Votou em Bolsonaro? Vamos estudar História?

Ao declarar o voto e apoiar publicamente o candidato Jair Bolsonaro, muitos escutam a clássica e sonífera crítica: “Vá estudar História!”. Ora, como um estudante de História perto de se graduar, nada mais justo do que me surpreender ao ver esse tipo de atitude… contudo também necessito fazer umas perguntas: estudar o quê? Quem? Quais fontes? Quais dados? Qual bibliografia? Sob qual perspectiva e tradição historiográfica? Mas, infelizmente, só vi a frase vazia de “ir estudar”.

É interessantíssimo assistir àqueles que bradam em nome do estudo, este que, supostamente, iria libertar o cidadão comum do perigo eminente de votar em Bolsonaro, não nos oferecerem a bibliografia para tal! Insisto em me perguntar: estudar o quê?

Já que estamos falando de política contemporânea, com certeza não é História do Antigo Egito. Descartaremos a História Medieval e Moderna, igualmente, então só nos resta apenas uma escolha: a contemporânea. Contudo, minha dúvida ainda não morre: onde na História contemporânea?

Se Bolsonaro representa um mal tão grande que faz uma legião de progressistas ressuscitarem a Historia Mestra da Vida, de Cícero – e é bom você, que manda os outros estudarem História, saber exatamente do que eu estou falando sobre Cícero e seu comentário sobre a historiografia grega e romana sobre o assunto –, isto é, a ponto de todos recorrerem ao passado para, assim, refletirmos sobre o que fazer no presente; essa História só pode ser localizada no século passado, este que foi o palco das maiores violências e dos mais desastrosos regimes da humanidade.

Então, situando-nos de maneira correta, ainda nos resta a mesma dúvida: onde?

Podemos eliminar de antemão as ditaduras mais violentas do séc. XX, ou seja, as comunistas. Bolsonaro não é comunista, apesar de já ter admirado alguns comunistas no passado. Ele é tão reacionário que qualquer um que o aproxime dos vermelhos só pode estar internado em algum sanatório. Com isso, nos restam duas outras correntes políticas muito próximas umas das outras em que, talvez, Bolsonaro se encaixe: o fascismo e o nacionalismo.

O correto, porém, é falar de “fascismos” e “nacionalismos”. Os países tiveram suas correntes e, por vezes, terão até mais de uma, para essas ideologias. Nesse caso, a quais regimes autoritários, ou totalitários, Bolsonaro se assemelharia mais? A pergunta de “onde?”, claro, ainda impera (é muito interessante que aqueles que nos mandam estudar não têm muita capacidade de localizar algo no tempo, o que é uma lástima, sem dúvidas).

Vamos, então, admitir que estejam se referindo aos piores e mais famosos regimes nacionalistas e fascistas do mundo do século passado ou, no mínimo, às ditaduras pelas quais o Brasil passou. No primeiro caso, o nacionalismo não pode ser considerado um mal em si, apesar de ser, claro, temerário, quando exagerado. A característica do nacionalista extremado é fechar seu país para as influências estrangeiras. A cultura tolerada é apenas a nacional, o protecionismo econômico é a lei, qualquer coisa que tenda a influência estrangeira na política e na vida cotidiana é rechaçada. O “nós” se torna o mandamento.

Uma rápida pesquisa nas propostas de Bolsonaro já demonstraria que ele não é um nacionalista extremado. Muito distante de Salazar ou Franco, Bolsonaro tem tendências liberais nas raízes de suas proposições. Um nacionalista jamais poderia escolher um Estado pequeno, pois assim as influências das grandes potências forasteiras se fariam sentir. Não vemos, também, nenhum discurso que supervalorize produções da cultura nacional em detrimento da estrangeira. O nacionalismo de Bolsonaro é brando – então ele não se alinharia a sujeitos como Franco e Salazar… mas e o fascismo?

Se pensarmos no fascismo alemão, Hitler, como Bolsonaro, disputou as eleições de modo democrático e, assim, ganhou o poder. Mas diferente de Bolsonaro, o Nacional Socialismo alemão possuía uma milícia armada, um discurso claramente segregacionista e prometia separar o povo alemão em tipos de raças, quando chegasse ao poder. Para o nazismo ter sido efetivo, forjaram um incêndio, cometeram certos assassinatos, perseguiam diretamente opositores com atentados terroristas… E qualquer um que pense que Bolsonaro faz a mesma coisa tem um parafuso solto. Ele não se centra ao redor de um grande partido, portanto, também não possui uma ideologia revolucionária; não compactua com nenhum tipo de socialismo, não tem uma rede que promove terrorismos e nem sequer um sistema ideológico próprio. Nosso cenário não é nem de perto o da cambaleante República de Weimar, na década de 30 – mas para alguns, talvez seja necessário desenhar, já que não perdemos uma Grande Guerra, não temos ruas infestadas de veteranos mutilados, mendigando comida. Não há revanchismo, sequer uma separação nítida de etnias e uma ideologia que promova isso no país, organizada em seu partido. Se um professor de História acreditar piamente que Bolsonaro se encaixa em uma conjuntura semelhante à de Hitler, esse professor deveria ser demitido por justa causa, assim como qualquer trabalhador que não entende o campo em que trabalha – ou é isso, ou o nazismo, de repente, se mostrou bondoso com a causa sionista… (e espero não precisar explicar isso aos entendedores de História).

O fascismo de Mussolini é sumariamente explicitado em sua Doutrina do Fascismo. O ditador italiano o delimita, o define e dá à sua ideologia política contornos que, se quebrados, descaracterizariam seu fascismo. Existe uma rejeição máxima do individualismo e do liberalismo, estes sendo acusados de ladrões do espírito nacional – o livre mercado e sua doutrina liberal abririam as portas para estrangeirismos e para a concorrência que a população e seu mercado interno teriam que enfrentar de empresas do exterior. Mussolini também defendia um Estado grande, poderoso, inchado e que cuidasse da economia, ou seja, um Estado intervencionista que guiaria a classe empresarial. De fato, as corporações iriam ter uma grande parte na economia. Nos moldes corporativistas é como as leis e o comércio seriam forjados; os sindicatos e os direitos trabalhistas, visando delimitar o poderio dos patrões, também detinham um aspecto muito importante. Com efeito, Mussolini acreditava que seu fascismo era uma evolução do socialismo e, portanto, carregava uma carga de herança considerável. Mussolini nunca contrataria um Paulo Guedes, se dependesse de seu fascismo. Ele é um nacionalista extremado, um coletivista incurável e um progressista declarado: compondo a doutrina de seu fascismo, acredita que o futuro é o fascismo, o coletivismo. Ele tem a receita do progresso, o fim máximo para o Homem (e algo semelhante ocorre com o nazismo, ainda que de modos distintos).

Se alguém já ouviu discursos de Bolsonaro onde este afirma que o que propõe é, na verdade, uma evolução do socialismo, um sindicalismo mais coerente e um coletivismo antiliberal… recomendo a este alguém procurar urgentemente um médico para verificar seu problema de surdez.

Voltando ao caso do nacionalismo extremado, seria um defeito confundir mesmo isso com o fascismo, já que o nacionalismo é mais velho que o fascismo. Podemos identificá-lo já nas Guerras Napoleônicas, nas resistências espanholas contra as tropas francesas (claro, exigir dos que se dizem “entender a História”, talvez seja um exagero…) e, portanto, ele está descolado do fascismo. George Orwell, na década de 40, relata que nacionalistas indianos chamavam os imperialistas britânicos de fascistas, por exemplo. Esses dois movimentos não são sinônimos e outros exemplos históricos podem ser dados: no período da Regência, quando a nacionalidade brasileira estava se formando para romper os regionalismos, o corpo da Regência e a câmara do Império Brasileiro eram formados por fascistas, por conta de seu nacionalismo brasileiro? Fascistas no meio do século XIX, nos trópicos tupiniquins!? Não é preciso ser muito inteligente para ver a falácia desse argumento.

Outros exemplos podem ser dados: um fascismo já tentou se adentrar em um movimento internacional. Na Vichy da II Guerra (mais uma vez, leitor que entende de História, espero não precisar usar o Google para saber o que é “Vichy”) foi proposta uma Internacional Fascista. Isso, para quem se esforçar um pouco em seus pensamentos, é simetricamente oposto ao nacionalismo. De fato, os nazistas impugnaram a tentativa de tal Internacional, nos anos 40. Dentro dos fascismos, o nacionalismo podia ou não podia desempenhar um papel-chave. Mesmo dentro do comunismo vemos o nacionalismo florescer. Stálin usou de nacionalismo, para incentivar o exército e a população, durante a II Guerra – guerra esta que, até hoje na Rússia, tem o nome de Grande Guerra Patriótica –, ou mesmo, após a Queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, o isolamento de ditaduras vermelhas como a Coréia do Norte ou Cuba denotam uma espécie de nacionalismo. Se a tese dos espertos que creem que o nacionalismo é essencialmente cruel e fascista for levada a sério, o fascismo teria surgido antes do fascismo e, tão hilário quanto, Stálin, Fidel e os ditadores norte-coreanos são todos fascistas!

O nacionalismo existente nos discursos de Bolsonaro é tão brando que só abarca os bens naturais do país, na maior parte das vezes. O seu conhecido apelo pela proteção comercial do nióbio nada mais é do que uma defesa dos recursos minerais do Brasil, que perto de políticas como as de Salazar e de Franco, estão como Adam Smith está para Karl Marx. O quase fechamento da economia para o estrangeiro não está nos planos de Bolsonaro. Ele se mostra, na realidade, como um sujeito aberto para uma economia liberal. Seus apelos para colocar o Brasil acima de tudo vão mais ao encontro do combate à corrupção, ou seja, o esquema de lobby por propina existente nas ligações das grandes empresas com políticos importantes, do que à queda de acordos bilaterais e o fechamento do mercado nacional para empresas estrangeiras – e isso já o afasta de ditadores nacionalistas extremados, ainda que não sejam fascistas, como Vargas, seu sindicalismo e suas políticas nacionais.

Quanto ao governo militar e seus ditadores, no Brasil, as atitudes econômicas e políticas de Jair Bolsonaro não poderiam ser mais destoantes. Mais uma vez, ele defende um Estado pequeno, se compararmos com a ditadura brasileira, fora o fato de pregar o respeito pela ordem atual do país. Com efeito, assim como os outros exemplos históricos dados acima, a ditadura de 1964 só existiu por causa da conjuntura situacional do período. É o cenário que possibilitará, sempre, a História se dar de uma ou de outra forma. Isso é uma regra que os entendedores de História deveriam saber e entender. A Guerra Fria, Cuba caindo ante o comunismo, o financiamento cubano e soviético a grupos armados ao redor do globo e na América Latina, o histórico de lutas comunistas violentas no Brasil de décadas atrás, as notícias pavorosas dos genocídios perpetrados por comunistas… tudo isso influenciou o início da ditadura militar no Brasil. Retire um desses fatores e é muito provável que ela jamais ocorresse.

Mas exigir princípios básicos de análise histórica deve ser demais, ao menos para os entendedores de História. Mais uma vez, é preciso voltar a George Orwell, em seu artigo “O que é o fascismo?”, escrito em 1944 na coluna As I Please, na Tribune, onde ele explica como o termo “fascista” já era descaracterizado em seu tempo, em nome da ofensa política no Reino Unido. Basicamente, todos rezavam a mesma missa ofensiva com o intuito de denegrir o outro, desde que este outro fosse bruto, em suas propostas políticas. Se fossem chamados de “bárbaros” ou “trogloditas”, teria o mesmo sentido se fossem chamados de “fascistas”. As definições ideológicas próprias do fascismo sequer eram tocadas, já que, se assim fossem, perderiam uma palavra-gatilho para atacar seus inimigos. Vemos algo semelhante ocorrer com Jair Bolsonaro, quando o chamam de fascista ou quando o comparam aos ditadores brasileiros do passado.

Mas quem sabe Orwell esteja errado. Quem sabe, aos olhos dos verdadeiros conhecedores de História, estes que, do alto de seus cadeirões do saber, julgam tudo e todos que os contrariam como “leitores de Whatsapp” – quem sabe o próprio Orwell fosse um leitor de Whatsapp, se aceitarmos as premissas críticas desses peritos da História! Ou… quem sabe George Orwell não fosse ele mesmo um fascista!

Mas talvez os detentores da ciência histórica não se deem bem com a lógica. Talvez a palavra “silogismo” seja nova para eles.

Deus nos proteja desses ditos sábios do passado.  

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