Por que a política é composta pelos piores

A crença de que devemos confiar ao Estado a promoção do bem-estar social sustenta-se numa idealização do “bom político”, do representante popular modelo de honestidade e de competência, cuja sabedoria e espiritualidade farão jus à confiança que a sociedade lhe conceder. Para ajudá-lo na construção da justiça social, a maior parte da sociedade idealiza um […]

camara dos deputados

A crença de que devemos confiar ao Estado a promoção do bem-estar social sustenta-se numa idealização do “bom político”, do representante popular modelo de honestidade e de competência, cuja sabedoria e espiritualidade farão jus à confiança que a sociedade lhe conceder. Para ajudá-lo na construção da justiça social, a maior parte da sociedade idealiza um partido político diferente dos outros, cujos membros seriam tão honestos, tão competentes, tão sábios e espiritualizados quanto o seu líder – como o PT já foi visto um dia, como o PSOL é visto por muitos hoje. A ingenuidade da massa atinge o mais alto nível ao acreditar que existem seres humanos que dariam função social ao poder que tivessem em vez de utilizá-lo em benefício próprio; e essas criaturas abnegadas seriam detectadas a partir dos discursos lindos e bonitinhos que fazem – Lula noutros tempos; Luciana Genro, Jean Wyllys e Marcelo Freixo tentam nos dias de hoje.

F.H. Hayek, em seu livro O Caminho da Servidão, explica não apenas a impossibilidade de realização desse desejo, mas também a razão pela qual a política é preenchida sempre pelas pessoas menos aptas à administração do Estado e do poder.  Para tanto, Hayek identifica três condicionantes que se correlacionam através do sistema político mais admirado da humanidade, a democracia.

Em primeiro lugar, ele nos lembra que quanto maior o nível de instrução do ser humano, maiores serão suas divergências sobre a grande maioria dos assuntos, afinal, a instrução amplia a visão sobre o mundo e sobre nós mesmos. Diante disso, enxergamos que “se quisermos encontrar um alto grau de uniformidade e semelhanças de pontos de vista, teremos de descer às camadas em que os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevaleçam os instintos mais primitivos e comuns”, escreve Hayek, o que significa que é o menor denominador comum que elege um representante do povo. Para se comprovar o fundamento desse fenômeno, podemos correlacioná-lo à atenção que determinadas pessoas e assuntos cativam.

Quanto mais superficiais forem as letras de um cantor, mais fãs ele cativará. Entre um quadro de Romero Brito e um de Willys de Castro, a grande maioria das pessoas optará pelo primeiro para se decorar a sala. Entre uma entrevista com um atleta famoso e outra com um cientista qualquer, certamente o povão preferirá ouvir o atleta. Um discurso sobre “justiça social” e “redistribuição de renda” certamente atrairá a atenção de muito mais pessoas do que uma palestra sobre a Curva de Laffer ou sobre o Princípio da Escassez.

A segunda condicionante identificada por Hayek diz que o pretendente a líder terá necessariamente que conseguir o apoio dos “dóceis e dos simplórios, que não têm fortes convicções próprias, mas que estão prontos a aceitar um sistema de valores previamente elaborado, contando que este lhes seja apregoado com bastante estrépito e insistência”.

Partindo do princípio de que boas ideias precisam de bons cérebros para processá-las, enxergamos a razão pelas quais as ideias mais insustentáveis são assimiladas pela maioria das pessoas com tanta facilidade − de serviços gratuitos a intervenções econômicas. Socialistas de bandeiras vermelhas e socialistas de gravatas azuis conquistam o poder com tanta facilidade porque suas ideias refletem a debilidade intelectual das massas, o que torna quase impossível que alguém de ideias construtivas seja eleito.

As primeiras filas dos partidos políticos sempre serão ocupadas por aqueles cujas ideais vagas e imperfeitas influenciam com facilidade, aqueles que não têm dificuldades para despertar paixões e emoções nas massas e nos demais colegas.

Hayek finaliza esclarecendo sobre um comportamento comum à grande maioria dos seres humanos: A propensão a aceitar com muito mais facilidade programas negativos – “o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em situação melhor” – do que um plano positivo, por exemplo, a potência individual. A ideia de destruição da riqueza para a eliminação da pobreza é muito mais assimilável do que o princípio de que cada pessoa deve perseguir seus objetivos a partir de seus próprios talentos e esforços. A antítese “nós” e “eles”, o incentivo à desconfiança de um grupo em relação ao outro, a distinção de classe, de raça e de inclinação sexual são os ingredientes essenciais da liderança dos demagogos sobre os simplórios. Não houve na história humana um líder que não tenha se erguido por meio da identificação de inimigos e da distinção dos “bons” e dos “maus”, dos “justos” e dos “injustos”, o que sempre lhes deu liberdade para pregar e agir em nome do “bem” e da “justiça” desenhados a partir de seus próprios valores, para suprir seus próprios interesses. Hayek, falando sobre seu tempo, observou este fenômeno como o responsável pelo sentimento antissemita e anticapitalista na Alemanha nazista, o que é evidenciado nas publicações de autores como Werner Sombart, Johann Plenge, Paul Lensch e Oswald Spengler.

De fato, essa percepção é um tanto desmotivante, o que me leva a crer que a redução do Estado e de seu papel na vida das pessoas se dará a partir de algum “acidente político”. Se nos Estados Unidos foi um ator (Reagan) e no Reino Unido foi uma “dona de casa” (Thatcher) que colocaram certa ordem na casa, quem sabe surja por aqui alguém que preze apenas o resultado das ideias, não as intenções das ideias. Quem sabe um dia, por algum capricho da vida, surja alguém tão distante do ideal popular que acabe sendo transformado numa farra democrática e por isso seja eleito.

Se pudesse desenhar um perfil, eu desenharia um empresário bem sucedido − ou seja, alguém que já tenha conquistado tudo o que um homem pode conquistar por meio do trabalho – e que por vaidade e nada além disso queira ser o responsável pela maior proeza que um ser humano pode almejar: administrar o Estado como se administra uma empresa, sem se importar com a vida privada dos clientes, preocupando-se apenas em garantir a liberdade e a paz das pessoas.

  • José Agustoni

    Antigamente, quando vivíamos em tribos e até um pouco depois, quando começamos a viver em pequenas comunidades, não havia representação eleita, mas haviam os conselhos formados invariavelmente pelos mais velhos, os anciãos da tribo. Neles se podia depositar confiança, pois era os mais experientes, com maior conhecimento da vida e interessados no bem estar de todos. Hoje, com o crescimento exagerado das cidades, votamos em desconhecidos sem saber o quão experientes são e muitas vezes jovens demais para terem a sabedoria necessária. De certa forma, essa é uma falha grave da democracia.

  • Gustavo Satoru Kajitani

    Bom dia João!

    Sou estudante de doutorado em biologia molecular, leigo em economia/sociologia (somente li trabalhos como os de Ayn Rand e John Stuart Mill). Ao ler seu texto, fiquei com algumas dúvidas/críticas. Se possível, gostaria de sanar estas.

    Na frase “Entre uma entrevista com um atleta famoso e outra com um cientista qualquer, certamente o povão preferirá ouvir o atleta. Um discurso sobre “justiça social” e “redistribuição de renda” certamente atrairá a atenção de muito mais pessoas do que uma palestra sobre a Curva de Laffer ou sobre o Princípio da Escassez.”, aparentemente você diz que um discurso simplista é mais atraente do que um que necessita base teórica – algo que eu, como cientista, vejo diariamente – por exemplo, é mais fácil as pessoas concordarem que transgênicos fazem mal, só por não serem “naturais”, do que entenderem a biologia e as técnicas de engenharia genética por trás disso. No entanto, esse argumento apresenta um outro lado – é também mais fácil convencer as pessoas sobre “meritocracia” (que quem está no topo é porque trabalhou mais) do que apresentar os profundos motivos sociais e históricos do por quê certas pessoas estarem no poder (sejam esses poderes aquisitivos ou não). É mais fácil convencer alguém que o país está ruim por motivos de má administração (não que não haja isso, atualmente o país está de fato sendo mal administrado), do que por ser um problema mais complexo, com diversos jogos de interesse que envolvem também a área privada (como os grandes bancos). Meu ponto é: um discurso simplista pode servir tanto para interesses que pregam “justiça social” quanto interesses que pregam o “liberalismo”. Qual seria a grande diferença entre essas táticas? Devo notar, além disso, que a frase “As primeiras filas dos partidos políticos sempre serão ocupadas por aqueles cujas ideais vagas e imperfeitas influenciam com facilidade, aqueles que não têm dificuldades para despertar paixões e emoções nas massas e nos demais colegas.” também se aplica sob a visão desse contra-argumento. Políticos com grande capacidade discursiva, como o Bolsonaro, se encaixam nesse perfil – e o Bolsonaro, até onde eu saiba, não possui ideais socialistas.

    Minha segunda dúvida: “Socialistas de bandeiras vermelhas e socialistas de gravatas azuis conquistam o poder com tanta facilidade porque suas ideias refletem a debilidade intelectual das massas, o que torna quase impossível que alguém de ideias construtivas seja eleito.”. Isso não significaria que o congresso, senão a política brasileira (ou mundial) como um todo, deveria ter mais representantes socialistas? Não é isso que eu vejo.

    Quero notar que, apesar dessas críticas, estou inclinado a acreditar no ideal neoliberalista (o inicial, como proposto por Rustow há quase 100 anos atrás), concordo em grande com o problema de polarização apresentado, e acredito que, em termos administrativos, o estado tenha muito a aprender com empresas.

    Grato,

    Gustavo

    • joão césar de melo

      1° – A história comprova que não é nada fácil conseguir o apoio das pessoas sobre a “meritocracia”, a prova disso é o quase consenso sobre as políticas de bem-estar social que, em si mesmas, dão direitos às pessoas apenas por existirem, ignorando completamente o carater e a conduta de cada uma delas. 2 – Todos os regimes mais à esquerda no mundo (Cuba e Venezuela, por exemplo), sustentam-se na pregação de que suas crises são causadas por fatores externos (mercado financeiro, bancos etc), o que desmonta completamente sua interpretação. O próprio momento atual do Brasil comprova isso, com o governo mantendo-se de pé acusando mil fatores externos (nunca a si mesmo), pela crise. 3 – Desafio e voce a citar um único fato histórico do último século onde os ideais liberais venceram a propaganda simplista dos governo. Nunca houve. Nada foi mais perseguido na história do as ideias de liberdade individual. 4 – Bolsonaro é um estadista assim como qualquer outro político brasileiro. Só é considerado de direita porque está “à direita da esquerda”; e ele só cativa tantos votos porque seu posicionamento é tão simplista quanto o de qualquer socialista, porém, pegando a outra parte da população (conservadores e religiosos) que não entram na onda da esquerda. 5 – Sim, em qualquer país do mundo as camaras e os palácios são ocupados por socialistas. O político típico é uma pessoa que luta para ser o intermediário entre as pessoas e as demandas dessas mesmas pessoas, por meio do estado, ou seja: socialismo. 6 – “ideal neoliberalista proposto por Rustow há quase 100 anos atrás”. Gustavo, numa boa mesmo… Sem provocação: Se voce se interessa pelo assunto, dá uma estudadinha básica antes. O próprio termo “neoliberalismo” já é digno de risadas de qualquer pessoa que conhece um minimo de filosofia liberal, e vincula-lo a alguém de um século atrás já parece piada premeditada. Abraço.

      • Gustavo Satoru Kajitani

        Olá João! Agradeço pela resposta.
        1-Acho difícil concordar em totalidade com essa resposta, pois frequentemente escuto um discurso meritocrático, com críticas à programas sociais (não que os mesmos não devam ser criticados quanto a sua implementação, muito pelo contrário). De qualquer forma, era um exemplo de como um discurso simplista pode ser mais atraente do que um que aborda temas mais complexos, não queria discutir a meritocracia per se, mas estou aberto a isso, caso queira.

        2-Mais uma vez, utilizei disso como um exemplo de que discursos simplistas são mais atraentes que modelos complexos. Os países socialistas (que, aliás, não é um modelo que eu defendo) tem sua parcela de culpa em termos de má administração sim, mas dizer que fatores externos não influenciam a direção que estes (e outros países) tomam não faz sentido. De qualquer modo, esse era, como eu falei, um exemplo de discurso simplista. Caso queira continuar nessa linha de discussão, também acho interessante, mas não era o ponto original.

        3-De fato, não consigo citar um grande caso de política liberalista sendo implementado por algum governo, seja ele brasileiro ou não. Não entendi a relevância desse comentário, no entanto, visto que eu não critico o liberalismo em nenhum ponto, critico somente a simplicidade argumentativa que qualquer político pode ter, independente da ideologia. Seria o seu ponto “é mais fácil as pessoas serem enganadas com discursos simplistas que visam “justiça social” do que com discursos simplistas que visam o liberalismo, e portanto políticos e líderes sociais se utilizam mais desse artifício”? Se sim, realmente, faz muito sentido.

        4- Não tenho muito o que comentar, foi bem direto ao ponto. Mas, mais uma vez, eu utilizei de um exemplo – que discursos simplistas podem ser um artificio de qualquer um, de qualquer ideologia (ou qualquer ideologia aparente).

        5- Isso não é a definição formal de socialismo. Mas se você escolhe definir dessa forma, acho que agora tenho uma melhor compreensão desse post, obrigado.

        6- Se você acha que eu deveria estudar mais, eu agradeceria alguma referência bibliográfica com as diferentes correntes liberais atuais, acho ótimo estudar – algum tipo de review acadêmico seria o ideal, se você tiver. De qualquer forma, não vejo problemas em defender ideias propostas anos atrás, desde que as mesmas acompanhem a evolução cultural/econômica – não são modelos, são idéias e ideais sobre os quais podemos construir em cima. Países nórdicos, a Alemanha, entre outros países relativamente bem sucedidos atualmente se utilizam desses ideais propostos a quase 100 anos atrás. O liberalismo atual se apoia em idéias propostas a mais de 300 anos atrás, e não há problema algum nisso.

  • Alysson Melo

    Eu só penso em um nome que pode mudar esse país como Reagan ou Thatcher: Senor Abravanel. Infelizmente ele não está aberto a entra para a política. Uma pena, não sei a ideologia política dele, mas acho que ele seria um excelente candidato a presidente pelo Partido Novo.