O Perigo do Fascismo Americano

Ao voltar da minha excursão pelo Oeste em Fevereiro, eu recebi uma solicitação do New York Times para escrever um texto respondendo às seguintes questões: 1. O que é um fascista? 2. Quantos fascistas nós temos? 3. Quão perigosos eles são? Um fascista é alguém em que a luxúria por grana ou poder se combina […]

  1. Ao voltar da minha excursão pelo Oeste em Fevereiro, eu recebi uma solicitação do New York Times para escrever um texto respondendo às seguintes questões:

1. O que é um fascista?

2. Quantos fascistas nós temos?

3. Quão perigosos eles são?

  1. Um fascista é alguém em que a luxúria por grana ou poder se combina com muita intensidade à intolerância em direção a outras raças, partidos, classes, religiões, culturas, regiões ou nações e faz um uso implacável da falsidade ou da violência para atingir seus fins. O deus supremo de um fascista, cujos fins se dirigem, pode ser a grana ou o poder; pode ser uma raça ou uma classe; pode ser uma facção militar ou grupo econômico; ou pode ser uma cultura, uma religião ou um partido político.
  2. O tipo perfeito de fascista nos mais recentes séculos foi o Junker prussiano, que desenvolveu tal ódio por outras raças e tal lealdade a uma facção militar que o fez querer, em todos os momentos, se empenhar em qualquer grau de falsidade e violência para pôr a sua raça e cultura abrangendo o mundo. Em cada grande nação do mundo há pelo menos algumas pessoas com temperamento fascista. Cada agressor de judeu, cada anticatólico, é um fascista de coração. Os bandidos que profanaram igrejas, catedrais e sinagogas em algumas de nossas grandes cidades são um material maduro para a liderança fascista.
  3. Os tipos óbvios de americanos fascistas são retratados na televisão e na imprensa. Esses demagogos e fanfarrões estão à frente dos outros. Tão perigosos quanto possam ser, essas pessoas não são tão significantes quanto milhares de outras que nunca foram mencionadas. O perigo real dos fascistas americanos não está naqueles que estão ligados direta ou indiretamente ao Eixo. O FBI pôs as mãos nesses. O fascista americano perigoso é o homem que quer fazer dos Estados Unidos ao modo americano o que Hitler fez na Alemanha ao modo prussiano. O fascista americano preferiria não usar da violência. Seu método é envenenar os canais da informação pública. Com um fascista, o problema nunca é a melhor forma de apresentar a verdade ao público, mas a melhor forma de usar as notícias para enganar o público e dar ao fascista e a seu grupo mais grana e poder.
  4. Se definirmos um fascista americano como alguém que, no caso de um conflito, põe a grana e o poder à frente dos seres humanos, então sem dúvida temos inúmeros fascistas nos Estados Unidos. Há provavelmente centenas de milhares, se estreitarmos a definição para incluir apenas aqueles que, em sua busca por grana e poder, são implacáveis e desleais. A maioria dos fascistas americanos está apoiando entusiasticamente os esforços da guerra. Eles estão fazendo isso mesmo naqueles casos em que eles esperam ter conexões lucrativas com empresas químicas alemãs após o fim da guerra. Eles são patriotas em tempos de guerra porque é do seu interesse ser assim, mas em tempos de paz eles seguem o poder e os dólares onde quer que isso o leve.
  5. O fascista americano não será de fato perigoso até que haja uma coalizão proposital entre os cartéis, os que envenenam deliberadamente a informação pública e os que defendem o tipo de demagogia da K.K.K.[1]
  6. O tipo europeu de fascismo vai provavelmente apresentar a nós sua mais séria ameaça no pós-guerra via América Latina. O efeito da guerra tem sido elevar o custo de se viver na maioria dos países latinos com muito mais velocidade do que os salários. Os fascistas na maioria dos países latinos dizem ao povo que o motivo pelo qual seu salário não compra muitas mercadorias é por causa do imperialismo ianque. Os fascistas latinos aprenderam a falar e agir como os nativos. As preocupações da nossa indústria química e de outros produtos são com frequência preparativos para deixar os alemães com os mercados latinos, uma vez que as companhias americanas podem fazer um arranjo que lhes permitirá cobrar altos preços ao consumidor dentro dos Estados Unidos. Na sequência dessa guerra, a tecnologia alcançará tal nível que será possível aos alemães, usando a América do Sul como base, causar-nos muito mais dificuldade numa Terceira Guerra Mundial do que eles fizeram na Segunda Guerra. As facções militares em muitos países da América do Sul acharão isso atrativo financeiramente para lidar com as preocupações da Alemanha fascista, bem como um expediente para o ponto de vista do poder político temporário.
  7. Fascismo é uma doença global. Sua maior ameaça aos Estados Unidos virá após a guerra, ou via América Latina ou pelo próprio Estados Unidos.
  8. Um outro perigo está representado por aquele que da boca pra fora defende a democracia e o bem-comum, mas em sua insaciável ganância por grana, e o poder que a grana confere, não hesita em sub-repticiamente burlar as leis designadas a salvaguardar o público de extorsões monopolistas. Fascistas americanos desse naipe se alinharam clandestinamente com sua contrapartida alemã antes da guerra e ainda estão preparando para retomar de onde eles deixaram, após os “desagradáveis cessares atuais”:
  9. Os sintomas do pensamento fascista estão coloridos pelo meio-ambiente e adaptados a circunstâncias imediatas. Mas sempre e em todo lugar eles podem ser identificados por seu apelo ao preconceito e por seu desejo para jogar com os medos e as vaidades de diferentes grupos, a fim de ganhar poder. Não é coincidência que o crescimento do preconceito tem sido em todo caso o que anuncia o crescimento de tiranos modernos. Pode ser chocante a algumas pessoas neste país perceberem isso; sem a intenção de fazê-lo, eles apoiam visões comuns a Hitler quando pregam a discriminação contra outro grupo religioso, racial ou econômico. Da mesma forma, muitas pessoas, cujo patriotismo é seu maior orgulho, jogam o jogo de Hitler ao vender a desconfiança de nossos Aliados e ao dar trela para falsas suspeitas sem fundamento na realidade.
  10. Os fascistas americanos são mais facilmente reconhecidos por sua perversão deliberada da verdade e dos fatos. Seus jornais e sua propaganda cultivam cuidadosamente cada fissura da desunião, cada racha na frente contra o fascismo. Eles aproveitam cada oportunidade para impugnar a democracia. Eles servem-se do isolacionismo como slogan para se conciliar com seu imperialismo egoísta. Eles cultivam o ódio e a desconfiança de ambos, ingleses e russos. Eles reivindicam serem superpatriotas, mas eles destruiriam cada liberdade garantida na Constituição. Eles demandam livre iniciativa, mas são porta-vozes do monopólio. Seu objetivo final, em direção ao qual todas as suas falcatruas se remetem, é capturar o poder político, usando simultaneamente o poder do Estado e do Mercado, de modo que eles possam manter o cidadão-comum em subjeção eterna.
  11. Vários líderes industriais neste país, os quais ganharam uma novão visão do significado de oportunidade através da cooperação com o governo, alertaram abertamente ao público que havia alguns grupos egoístas na indústria que estavam ganhando para colocar em risco a estrutura da liberdade americana para ganharem alguma vantagem temporária. Todos sabemos da parte que os cartéis desempenharam ao trazer Hitler ao poder e a regra de que os gigantes trustes alemães desempenharam nas conquistas nazistas. Monopolistas que temem a competição e que desconfiam da democracia porque ela apoia oportunidades iguais gostariam de assegurar as suas posições contra empresas pequenas e enérgicas. Num esforço para eliminar a possibilidade de qualquer rival acender, alguns monopolistas sacrificariam a própria democracia.
  12. Foi alegado às vezes que nossa idade moderna da tecnologia facilita ditaduras. O que temos que entender é que indústrias, processos e invenções, criados pela ciência moderna, podem ser usados tanto para subjugar como para libertar. A escolha está em nós. O mito da eficiência fascista desiludiu muitas pessoas. Essa foi a famigerada reivindicação de Mussolini, ele “fez os trens andarem na hora”. No final, entretanto, ele trouxe ao povo italiano empobrecimento e derrota. Essa também foi a alegação de Hitler de ter eliminado o desemprego na Alemanha; não há desemprego num campo de prisioneiros.
  13. Para a democracia esmagar o fascismo internamente deve demonstrar sua capacidade para “fazer os trem andarem na hora”; deve desenvolver a habilidade para manter o povo totalmente empregado e, ao mesmo tempo, equilibrar o orçamento; deve colocar os seres humanos à frente dos dólares; deve apelar à razão e à decência e não à violência e à fraude. Não devemos tolerar um governo opressivo ou uma oligarquia industrial na forma de monopólios e cartéis. Contanto que as descobertas científicas e o engenho criativo superem nossa habilidade para conceber mecanismos sociais para elevar o padrão de vida do povo, nós devemos esperar que o potencial liberal dos Estados Unidos cresça. Se esse potencial liberal for canalizado apropriadamente, devemos esperar que o conjunto da liberdade dos Estados Unidos cresça. O problema está em gastar a nossa quota de invenção social a serviço do bem-estar de nosso povo.
  14. No mundo todo, o combate duradouro entre fascismo e democracia não irá parar assim que a luta se encerrar na Alemanha e no Japão. A democracia pode vencer a paz somente se ela fizer duas coisas:

1. Acelerar a taxa de invenções políticas e econômicas tanto que ambas, produção e distribuição, especialmente, puderem combinar, com seu poder e efeito prático na vida diária do cidadão-comum, o imenso e crescente volume das descobertas científicas, invenções mecânicas e técnicas administrativas.

2. Vivificar com a maior intensidade os processos espirituais, os quais são a fundação e a própria essência da democracia.

  1. Os aspectos morais e espirituais de ambas as relações, a pessoal e a internacional, têm um comportamento prático que os chamados homens práticos negam. Essa visão rasa considera que a importância do bem-estar geral do indivíduo é a medida da falha das nossas escolas e igrejas em ensinar o significado espiritual da genuína democracia. Até que a democracia em efetiva ação entusiasta preencha o vácuo criado pelo poder das invenções modernas, nós devemos esperar que os fascistas aumentem o poder no pós-guerra, nos Estados Unidos e também no mundo.
  2. O fascismo no pós-guerra irá inevitavelmente empurrar com firmeza para o imperialismo anglo-saxão e, eventualmente, para a guerra com a Rússia. Os fascistas americanos já estão falando e escrevendo sobre esse conflito e usando isso como desculpa por seus ódios internos e intolerâncias contra certas raças, credos e classes.
  3. Deveria também ser evidente que exibições da estirpe nativa de fascismo não estão confinadas a qualquer seção, classe ou religião sozinha. Felizmente, pode ser dito ainda que o fascismo não garantiu um lugar predominante na perspectiva de qualquer seção, classe ou religião americana. Ele pode ser encontrado em Wall Street, Main Street ou Tobacco Road. Alguns ainda suspeitam poderem detectar incipientes traços dele ao longo de Rio Potomac. Ele é uma doença infecciosa e devemos todos estar atentos contra a intolerância, fanatismo e distinções pretensiosas. Porém, se colocarmos nossa confiança no senso comum dos cidadãos-comuns e “sem qualquer malícia e com caridade a todos” avançarmos na grande aventura de fazer da democracia política, econômica e social uma realidade prática, nós não iremos falhar.

[1] Sigla referente ao grupo nacionalista e segregacionista Ku Klux Klan (N.T.)

 

Nota: Um artigo do New York Times de 9 de abril de 1944. Por Henry A. Wallace, Democracy Reborn (Nova Iorque, 1944), editado por Russell Lord. Tradução do original “The danger of american fascism” por André Nor Filho, graduado em Filosofia pela UFMT.

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