Os 6 grandes erros de João Dória, a última esperança dos tucanos

Após um início de mandato meteórico à frente da prefeitura de São Paulo, digno de permitir sonhar com a corrida presidencial, a popularidade de João Dória caiu em virtude de ter cometido erros tolos. Boicotado pelo mainstream tucano, acabou disputando o governo do Estado de São Paulo e, a despeito de muita dificuldade, conseguiu ser bem sucedido.

O futuro do PSDB passa por ele, que deve se tornar o principal nome do ninho tucano a partir daqui. Assim, vale lembrar e compreender os erros cometidos por Dória que o impediram de ser o nome do partido na disputa ao Palácio do Planalto em 2018.

Em linhas gerais, a própria ânsia de chegar a presidência pode ter soterrado suas chances de sentar na cadeira presidencial em 2019. Quem lembra da euforia em volta de seu nome nos primeiros meses de 2017 certamente entenderá que Dória reunia potencial para tanto.

Há dois anos o site Spotniks publicou texto em que elencava razões para acreditar no potencial que uma candidatura de Flávio Augusto teria para a presidência da República. Muita gente não entendeu, mas não se tratava de uma defesa pessoal do dono do Orlando City, mas sim de uma discussão de perspectiva política analisando como o empresário reunia características que seriam muito apreciadas pelos eleitores brasileiros em um período muito específico de nossa história republicana. Flávio é um popular e admirado homem de negócios, excelente comunicador e que pratica com maestria relações públicas, um outsider da política com um grande passado como gestor, inimputável em relação a corrupção e com baixo índice de rejeição. Defende publicamente, sempre que pode, a necessidade de reformas para diminuir o tamanho do Estado brasileiro, cortar burocracias, responsabilidade fiscal e implementação de políticas públicas que tenham eficiência comprovada. Em um ambiente em que instituições políticas estão em descrédito e com eleitores cansados de discursos políticos profissionais – como ficou ainda mais claro durante as eleições de 2018 – essas características permitiriam grande apoio eleitoral, mesmo sem um histórico relevante na política.

O futuro Ministro da Fazenda, Paulo Guedes, tentou convencer Luciano Huck a disputar as eleições por entender que ele possuía essas mesmas características. Como o empresário e apresentador recuou em suas intenções, o economista procurou Jair Bolsonaro por perceber que ele também reunia parte dessas características.

E João Dória reunia todas essas características elencadas no texto de Rodrigo da Silva. Não à toa, contrariando todas as pesquisas pré-campanha em 2016, pouco depois foi eleito em primeiro turno na maior cidade do país. Seus discursos e choque de gestão o tornaram, nos primeiros 100 dias de mandato, um sério candidato à presidência da República.

Uma série de fatores externos e, sobretudo, internos, foram determinantes para que o caminho de Dória para a disputa do Palácio do Planalto fosse inviabilizado. Em tempos de turbulência política, o que aconteceu em maio de 2017 nem sempre é mais lembrado, mas naquele período o então prefeito da maior cidade do país vinha em uma forte escalada para ser candidato. Naquele mês ele recebeu o Prêmio Person of The Year em Nova Iorque, em evento em que estava seu padrinho político e então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que foi completamente ofuscado na cerimônia. A relação entre eles estava azeda pela ambição de Dória contrariar os interesses presidenciais de Alckmin, e foi exatamente nesse contexto que as conversas entre Michel Temer e Joesley Batista foram vazadas. Com nova crise política, todas as atenções foram desviadas para Brasília e Dória se recolheu. A partir daí, ele começou a cometer uma sucessão de erros que refletiram em queda de sua popularidade. Sem essa pressão popular, restou mais fácil para Alckmin centralizar o partido em seu nome – que, ao contrário do que indicavam as pesquisas qualitativas sobre Dória, era o oposto do que o eleitorado demandava para o Palácio do Planalto em 2018. Em última análise, o próprio Dória sepultou suas chances de disputar a presidência.

Listei 6 dos principais equívocos para você entender como a mais proeminente liderança tucana dos últimos anos acabou perdendo seu brilho – e vai precisar se reinventar nos próximos 4 anos à frente do Palácio dos Bandeirantes caso queira almejar novamente o Palácio do Planalto.

1) Dória defendeu Michel Temer em meio à maior crise da República

Leia também:  A tragédia de Brumadinho e o capitalismo de estado

Após a divulgação dos áudios de Joesley Batista, a popularidade de Michel Temer, que nunca foi grandes coisas, decaiu ainda mais, alcançando naquele mês 94% de rejeição dos brasileiros.  

Enquanto correligionários de partido, toda a imprensa e a imensa maioria dos brasileiros defendiam a saída de Michel Temer da presidência, o outsider da política mostrou que aprendeu rápido e não apenas defendeu a permanência de Michel Temer no mandato, “em nome da governabilidade”, como não se posicionou de forma favorável ao desembarque de seu partido do governo. Era uma oportunidade que o PSDB teria de se reestruturar pensando em 2018 e manter alguma coerência com a propaganda que veiculou meses depois, assumindo seus erros ao fazerem o jogo da “velha política”.

A veemente defesa de Michel Temer por parte do prefeito provavelmente tenha origem em seu desejo de disputar a presidência da República. Como o PSDB passou a considerar a possibilidade de prévias à época para escolher o seu representante na disputa, em uma manobra de Geraldo Alckmin para isolar o prefeito de São Paulo, Dória mudou de postura: como forma de pressionar o partido, ele começou a sinalizar que, caso o PSDB não o quisesse no pleito, ele poderia fazê-lo por meio de outra agremiação, deixando vazar convite para ir para o DEM. Pouco depois Michel Temer pessoalmente convidou João a entrar no PMDB.

O PSDB nunca realizou prévias à disputa presidencial. Caso o fizesse, seria inviável politicamente para Dória disputar com seu padrinho político. A manobra de Alckmin foi bem sucedida para a formação de consenso do partido em relação ao seu nome.

Enquanto isso, o então prefeito equivocou-se ao se aliar ao presidente mais impopular do mundo, que, convenhamos, não é uma forma muito boa de se capitalizar politicamente.

2) Dória defendeu a permanência de Aécio Neves na presidência do PSDB

Na mesma toada da divulgação dos áudios do presidente Michel Temer, Aécio Neves se transformou em um político fantasma a partir da divulgação de trechos da delação dos donos do grupo da JBS. Nos diálogos, ele pedia a Joesley o repasse de R$ 2 milhões. Aécio passou a viver um inferno astral, com a perda temporária de seu mandato parlamentar e com a prisão preventiva de sua irmã e seu primo decretadas pelo Ministro do STF Edson Fachin. Nesse contexto, pressionado por uma ala do PSDB que pedia por sua renúncia por acreditar que ele não possuiria mais condições de permanecer no posto, ele perdeu a presidência do partido.

Por meio de diversas manobras, o senador recuperou tanto seu mandato como a presidência do partido tucano meses depois. No meio disso tudo, João Dória se posicionou de forma contrária aos movimentos dessa ala do PSDB. Defendeu que ele deveria permanecer no cargo de chefe do partido até dezembro, quando haveria a convenção nacional do partido e seria eleita a nova Executiva nacional.

Até então o nome de Aécio ainda aparecia nas pesquisas de opinião mirando 2018. Seu capital político já havia se deteriorado em virtude sua passividade em meio ao impeachment de Dilma Rousseff, mas a partir daí foi quase que completamente corroído – tendo dificuldades para se eleger como deputado federal no ano seguinte. Posteriormente, nesta Convenção foi escolhido o nome de Geraldo Alckmin para presidir o partido.

Enquanto isso, na percepção do eleitorado, Dória havia escolhido se aliar ao que havia de pior no PSDB.

3) Enquanto São Paulo apresentava problemas básicos, Dória viajava pelo país

Leia também:  Dificuldades do liberalismo brasileiro

Dória elegeu-se com o discurso de ser um gestor, não um político. Repetiu o jargão por inúmeras vezes, de forma enfadonha. No entanto, não há nada mais político que eleger-se para um cargo e utilizá-lo como trampolim para alçar a voos maiores antes do mandato terminar. O colega de partido José Serra talvez seja o maior exemplo disso.

A maioria dos moradores do município rejeitavam a possibilidade de Dória deixar o cargo para se lançar como governador ou presidente. A despeito dos problemas da cidade de São Paulo, Doria parecia mais preocupado em fazer agendas em outro estados, o que por um lado ajuda a projetar seu nome no cenário nacional, mas por outro gerou danos à sua imagem, mormente entre quem depositou seu nome na urna em 2016.

O empresário recebeu título de cidadão das capitais Goiânia, Salvador, Natal, Belém, entre outras cidades menores. Dória viajou para receber até mesmo honraria por “relevantes serviços prestados à causa dos animais” e para receber título de cidadão de lugares onde nunca havia estado anteriormente, como em Vila Velha, no Espírito Santo.

Em alguns lugares, ele foi recebido sob faixas “Queremos Doria Presidente”. Assim, passou a ser mais rejeitado nas pesquisas gradativamente. Sob qualquer asecto que se olha, a imagem que ficou é a de que Dória não projetava seu futuro próximo como prefeito de São Paulo. Não à toa, posteriormente perdeu na capital paulista na disputa com Márcio França ao governo de São Paulo.

4) A polêmica distribuição de farinata a famílias pobres

No início de outubro de 2017, Dória anunciou um programa da prefeitura de São Paulo que causou bastante controvérsia. A proposta era incluir a farinata nas merendas escolares e como forma de complementar a alimentação destinada aos abrigos da assistência social. Trata-se de um composto feito a partir de alimentos como frutas e legumes que estão próximos da data de vencimento.

Em meio a toda a polêmica, o órgão municipal de segurança alimentar, a Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan), que tem o objetivo de discutir políticas relativas à alimentação em São Paulo, sequer foi consultado.

Ao criticarem a medida, alguns especialistas classificaram o produto como uma “ração”. O Conselho Regional de Nutricionistas reprovou a providência e até mesmo o Ministério Público abriu procedimento para supervisionar de perto a iniciativa. Em meio a tudo isso, as redes sociais, onde João Dória reinava no início do ano, tornaram-se uma verdadeira inquisição do prefeito com o veredito de “Ração de Dória”.

De nada adiantou recorrer à imagem de Nossa Senhora Aparecida no adesivo de pote de farinata ou provar o alimento junto com o cardeal Dom Odilo Scherer. Diante da repercussão negativa, Dória desistiu da implementação da medida, mas não sem antes ter desgastado ainda mais a sua imagem.

5) As bobagens ditas por Dória ao querer tributar serviços de streaming

Durante a campanha em 2016, Doria prometeu que não permitiria aumentar impostos ao cidadão paulistano. A promessa durou um ano, até o momento em que a prefeitura enviou projeto de lei à Câmara dos vereadores para instituir uma alíquota de 2,9% nos serviços de streaming, utilizados por empresas como Netflix e Spotify. A justificativa era de que é necessário para se adequar a uma lei complementar assinada por Michel Temer em 2016.

O envio do projeto de lei causou repercussão bastante negativa nas redes sociais, mas a postura do prefeito ao reagir a elas aumentou suas dimensões. Ao gravar um vídeo para comentar o assunto, João disse:

“Não adianta dizer que vai cobrar do consumidor. A Netflix é uma empresa rica.

(…) Não vem com essa história de que, ao pagar o imposto que nunca pagou, vai repassar para o consumidor. Negativo. Os lucros da Netflix, e de outras empresas de streaming, é (sic) suficientemente alto para pagar os impostos municipais, seja na cidade de São Paulo ou qualquer outra do país.

(…) Aqui em São Paulo, não tem conversa: vai pagar o imposto sim. E não deve aumentar o preço do serviço prestado à população. Tira da sua margem. O dono da Netflix é bilionário.

(…) Não venha querer ganhar em cima do consumidor que já paga pelo serviço – e paga bem.”

O discurso de Doria lembrou os políticos que gritam bordões contra as empresas imperialistas. Mais que isso, a ênfase que deu ao afirmar que a nova tributação não aumentaria o custo do serviço ao consumidor, contrariou seu próprio Secretário da Fazenda, Caio Megale, que horas antes, naquele mesmo dia, explicou que era provável o aumento das mensalidades dos serviços. Um gestor que não está alinhado com a própria equipe?

Como a demanda por Netflix é inelástica, isto é, basicamente é a única empresa que fornece esse serviço, os consumidores tendem a continuar adquirindo o produto mesmo com o novo imposto. Doria, que estava se destacando por ser excelente em relações públicas, acabou cometendo uma enorme gafe e passou a ser criticado por muitos que o defendiam inicialmente.

6) O fracasso da guerra contra a indústria da multa

Leia também:  Por que a maioria das feministas atuais se dizem anticapitalistas?

Um dos principais temas durante a campanha municipal que elegeu Doria foi a indústria da multa. Isso porque a cada quatro motoristas, um havia sido multado nos últimos 12 meses, segundo o Datafolha. Com isso, a percepção dos eleitores passou a ser de que o propósito da medida era coletar o dinheiro de multas muito mais do que prevenir violações a regras de trânsito que causassem acidentes e que dificultam o fluxo. Essa percepção é endossada porque a arrecadação de multas beneficia diretamente a Prefeitura, que inclusive conta com ela para elaborar seu orçamento.

O tucano foi eleito defendendo acabar com a “indústria da multa”. À época, deu declarações de que tiraria os guardas municipais da função de multar. De fato, em sua gestão menos multas foram aplicadas, mas a arrecadação delas para a prefeitura aumentou. Ao final de 2017, a arrecadação de multas se manteve estável em relação ao último ano da gestão de Fernando Haddad, ocasião em que foram captados R$ 1,5 bilhão em multas.

A notícia de que, um ano depois da eleição, a Prefeitura de São Paulo estava planejando captar investimento vendendo como ativo o fluxo de multas de trânsito da cidade, uma operação inédita no mercado de capitais brasileiros, irritou muitos paulistanos também.

Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Luan Sperandio

Luan Sperandio

Estudou Direito na Universidade Federal do Espírito Santo e especializou-se em Desenvolvimento Humano na Fucape Business School. É pesquisador do Ideias Radicais, consultor político e editor do Instituto Mercado Popular. Escreve para o Instituto Liberal desde 2014. Twitter: @luansperandio E-mail: luan@ideiasradicais.com.br