O desabafo de um funcionário público liberal

Depois dos meus eufóricos momentos de puberdade esquerdista, ali pela altura do mensalão (durou muito, admito), caí num limbo ideológico alimentado por picos de ressentimento e de raiva contra as “verdades” que eu recitava em êxtase. Tenho vivido uma gradual mudança à “direita”, desde então, e estou fascinado pelo pensamento liberal moderno. Leio tudo, pondero […]

Depois dos meus eufóricos momentos de puberdade esquerdista, ali pela altura do mensalão (durou muito, admito), caí num limbo ideológico alimentado por picos de ressentimento e de raiva contra as “verdades” que eu recitava em êxtase.

Tenho vivido uma gradual mudança à “direita”, desde então, e estou fascinado pelo pensamento liberal moderno. Leio tudo, pondero tudo, concordo — agora mais sabiamente — com muitos dos argumentos desse caminho que escolhi, mas vivo um dilema pessoal por causa disso.

Acontece que sou servidor público há mais de 30 anos, duas vezes concursado, duas vezes bem sucedido. Morando em Brasília, arrimo de uma família humilde, mas culta, não havia muitas opções para mim, além das ofertas de emprego feitas pelo próprio Governo, tanto o Federal quanto o Distrital.  Para as minhas limitações pessoais, àquela época, meu feito foi um presente, um sucesso!

Leia também:  Separação dos poderes e eleições 2018

Tomei posse na Câmara dos Deputados no final dos anos oitenta, egresso de um certame de milhares de candidatos. Fui o primeiro colocado da turma. Eu tinha 21 anos e já trabalhava no TCU, como datilógrafo, desde os 20, saído de uma outra seleção, essa do antigo DASP, em que me classifiquei em segundo lugar.

Fui seduzido pelas regras de há muitos anos e me vi agraciado pela meritocracia. Desde então, sou um técnico sem relacionamentos políticos, muito bom no que faço, assíduo, cumpridor das leis e das regras que existiam e que passaram a existir, especialmente a última Constituição. Aliás, minha categoria funcional foi criada com os olhos no processo constituinte, que viria a mudar as regras de contratação de pessoal e de sua movimentação no serviço público, definitivamente.

Vejo, como vocês, que o Brasil é dominado por um Estado glutão e manipulador, em que as diferenças sociais são absurdas, especialmente nessa comparação entre os trabalhadores da iniciativa privada e os do Estado. Admito, sim, que minha situação particular é vantajosa em comparação com aquelas que eu poderia teria escolhido em 1986.

Leia também:  Assinar revistas é coisa do passado: apoie profissionais liberais da informação

Não vou  me defender, exceto para garantir que as distorções me colheram eu não as reneguei, mas eu mesmo não pude ditá-las ou remediar qualquer uma delas. Meus “privilégios”, resumidos a um bom salário, são a realidade que deveria ser reservada para todos os que têm condições, também por mérito, de desenvolver seu trabalho, em qualquer lugar deste país, em qualquer empresa, livre das mordaças estatais.

Como não ser hipócrita nessa altura da história? É impossível para mim voltar atrás, não quero, nem posso fazer isso. Estou acomodando o meu novo pensamento liberal na certeza de que qualquer Estado, mínimo que seja, precisa ter um mecanismo qualquer e que eu sou uma peça dele. Escolho ver-me como alguém que, pela livre iniciativa e por mérito conseguiu fazer parte deste suposto Estado Mínimo.

Leia também:  Por que política é bem mais que redes sociais (primeira parte)

Invoco a meritocracia pela boa fé de pessoas que, como eu, estão sendo massacradas indiscriminadamente. Eu a invoco para declarar-me inocente de ter “afundado o Brasil” com minha própria existência.

Obrigado pela oportunidade do desabafo.

Nota: O autor do desabafo preferiu preservar sua identidade. 

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal e Instituto Liberal no Patreon!