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O que a Rússia realmente pensa sobre a Ucrânia

O extermínio da população de Bucha, na Ucrânia, pelo exército russo pode parecer apenas falta de liderança. Ora, onde estavam os oficiais para segurar os instintos dos seus homens? Guerras são situações caóticas e, por isso, é preciso haver oficiais competentes para controlar os homens, correto? Sim; mas e se eu te dissesse que o aconteceu lá é uma política de Estado da Rússia?
É o que diz a agência de propaganda estatal russa RIA (uma espécie de TV Brasil do Putin), que publicou um artigo intitulado “O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia”. O artigo revela um plano detalhado para um genocídio, a partir da eliminação total do Estado ucraniano, de que alguns detalhes foram traduzidos para o inglês por Sergej Sumlenny e foram aproveitados neste texto.

O texto chama quase todos os ucranianos de nazistas que merecem morrer. “Nazis que pegaram em armas, devem ser mortos em número o máximo possível… Não apenas as elites, a maioria das pessoas é culpada, eles são nazistas passivos, facilitadores do nazismo. Eles apoiaram essas elites e devem ser punidos”, escreveu a agência estatal russa.

Assim como toda tirania, o regime de Putin pretende acabar com a liberdade de expressão usando o combate ao nacional-socialismo como desculpa: “uma maior desnazificação da massa da população deve ser alcançada através da repressão ideológica (opressão) das ideias nazistas e através de uma censura severa: não apenas na política, mas nas áreas de cultura e educação”.

Também há as loucuras colonialistas da Rússia. Não é novidade para ninguém que a Rússia foi um regime imperialista (como era a regra até o século XX) que subjugou povos de diferentes grupos étnicos. Dentro do Império Russo (e soviético), havia de finlandeses a turcos, de mongóis a ucranianos, de nativos americanos a poloneses. Porém, o que surpreende é uma visão Metrópole/Colônia no século XXI. Escreveu a estatal: “A Ucrânia deve pagar por sua culpa em relação à Rússia. Deve ser tratada como um inimigo e, portanto, pode se desenvolver apenas na dependência da Rússia. Nenhum plano Marshall pode acontecer. Nenhuma neutralidade tanto ideológica quanto prática”. Qual seria essa “culpa em relação à Rússia”? Não faço ideia.

“As repúblicas envolvidas no processo de desnazificação (sim, plural! Se eu morasse nos Estados bálticos estaria preocupado) não podem agir de outra maneira, mas apenas com o apoio direto da polícia militar e da administração da Rússia. A desnazificação deve ser uma desucrainização”. Eu não sou advogado mas acho difícil essa última frase não cair na categoria de genocídio.

Aliás, se tem uma coisa que o texto deixa muito claro é que, para a Rússia, a Ucrânia não tem o direito de existir como país e muito menos se aliar à Europa ou ao Ocidente. São muitas passagens e destaco mais uma: “A história provou: a Ucrânia não pode existir como um Estado nacional. Qualquer tentativa de criá-la leva ao nazismo. O ucrainismo é uma construção anti-russa artificial.(…). A desnazificação da Ucrânia deve ser a deseuropeização dela”. Eu nem consigo imaginar a quantidade de droga que uma pessoa deveria ter usado para escrever essa última frase, mas quero lembrá-los de que meu objetivo aqui é apenas dar luz às reais intenções de Putin.

Termino este texto com a frase mais assustadora de todo o artigo: “As elites ucranianas devem ser liquidadas, não podem ser reeducadas. O pântano social que os apoiou deve experimentar o terror da guerra e aprender a lição, e pagar por sua culpa”. O leitor já deve ter feito uma correlação com o Massacre de Katyn, quando os soviéticos eliminaram toda a intelligentsia polonesa. Está muito claro para mim que Putin quer ser o novo Stalin e não tem o menor pudor de deixar isso bem clara através de sua agência estatal. Minha dúvida é se ele consegue.

A Chechenia foi a Renânia, a Georgia foi a Áustria e a Crimeia foi a Tchecoslováquia. Só espero que a Ucrânia não se torne uma Polônia.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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