Por um Brasil em que o julgamento do Lula dispense a presença do Exército

O primeiro grande ato de 2018 na vida pública brasileira deverá ser o julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula pelo caso do tríplex do Guarujá, no próximo dia 24. Não precisamos dizer que nossa torcida mais entusiasmada, há muito tempo, é para que o líder populista seja condenado e preso. Os motivos para isso […]

O primeiro grande ato de 2018 na vida pública brasileira deverá ser o julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula pelo caso do tríplex do Guarujá, no próximo dia 24. Não precisamos dizer que nossa torcida mais entusiasmada, há muito tempo, é para que o líder populista seja condenado e preso. Os motivos para isso são vários e o apartamento do Guarujá seria até um dos menores, mas se veio primeiro, que seja feita a justiça, dentro das regras penais e constitucionais.

O que se espera de um julgamento em uma sociedade onde prospere o império da lei é que o Poder Judiciário use das atribuições de que está investido, sopese os argumentos e determinações do código legal, determine a punição cabível ao réu culpado (notoriamente culpado!) e vida que segue. Infelizmente, no Brasil, não temos a bênção de tal tranquilidade. Eis que o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., tomou uma decisão que chama a atenção dos noticiários e dá a tudo, queira-se ou não, ares de “espetáculo”: pediu ao presidente da República, Michel Temer, oficialmente, que o Exército brasileiro e a Força Nacional sejam convocados para reforçar a segurança nos arredores do Tribunal.

Marchezan justifica o pedido “considerando a ameaça de ocupação de espaços públicos municipais, pelos diversos movimentos sociais que manifestaram-se nesse sentido”, “a menção à desobediência civil e luta propugnadas nas redes sociais por alguns políticos, inclusive Senadores da República” e “o fato de o Tribunal Regional Federal da 4ª Região situar-se no interior de um parque municipal”. Frisemos de antemão que não estamos ressalvando esse fato e as alegações do prefeito para contestar sua escolha. Até segunda ordem, ele pode estar certo.

O problema que ressalvamos é o surrealismo da situação. O filósofo Fausto Silva costuma dizer que o Brasil não é de Primeiro Mundo, nem de Terceiro, mas “do Outro Mundo”; indiscutível é que a necessidade de Marchezan fazer o que fez é mesmo coisa de paragens interdimensionais.

Os antecedentes que explicam essa necessidade são claros. O criminoso larápio José Dirceu, ex-ministro que deveria ser manifestamente ignorado por qualquer cidadão de bem que se preze, anda matando as saudades de seus tempos de líder intelectual e inspirador das esquerdas e, como quem julga ainda ter lugar de formador de opinião pública – quando o único papel que lhe deveria restar seria pagar por seus crimes e reduzir-se à insignificância -, convocou a militância e os “movimentos sociais” para um “dia de revolta”: “A hora é de ação, não de palavras, transformar a fúria em revolta, a indignação e mesmo o ódio em energia, para a luta e o combate”. Palavras, argumentos, leis, civilidade democrática, para que serviriam, não é mesmo? Se o PT não está no poder e se o criminoso a ser julgado é um petista, não há razão para respeitá-las. Os próceres da estrela vermelha têm o direito sagrado, garantido a eles pelo monopólio da virtude, de aterrorizar os transeuntes e torpedear o patrimônio público.

A irresponsabilidade abjeta não termina aí. A petista Gleisi Hoffmann e a comunista Manuela D’Ávila querem fazer um “julgamento paralelo” – ao menos terão a “decência” de fazê-lo um dia antes – para provar que “outro mundo é possível” e “lutar por justiça”. Os agitadores do PT instigam para manifestações, não apenas em Porto Alegre, mas em todo o país. Irão mesmo transformar o julgamento em um festival público – o que, não sejamos ingênuos, não é nada inesperado. Já se fazem, porém, mais do que isso, mobilizações para que Lula seja candidato mesmo se for condenado!  

Seguindo a verborragia ferina, o Movimento dos Sem Terra – leia-se: os arruaceiros de Guilherme Boulos – queria acampar (isso mesmo: acampar!) em frente ao tribunal desde o dia anterior ao julgamento sem autorização prévia do poder público. A Justiça impediu essa insanidade, mas o MST ainda está planejando acampar em outro local próximo.

Tudo isso, senhores, porque o “líder”, a “causa”, a “ideologia”, o “partido”, estão acima da letra da lei. Acima da letra da lei, a ponto de ser justificável uma retórica de revolução perante um criminoso prestes a ser punido. O fato de se cogitar a presença do Exército para o julgamento de uma pessoa apenas porque ela já foi autoridade e, como diria Fernando Henrique, é ou foi um “símbolo popular”, comprovando que o fanatismo populista é enraizado o suficiente para que disso decorra o privilégio de merecer a imunidade total pelos malfeitos cometidos, atesta quão longe estamos ainda do razoável por que lutamos e quão mais perto estamos do reinado do absurdo de que nos queremos livrar.

Apostamos pessoalmente há um tempo, e seguimos apostando, que a extrema esquerda lulopetista não triunfará nas eleições de 2018. Podemos falhar nessa aposta, e Deus queira que não, se, apenas porque vencemos as últimas batalhas, subestimarmos o maior inimigo, disposto a capitalizar em cima de uma falsa posição de “preso político” atribuída a um dos maiores vilões da história do Brasil. Mais do que vê-lo preso, importa combater a narrativa que procurarão criar a partir dessa prisão. Por isso, fiquemos atentos. Não provoquemos confrontos. Não sejamos irresponsáveis como eles. Nossa maior arma, mais para garantir o futuro que para vencer no presente, deve ser a verdade.

Não cessemos de dizer, não cessemos de escrever, não cessemos de produzir o registro do que realmente ocorreu – e o que ocorreu e ocorre agora, diante dos nossos olhos, é simples: depois do impeachment da criatura, chegou a vez de o criador ter um encontro definitivo com a justiça. Ansiamos por isso, sequiosos de um Brasil contemporâneo mais honesto e limpo, de que não precisemos nos envergonhar diante dos nossos descendentes. Precisamos deixar claro aos baderneiros e terroristas em potencial que não somos seus reféns.

Lula não é a vítima – ao contrário, ele é a causa viva do problema. As leis do país devem valer para ele como para qualquer um de nós. Que este seja o primeiro passo para um Brasil em que não se precise pensar em reforço militar na praça de um tribunal para fazê-las cumprir sem sustos.

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