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O sistema eleitoral americano e a cultura da confiança

O sistema eleitoral americano dá muita margem à bagunça. Aceitam votos pelo correio; na Pensilvânia, não precisa conferir assinatura; é possível parar a apuração no meio e, em inúmeros estados, não precisa apresentar sequer documento de identificação.

É um sistema fundado na confiança. Havia uma “honra entre ladrões” entre os dois partidos que permitia a ambos discordar sobre muitos assuntos, mas o respeito às regras eleitorais era sagrado.

Isso funcionou muito bem durante a Guerra Fria. Havia um inimigo externo comum e isso impediu que a esquerda americana (os democratas) jamais se tornasse tão radical. Era comum escutar que não havia verdadeira esquerda nos EUA, se comparássemos com a realidade política do Brasil ou com outros países da América Latina.

Isso mudou. O novo partido democrata fala abertamente em socialismo, termo que sempre foi considerado palavrão no léxico político americano. Existe apoio cada vez maior à ação direta e violência e à chamada “política do cancelamento” em relação aos discursos dos adversários conservadores, o que viola até então outro terreno sagrado: a tolerância.

Trump alegou fraude e exigiu recontagem em alguns estados. Não sei se houve mesmo, mas é fato que até os veículos de comunicação impediram o acesso de fiscais republicanos às urnas. Como revelado pelo próprio Greenwald (que é um insuspeito democrata), a grande imprensa americana é democrata e houve um complô para não divulgar notícias que fossem prejudiciais ao candidato democrata.

Neste clima, não dá mesmo para subsistir a cultura da confiança. Os americanos, neste quesito, podiam aprender conosco, que estamos no extremo oposto. Nunca passaria pela cabeça de nenhum brasileiro confiar aos Correios a tarefa de levar votos.

A imprensa brasileira (que também torce descaradamente para o Biden) já começou a noticiar o pedido de recontagem e os protestos dos republicanos com desdém e ironia. Não é hora para isso.

Esperemos que as instituições eleitorais americanas consigam dar conta dessa nova cultura da desconfiança. Os EUA já mostraram antes boa capacidade de adaptação. Devemos torcer para que a democracia mais antiga e sólida do planeta continue assim.

Paulo Emílio Borges de Macedo

Paulo Emílio Borges de Macedo

É Professor na UFRJ. Estudou Direito internacional no Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina.