O defeito do conservadorismo (segunda parte)

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Todo o sofrimento que Dr. Lustosa foi impedido de dar ao pai de Damião, ele deu ao filho. Qualquer deslize era uma desculpa para o espancamento, para o trabalho desumano de encher o tanque de água da senzala, que necessitava completar diariamente, fizesse chuva ou sol, fossem dias santos e de festa ou dias ordinários. Como escravo, Damião se vê impotente, com um medo constante, era um sujeito afugentado, diminuído. O escravo era arriado de sua humanidade perante o chicote de seu senhor. Em sua última tortura – feita injustamente, diga-se, graças a uma invenção feita pela, literalmente, lunática filha de Lustosa, pois esta afirmara que Damião lhe tirara a virgindade e a engravidara –, ele foi submetido ao confinamento e, mais tarde, à nudez e ao chicote, para que todos os empregados e escravos da fazenda observassem sua tortura, seu corpo nu e a humilhação que sofria.

Sua saída do cativeiro foi graças a um golpe de sorte, pois o Dr. Lustosa teve um infarto no meio de suas furiosas chicotadas, mas também por causa do interesse do bispo na educação de Damião, que mostrou um grande potencial para ser um bom estudante e um bom padre. O caminho para sua entrada no clero, contudo, não começou em um seminário, mas se iniciou quando a mãe do Dr. Lustosa se apiedou de Damião (que ficara dias espremido dentro de um barraco apertado, feito para matar escravos problemáticos de fome ou sede, no calor do Maranhão), acreditando que o expressivo interesse do bispo e o infarto de seu filho, enquanto açoitava o escravo, eram mensagens divinas para perdoar o escravo.  

Porém, longe do interior e dentro da capital do Maranhão do século XIX, outro problema o assolou: o racismo. Mesmo que fosse um negro forro, Damião perdia posição, respeito e possibilidades dentro de uma sociedade (a de São Luís) eminentemente racista – esta que era, ao menos dentro do livro de Montello, a mais ou uma das mais racistas do Império, onde mesmo um membro da corte Imperial, amigo do monarca e influente em jornais e nos mais altos círculos culturais do Rio de Janeiro, Gonçalves Dias, não conseguiu se casar com a mulher que amava, por ser mestiço. Os pais de sua amada se enojaram com a mera ideia de sua descendência compartilhar a ascendência de negros, pelo fato de a bisavó, por parte do homem que queria ser o pai de seus netos, ter sido uma escrava.

Mesmo dentro do clero (onde os bispos tentavam integrar mais os negros na população, tendo o bispo anterior até mesmo nomeado um mestiço para ser padre), havia racismo. O principal ponto que, dentro do drama de Damião, demonstra o problema do conservadorismo burkeano é a tentativa de reformas e mudanças lentas, prudentes. Quando os padres e o bispo se reuniram para decidir o destino de Damião, mesmo após anos de preparo e estudo, mesmo após Damião ter se mostrado o melhor no que fazia, melhor do que os alunos brancos e abastados, os clérigos (a exceção de alguns) votaram contra a sua merecida promoção a padre.

Um padre negro seria um escândalo, em São Luís”: eis o argumento da maioria. O maior problema para o conservadorismo, porém, é demonstrado dentro do argumento que utilizaram para impedir Damião de chegar ao sacerdócio. Em uma sociedade racista como a de São Luís, mesmo com o alto clero ao lado do Homem negro, um desgaste sem-fim assombraria a Igreja. Os políticos, os juízes, os advogados, os grandes comerciantes, etc., todos os notáveis reagiriam contra o real progresso de libertação de Damião. Por mais que a doutrina da Igreja considerasse todos os Homens iguais perante Deus e repudiasse o impedimento racial para o sacerdócio, o caos gerado pelo repúdio da elite e de boa parte do povo maranhense seria extraordinário. As doações para a Igreja poderiam cessar, algo que abalaria os trabalhos de caridade que alforriavam escravos e ajudavam negros com cuidados médicos e afins; as missas se esvaziariam, privando o povo dos sacramentos e da apresentação da Palavra de Deus; possivelmente atos violentos ameaçariam parte do clero e o próprio Damião, enquanto padre. Tudo isso foi pesado e a resposta foi contundente: o negro até poderia ser padre, mas não em São Luís, não ao menos no presente.

Esse argumento conservador, prezando a prudência e respeitando as tradições, já defendeu a escravidão no Brasil, dentro de discursos de políticos como José de Alencar e Bernardo Pereira. Por mais que haja razão para se evitar o caos, este que gerará uma situação pior do que a anterior, não podemos negar o verdadeiro problema que podem ser certas tradições que maculam o Homem, isto é, a Natureza do nosso ser.

Estupro, humilhação pública ou privada, espancamentos que terminam com negros retalhados por seus algozes; prisões injustas, torturas das mais diversas, desrespeito, desprezo e a privação da liberdade consagraram a escravidão racial brasileira. Um homem é dono de outro, o indivíduo se torna propriedade de outrem: tal situação não pode ser tolerada, pois é uma mácula que atinge o próprio ser, nos Homens.

Todo o sofrimento que Damião passou, seja na escravidão ou por conta do racismo, se deve a sistemas e instituições tão enraizadas na sociedade que são ao mesmo tempo frutos e geradores de mentalidades genuinamente opressivas. Não há resposta burkeana que possa satisfatoriamente solucionar tais problemas. Resolver lentamente males como esses é basicamente permitir que o sofrimento continue por mais tempo, é deixar que o mal tenha uma sobrevida, ou uma vida inteira mais alongada.

Porém, há outro problema, que chega a ser mais terrível do que a falha da solução conservadora: os padres tinham razão! Gerar todo esse caos para ter um padre negro, malgrado todo bem que isso poderia causar para os negros livres ou escravos da cidade, iria desgastar a Igreja Maranhense a tal ponto que o estrago causado poderia limitar, ou simplesmente tornar impossíveis quaisquer progressos futuros gerados pelo clero em relação ao racismo.

A Igreja ficaria desmoralizada, sua influência política definharia. Suas estruturas ficariam precárias, pois ela não conseguiria mais arrecadar tanto para seu trabalho evangelizador e caridoso. Qualquer influência que o bispo ou outro sacerdote notável tivesse seria anulada. A voz da Igreja seria nula, rejeitada, ignorada e, com certeza, em muitos casos, calada. Como ajudariam negros e, até mesmo, brancos necessitados assim? Não ajudariam.

O que Josué Montello nos apresentou em Os Tambores de São Luís foi o drama máximo do Homem. Muitas vezes não temos saída para os horrores que a própria humanidade cria. Se seguirmos com a meta do real progresso (e não confundam isso com uma noção progressista de progresso social), não importando ou sequer considerando as possíveis consequências negativas pela luta dessa genuína melhoria, geramos um caos que pode desgraçar todo o empenho passado e presente para um progresso futuro; se nós conservamos um ambiente criminoso e letal, estamos apenas coadunando, às vezes comungando, com o mal, com o horror da escravidão e a sujeira do racismo.

Então, sendo assim, o que fazer? Qual é a resposta?

Não há resposta. Se for para aludir ao cristianismo, é como se os frutos do Pecado Original nos rondassem. Nossos pecados são como um vislumbre do Inferno, ao se espalharem pela sociedade: e não podemos sair desse estado decaído – mas acreditando ou não na religiosidade do texto bíblico, é certo que há algo errado no Homem, algo que não se adequa ao bem, ao certo, que sempre nos assombra e nos assombrou na História. Alguns podem negar a crença na Queda de Adão, mas nunca sua realidade. Caímos, caídos somos e caídos seremos. Utopias, bem como se sabe, não são soluções, pois não existem soluções.

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