Roman J. Israel, herói ou vilão?

Não sou nem um pouco afeito à análise de obras artísticas sob um filtro ideológico. Pois nesse caso podemos incorrer no erro grave de nos parecermos com os patrulheiros do politicamente correto. Entretanto, no caso do filme Roman J. Israel, Esq., lançado no final do ano passado nos Estados Unidos e que em breve estreará nos cinemas brasileiros, é tão gritante o risco de confundir o espectador com uma troca de sinais, que não posso me furtar a analisar o que ocorre na tela. O risco a que me refiro é aquele, muito comum nas sociedades dominadas pela cultura de esquerda, de santificar o vilão e demonizar o herói.

O leitor me perdoe se escapar algum tipo de “espoiler”, mas de forma alguma este artigo afetará o prazer de ver o filme. Posso garantir. Bem, Denzel Washington – que concorre ao Oscar 2018 de melhor ator – interpreta, com a excelência de sempre, o advogado Roman J. Israel. Este exerce a profissão há mais de duas décadas e, no entanto, não tem dinheiro sequer para comprar um celular, quanto mais um automóvel. Por quê? Pelo simples motivo de que ele e seu contratante e parceiro na atividade fazem do escritório uma organização de caridade. Eles estão ali apenas e tão somente para “socorrer os excluídos”, aqueles sem condições de pagar advogados. Principalmente os negros. E quem sustenta esse idealismo salvacionista? A família de seu sócio, obviamente com recursos capitalistas.

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Como seria de se esperar, chega o momento em que esse escritório de advocacia não tem mais como seguir adiante. Então, é chamado para assumir a “massa falida” o jovem empreendedor que, por acaso, exerce a advocacia, George Pierce, vivido também com brilhantismo por Colin Ferrell. Ele faz de sua profissão um belo exercício de empreendedorismo. Tem nada menos que 60 colaboradores em seu elegante e amplo escritório. Também cuida para que o marketing estratégico auxilie o crescimento da atividade e repete sempre aos clientes: “Vamos fazer mais que o possível para que este seu caso seja bem-sucedido”.

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Entretanto, você, o espectador, começa a sentir de imediato que o roteiro vai tratá-lo como vilão da história. Contrastando com o desmazelo e estilo desajeitado do protagonista, tanto nas roupas como no cabelo e no jeito de andar, George Pierce é um dândi, sempre impecavelmente vestido e dirigindo um carrão.

O herói do filme tem um grande plano. Ele vai mudar tudo nesse “ganancioso” mundo dos advogados voltados para a vil moeda. Ele não. Pelo contrário. Tenta dissuadir o jurisconsulto empreendedor a se associar a ele na misteriosa empreitada que eliminará os desvios de conduta no setor.

Quando Roman J. Israel percebe que sua luta é em vão, ao invés de ingressar com retidão no mundo dos geradores de riquezas, o faz pelos caminhos tortos. Comete um crime. Passando uma clara mensagem: para ganhar dinheiro é preciso ser desonesto. E sua tragédia se torna completa. O advogado capitalista tenta salvá-lo. Mas já é tarde.

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E o leitor, quando assistir a esse filme, verá que, no final, ainda há outra inversão de valores. George Pierce, o empreendedor, se volta para o projeto salvacionista. Como se o que ele fazia antes, que era utilizar-se de uma profissão digna para fazer brotarem riquezas e empregos, fosse algo menor. Guardem este artigo e, quando puderem, assistam. Mesmo num filme escrito e dirigido pelo elogiado diretor de O Abutre, Dan Gilroy, verão como é fácil trocar os sinais para pavimentar o caminho do engodo em que nossa cultura ocidental está mergulhada.

>Sobre o autor: Claudir Franciatto é jornalista e escritor.

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