Se Bolsonaro aceitar o desafio de Amoêdo, todos ganham

Em entrevista para o Movimento Brasil Livre, o empresário João Amoêdo, um dos fundadores do Partido Novo e provável presidenciável pela legenda, comentou a também provável candidatura do deputado Jair Bolsonaro. Amoêdo disse: “Acho importante, como existe essa grande dúvida se ele é liberal ou não, e ele ainda tem um ano de mandato… Por que que ele não aproveita esses doze meses de mandato e coloca uma ou duas coisas da pauta liberal?”.

A ideia de Amoêdo, evocando o fato de que a trajetória pretérita de Bolsonaro não foi efetivamente simpática ao liberalismo – basta lembrar que os ícones do parlamentar eram o nacionalista estatizante Enéas e os presidentes do regime militar, muitos dos quais, em especial Ernesto Geisel, de gestão estatizante – é de que o parlamentar demonstre que sua guinada para o liberalismo é sincera com atitudes positivas. O histórico pessoal do militar ainda provoca, com o incessante resgate de suas declarações e atitudes antigas, grande repulsa em muitos brasileiros simpáticos a diferentes correntes do pensamento liberal.

Para além de se cercar de conselheiros econômicos como Adolfo Sachsida, um inquestionável liberal conservador, e sugerir a nomeação de Paulo Guedes como ministro da Fazenda, Amoêdo provocou Bolsonaro a protocolar projetos que ataquem os entraves estatizantes à economia, desafiem regulações ou impostos e venham ao encontro das agruras nas nossas finanças públicas.

É preciso, de antemão, fazer justiça: o esforço de Bolsonaro por defender a bandeira da oposição ao Estatuto do Desarmamento é um esforço pela liberdade individual – e em uma das esferas mais urgentes: a da legítima defesa da própria vida. Também é um esforço pela liberdade individual o de trabalhar pelo direito de ir-e-vir, batalhando pelo endurecimento de penas contra criminosos. Cabe mencionar ainda sua luta pelo voto impresso, que se não diz respeito diretamente à liberdade individual, diz respeito à discussão da própria qualidade do nosso sistema político-eleitoral. Amoêdo não pode dizer, não com razão, que Bolsonaro jamais fez nada a favor da liberdade dos brasileiros durante sua atuação no parlamento. A economia não é tudo.

Porém, contudo, todavia, entretanto, desse ponto de vista econômico, o passado de Bolsonaro é mesmo lamentável. O parlamentar se opôs à privatização das telecomunicações, votou em conjunto com o PT em uma série de projetos durante o segundo governo de FHC e o governo Lula (inclusive projetos intervencionistas, envolvendo concessão de subsídios e subvenções), defendeu a proibição do uso de palavras estrangeiras em estabelecimentos comerciais (?), se opôs ao Plano Real, se opôs à quebra do monopólio estatal de exploração do petróleo e fez a maior parte da sua carreira como uma espécie de líder sindical dos militares, núcleo de seu eleitorado. Não é realmente, nessa área, um passado nada convidativo.

Parece-nos que, no interesse de reforçar a solidez de sua transformação, robustecendo seu movimento em direção à pauta liberal e associando isso à sua capacidade já comprovada de aglutinar seguidores, sobretudo jovens, em seu entorno, faria bem a Bolsonaro considerar o desafio de Amoêdo. Dirão alguns: “Amoêdo só fez o desafio para se projetar, porque é concorrente de Bolsonaro ao cargo”. É possível e até nada improvável – e não há nada de criminoso ou imoral nisso. Faz parte da disputa política. O melhor caminho é se aproveitar disso para que, do enfrentamento, surjam boas ideias, que podem ser do interesse de todos. É assim que a sociedade pode avançar em rumos mais prósperos, dentro de percursos democráticos e construtivos.

Acreditamos que Bolsonaro poderia, já que tem mandato em curso, apesar de reconhecermos as dificuldades particulares de 2018 – porque será um ano eleitoral -, mobilizar duas ou pelo menos uma pauta econômica de caráter liberal que seja atrativa. Bolsonaro ganhará com isso, porque acenará mais ostensivamente e explicitamente ao público liberal, com atos – e atos “frescos” na memória. A sociedade ganhará com isso, pois terá pelo menos mais uma agenda positiva em curso no Poder Legislativo. Quanto a Amoêdo, terá sua provocação respondida. Que tal?

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