ineficiente, pode ter certeza que os valores liberais foram jogados ao mar.)

O que a história nos mostra, fazendo uma releitura, são dois movimentos (que variam conforme a conjuntura cognitiva) que querem manter a centralização de poder e renda. E os que querem descentralizar o poder e a renda, através do mérito.

A concentração de poder e renda é péssima para a sociedade, pois aumenta o custo das organizações (que ficam menos dinâmicas e passam a balançar o cachorro) e reduz o benefício para a sociedade.

A descentralização, como poder de mídia para a sociedade, dá poder ao indivíduo para fiscalizar mais e mais as organizações (sejam elas públicas e privadas) e abre para que a taxa de meritocracia aumente, pois a cada compra está se qualificando organizações, bem como agora, com o reputacionismo digital, através dos curtiu/não curtiu, estrelas, e comentários.

O que é estranho é que o movimento liberal é visto como conservador e talvez o seja, pois parte dele está apegado aos liberais clássicos, como se agora não fosse justamente o momento de revisitá-los não para copiá-los, mas para recriá-los, principalmente atualizando valores nas novas fronteiras digitais.

Eles fizeram justamente o que temos que fazer agora: recriaram a cosmovisão dos gregos, que é a mãe da nossa sociedade.

Analisaram um ambiente fechado e concentrado (feudalismo/monarquia) e recriaram, a partir de valores baseados na descentralização e no empoderamento do cidadão, uma nova cosmovisão, que os levou a recriar os sistemas políticos e econômicos, na dobradinha capitalismo/república. Agora, temos que reconstruir, a partir da ideia de descentralização de poder pelo mérito uma nova.

Hoje, temos que combater tanto o comunismo de estado como o capitalismo de estado, ambos concentradores de renda e poder, que duelaram no século passado, por causa, a meu ver, de dois fatores: o aumento demográfico e, como consequência e causa, a concentração da mídia.

O resto é esta crise geral de TODAS AS ORGANIZAÇÕES que vemos hoje. Isso se combate com liberalismo 3.0, implantando plataformas digitais colaborativas, nas quais a sociedade vai tentar aumentar a taxa e controle do cachorro, que anda sendo fortemente balançado pelo rabo.

Eu, assim, não sou de direita ou de esquerda.

Sou um descentralizador social, como foram os liberais clássicos impressos; agora sou um descentralizador digital, que combate as centralizações de renda e poder do século passado, com valores liberais.

É isso, que dizes?

*Carlos Nepomuceno é jornalista, consultor, professor e pesquisador. 

Carlos Nepomuceno

Carlos Nepomuceno

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense/IBICT Instituto Brasileiro em Ciência e Tecnologia com a tese “Macro-crises da Informação”. Jornalista e consultor especializado em estratégia no mundo Digital, desde 1995 com foco no apoio à sociedade a lidar melhor com essa passagem cultural, reduzindo riscos e ampliando oportunidades. Atualmente, se dedica a implantação de laboratórios de inovação digital participativos em organizações públicas e privadas, incluindo Escolas. Atualmente, tem ajudado neste campo a IplanRio, empresa de tecnologia da Prefeitura do Rio de Janeiro e a Secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro e a ANTT – Agência Nacional de Transporte Terrestre, entre outros. Professor nos seguintes cursos do Rio: MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/Coppe/UFRJ, Gestão Estratégica de Marketing Digital e/ou Mídias Digitais nos cursos de Pós-graduação da Faculdade Hélio Alonso (IGEC) e Mídias Digitais Interativas no Senac/RJ, bem como, em diferentes curso de pós, MBA da Universidade Veiga de Almeida, além disso, professor do IBP – Instituto Brasileiro do Petróleo. Palestrante do AgendaPolis (Brasília), onde já promoveu oito encontros sobre o tema “Governo 2.0” para organizações dos Governos Federal, Estadual e Municipal. Autor do livro “Gestão 3.0 e a crise das organizações tradicionais”, publicado pela Editora Campus/Elsevier, em agosto de 2013. Escolhido como um dos 50 Campeões brasileiros de inovação, pela Revista Info, em 2007. É também co-autor junto com Marcos Cavalcanti do primeiro livro sobre Web 2.0 no Brasil: Conhecimento em Rede, da Editora Campus/Elsevier, utilizado em vários concursos públicos, incluindo o do BNDES.

2 comentários em “Por que eu sou liberal e não sou de direita

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    19/04/2015 em 9:28 am
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    Essa estória de Liberais conservadores é um embuste.
    Aliás o IL é conservador, pois que não há recursos de liberais, os que bancam querem seu naco no Estado e o que se vê são conservadores travestidos de liberais exigindo maior quantidade de recursos para o Estado controlar a sociedade.

    Os tais conservadores APENAS DEFENDEM O DIREITO DE PROPRIEDADE PRIVADA, sem radicalismo, pois que também defendem sua violação “em nome da pátria”.

    Grande exemplo foram os governos militares e o nacional-socialismo de Ernesto Geisel (o milico querido da midia).

    Nos governos militares, controlados por conservadores, estatizaram o pais, empestiaram o brasil com estatais deficitárias onde penduravam seus filhotes esquerdistas.
    Ou seja, pelo critério da economia livre, os governos militares foram esquerdistas. Afinal, os conservadores pouco se diferem dos socialistas. A diferença é apenas de grau estatista. Inexistem instituições que defendam de fato a liberdade porque não há verba para tal, somente para conservadores travestidos de liberais e socialistas, ambos defensores do estatdo totalitário: uns querendo o controle total do individuo concedendo uma autorização para propriedade privada e outros apenas o dominio para espoliação material da população.

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    17/04/2015 em 11:14 am
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    Ora nem liberalismo, esquerda ou direita, o melhor regime do mundo é sem sombra de dúvida o sistema comunista socialista, inventado pelo meu aluno Lênin, que emplacará quando toda a sociedade for consumida, extorquida e vilipendiada pelos detentores das riquezas comuns do mundo sempre na posse das classes discriminadoras, de todo o ouro da terra; não terá o que comer; em função da união de todos contra essas minorias, aqui insistentemente discutidas com teses que se perdem aos quatro ventos, cuja ideia central é contra o regime de “UM POR TODOS E TODOS POR UM”. Meu amigo Ghandi provou isso, lembram-se?. E digo mais: A DESIGUALDADE DAS CONDIÇÕES SOCIAIS É OBRA DO HOMEM E NÃO DO CRIADOR. DESAPARECERÁ QUANDO O EGOISMO E O ORGULHO DEIXAREM DE PREDOMINAR, RESTANDO APENAS A DESIGUALDADE DO “MERECIMENTO”. A sociedade somos todos nós cidadãos que a compomos. Quando a maioria da população for cristianizada e compreender a filosofia e os ensinamentos do maior mestre que o mundo conheceu, meu professor, teremos governos capazes de vivenciar plenamente os ensinamentos de Jesus! (NÃO ESTOU FALANDO DE RELIGIÃO: MAS DA DOUTRINA DO MESTRE), então a sociedade viverá a verdadeira igualdade, justiça social, onde todos são iguais perante a Lei sem nenhuma e exceção. A continuar com esse regime egoísta de exclusão social promovido pelos clãs, castas e partidos, esse regime comunista emplacará lá por volta do terceiro milênio; porque esse é o destino e o objetivo da vida social aí onde vocês vivem; será algo como a reedição da história de SODOMA E GOMORRA, vocês conhecem? SE não, leiam meditem e busquem o sentido verdadeiro daquela passagem e se não acreditar, creiam: porque nenhuma filosofia ou sistema, liberal, presidencialista, capitalista, parlamentarista ou neo-liberal mudará o destino da humanidade; mas com certeza levará a sua destruição persistindo nessas filosofias neo platônicas “deturpadas da realidade pelos interesses mesquinhos de editores, oradores, historiadores e jornalistas, acreditem se quiser.

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