Os trunfos e os asteriscos: Geraldo Alckmin na corrida presidencial

O presidenciável Geraldo Alckmin possui, em sua trajetória, muitos asteriscos. Perdeu as eleições de 2006, um ano após o escândalo do mensalão – tendo, inclusive, menos votos no segundo turno que no primeiro. Na oportunidade, ao ser acusado por Lula de “privatista”, protagonizou uma cena pitoresca ao se travestir de todas as estatais possíveis para se defender. Em 2008, novo revés: nem sequer chegou ao 2º turno da eleição municipal de São Paulo ao disputar com Gilberto Kassab e Marta Suplicy.

O quadriênio politicamente em baixa deu lugar à reviravolta, no entanto. Em 2010, conseguiu eleger-se novamente para o Governo de São Paulo; em 2014, foi reeleito, perdendo apenas em uma das 645 cidades do maior estado brasileiro. Elegeu-se presidente do PSDB ao final de 2017 e, além de pacificar o partido, conhecido por correligionários sabotarem seus próprios colegas, foi alçado como nome tucano para a disputa presidencial sem ressalvas como aconteceu em 2010 com Serra e em 2014 com Aécio. É com ele que os tucanos estão e ponto final.

A 7 meses da votação, todavia, Alckmin não empolga ninguém do eleitorado. Menos de 5% dos eleitores afirmam votar nele com certeza, e ele possui enorme rejeição no momento. Há quem descarte que ele consiga chegar ao 2º turno mesmo sem a presença de Lula. O eleitorado está cansado da polarização entre PT e PSDB.

Contudo, há alguns trunfos que o governador de São Paulo tem para mostrar ao longo da campanha que o diferenciam de seus opositores e devem  potencializar suas chances ao Palácio do Planalto.

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Se em 2014 a principal preocupação do eleitor brasileiro era com uma melhoria de serviços públicos, em 2018 o cenário se desenha para ser voltado principalmente para segurança pública – a melhor área de Geraldo à frente de São Paulo.

Todos os presidenciáveis possuem propostas e falas sobre segurança pública, mas a maior parte deles não possui gestão à frente do Executivo e nunca lidou diretamente com a segurança pública. Alckmin, entrementes, é o protagonista da redução drástica da criminalidade de São Paulo. No final dos anos 1990, a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes no Estado era de 52,5 (o dobro da atual média brasileira). Atualmente ela é de 6,1. Caiu quase 9 vezes desde que se tornou governador em 2001 (ficou até 2006 e retornou em 2010 até atualmente).

Sob sua condução houve uma reestruturação da polícia paulistana. Com investimento em tecnologia, sobretudo, a taxa de resolução de homicídios em São Paulo atualmente é 5 vezes superior à média nacional. Alckmin tem números a mostrar ao eleitorado enquanto a maior parte dos concorrentes só podem contar com bordões e proposições sem nunca antes tê-las executado – algumas, inclusive, que podem ser boas eleitoralmente, mas inócuas de resultados.

Outra questão crucial é a nossa situação fiscal. O eleitorado pode não estar muito preocupado, mas ela será ainda mais relevante nos próximos 4 anos que no último quadriênio. Em 2017, tivemos um déficit primário de 124,4 bilhões (1,9% do PIB). Desde 2014, o acumulado do déficit é de 421,1 bilhões. Assim, a dívida pública cresceu de menos de 50% para mais de 80% e, mantendo-se a trajetória da despesa, chegará a 100% em 2021. Há a possibilidade de, diante disso, o próximo presidente descumprir a PEC do Teto. Mais: cumprir a Regra de Ouro, que visa evitar a contratação de operações de crédito para financiamento de despesas correntes (como pagar o salário de servidores), é tarefa praticamente impossível para 2019.

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Alguns candidatos à presidência não possuem experiência na administração pública; alguns deles são ou foram parlamentares que, inclusive, votaram medidas que contribuíram para nossa crise fiscal. Alckmin, ao contrário, administra um estado que, mesmo com brutal queda na arrecadação, manteve superávit primário. Tudo a partir de uma gestão austera que conseguiu controlar as despesas possibilitando que, diferentemente de 17 estados da federação, os servidores paulistanos continuem a receber em dia.

No campo econômico, o coordenador de Alckmin é o economista Pérsio Arida. Ele tem concedido entrevistas com diversas promessas liberalizantes. Tal como a ressalva que fiz a outros presidenciáveis, Alckmin tem buscado encampar um discurso liberal, mas trata-se de um liberalismo de conveniência, o que requer enorme grau de ceticismo.

Demais a mais, o principal trunfo de Alckmin em relação a seus concorrentes é que, eleito, provavelmente terá força política para aprovar no Congresso aquilo que propõe durante a campanha.

O principal problema do governador de São Paulo é conseguir chegar lá. Para tanto, terá na campanha 20 vezes mais dinheiro de seu partido que concorrentes ao segundo turno como Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Dinheiro não garante vitória eleitoral, mas ajuda e muito.

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Além disso, o PSDB foi o partido que mais cresceu 15% nas eleições 2016, conquistando 792 prefeituras. Como demonstra Goés e Meira (2016), há uma relação estreita entre quantidade de prefeituras e o desempenho na corrida presidencial brasileira.

Alckmin terá ainda cabos eleitorais relevantes nos três maiores colégios eleitorais brasileiros. Dória, em São Paulo, Anastasia, em Minas Gerais, e, provavelmente, Eduardo Paes, no Rio de Janeiro. Há concorrentes que não terão esse palco.

Por conseguinte, a dificuldade de Geraldo em costurar um acordo com o MBD enfraquece, mas não faz sua candidatura ser desprezível como muita gente vem considerando.

Alckmin não nos parece ser o melhor candidato, e, após tantas falhas e vacilos do PSDB, é difícil um liberal ter algum ânimo com qualquer tucano. Ele não fará nenhum eleitor ir às urnas feliz e empolgado com sua candidatura, mas definitivamente não pode ser considerado como alguém fora do páreo.

Diante de um cenário com tantos candidatos, em que nomes anti-PT devem se canibalizar, Geraldo deveria renunciar logo ao governo de São Paulo e começar a rodar o país imediatamente para tentar transformar seus trunfos em votos. Ou isso, ou ele poderá representar a campanha tucana menos competitiva desde 1989.

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