O chamado do empreendedor

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Por que, ao longo da história da humanidade, o empreendedor costuma ser visto com desconfiança? Por que, tantas vezes, ele é tratado como o responsável pelos males do mundo e pela desigualdade social? A resposta vai além das ideias socialistas de luta de classes e alcança também o campo religioso. Em certos contextos, muitos sacerdotes, como os ligados à Teologia da Libertação, passaram a difundir a noção de que o capitalismo é intrinsecamente mau.

O chamado do empreendedor de Robert A. Sirico, publicado pela LVM Editora em 2019, é uma obra que aborda esse preconceito de que os homens de negócios seriam indivíduos egoístas e preocupados excessivamente com a acumulação de bens materiais. A partir de conceitos de teologia, ética, histórica e economia, o autor explica o papel da vocação empresarial como um fator indispensável para o serviço ao próximo e para o florescimento de uma sociedade livre.

O livro foi escrito pelo padre Robert A. Sirico, nascido no Brooklyn, em Nova York, em 23 de junho de 1951. Além de sacerdote e escritor, Sirico é cofundador e presidente do Instituto Acton, uma organização dedicada à promoção dos princípios da liberdade individual à luz da tradição cristã. O prefácio da obra foi escrito por William E. LaMothe, enquanto o posfácio é assinado por Antonio Cabrera. Trata-se, portanto, de um trabalho que reúne contribuições de três autores cristãos.

O objetivo central da obra é contrapor, à luz dos valores cristãos, a crença de que as desigualdades sociais seriam a origem de todos os males do mundo. O autor critica a visão contemporânea que tende a estigmatizar indivíduos bem-sucedidos e empreendedores, tratando o sucesso como um indício de injustiça moral.

Resumo do conteúdo
O livro é dividido em nove capítulos autoexplicativos:

Introdução: O preconceito contra os empresários e o risco do divórcio entre os mundos dos negócios e da fé

Capítulo 1: Administração de talentos: a linha divisória intelectual entre líderes religiosos e empresariais

Capítulo 2: A linha divisória prática entre os líderes religiosos e empresariais

Capítulo 3: O justo descontentamento moral

Capítulo 4: Empresários e economistas – disputa de família ou rivalidade entre irmãos?

Capítulo 5: Capitalistas anticapitalistas

Capítulo 6: Teologia do domínio e ideologia econômica

Capítulo 7: Empreendedorismo como vocação espiritual

Capítulo 8: Argumento bíblico a favor do empreendedorismo

O viés antiempresário na narrativa cinematográfica
Sirico parte da premissa de que existe um preconceito em relação aos empresários bem-sucedidos. Vemos esse preconceito em algumas obras de literatura, como as de Charles Dickens (1812-1870), que criticava ferozmente os “empresários maus” e a exploração da era industrial, denunciando a ganância de figuras como banqueiros e industriais que exploravam trabalhadores. O novelista americano Sinclair Lewis (1885-1951) também criticava ferozmente o capitalismo americano, personificando empresários e a classe média em livros como Babbitt e Main Street, retratando-os como materialistas. No filme The China Syndrome, de 1979, os empresários de uma indústria nuclear são retratados como moralmente irresponsáveis e gananciosos, dispostos a ocultar falhas gravíssimas de segurança para proteger lucros da empresa. Executivos manipulam informações, silenciam engenheiros e colocam toda a sociedade em risco para evitar prejuízos financeiros.

Em um outro exemplo de filme, Wall Street: Poder e Cobiça, de 1987, a crítica é mais direta e simbólica. O personagem Gordon Gekko encarna o arquétipo do capitalista predador: frio, manipulador e sem ética. A famosa frase “greed is good” transforma o empresário em sinônimo de corrupção moral, explorando informações privilegiadas e tratando pessoas como peças descartáveis. O sucesso financeiro, no filme, é retratado como fruto da ausência de escrúpulos.

A mentalidade antiempresário no Brasil
Estendendo esses conceitos às relações trabalhistas no Brasil, o in dubio pro misero é um princípio do Direito do Trabalho segundo o qual deve prevalecer a interpretação mais favorável ao trabalhador, por ser ele considerado a parte mais vulnerável da relação de emprego. Na prática, esse princípio tende a atribuir ao empregador uma posição presumidamente desfavorável diante da controvérsia.

A própria existência da CLT parte do pressuposto de que existe uma relação intrinsecamente injusta entre capital e trabalho. O empregador é visto como quem precisa ser contido, regulado e punido, enquanto o trabalhador é tratado como parte incapaz de negociar livremente. Nesse arcabouço, o lucro vira algo suspeito e o empresário vira “explorador”.

Em maio de 2023, Luiz Inácio Lula da Silva chamou o agronegócio de fascista, em mais um episódio que revela uma mentalidade antiempresário. Não se trata de uma crítica pontual a excessos ou más práticas específicas, mas de um ataque ideológico a um setor inteiro, justamente aquele que mais sustenta a economia brasileira. O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB, gera milhões de empregos diretos e indiretos e é o principal responsável pelo superávit externo do país.

O empresário virtuoso
Ao invés de tratar o empresário como alguém meramente materialista que coloca o lucro acima de todas as coisas, Sirico argumenta de que cada pessoa é criada à imagem de Deus com certas habilidades naturais que Deus deseja ver cultivadas. Se acontecer de esse dom ser uma inclinação para os negócios, a comunidade religiosa não deveria condenar a pessoa meramente por conta de sua profissão.

Além disso, os empresários são a fonte de mais bens morais e espirituais do que normalmente reconhecemos, pois, ao servir ao público, expandem o bolo econômico para todos e, por isso mesmo, podem ser contados dentre os maiores homens e mulheres de fé na Igreja. Assim, a vocação empresarial é um chamado sagrado, pois os empresários criam empregos, descobrem e aplicam formas decura, dão alimento para aqueles que precisam e ajudam os sonhos a se tornarem realidades.

Segundo Robert Sirico, o que distingue o empresário virtuoso do empresário materialista é que o primeiro não faz do lucro um fim em si mesmo, mas um meio ordenado para cumprir um propósito maior: servir à sociedade, gerar valor real, sustentar sua família e agir com responsabilidade moral. Já o empresário materialista subordina pessoas ao ganho financeiro e desordena os
fins da atividade econômica. Para Sirico, portanto, o problema não é o lucro, mas a idolatria do lucro quando ele perde seu lugar adequado.

Empresários anticapitalistas
No capítulo 5, em “Capitalistas Anticapitalistas”, o livro também apresenta exemplos concretos de empresários que utilizaram suas corporações para financiar causas politicamente intervencionistas sob o rótulo da responsabilidade social corporativa. Exemplos disso são a Patagonia, que doou 1% de suas vendas a grupos ambientalistas, e a Ben & Jerry’s, cujos fundadores apoiam a restrição da produção do hormônio de crescimento bovino. No Brasil, fenômeno semelhante ocorre quando herdeiros de grandes grupos financeiros figuram entre os maiores financiadores de campanhas políticas, como no caso de uma das herdeiras do Itaú na campanha de Lula.

No final do livro, no capítulo 8, é apresentado um argumento bíblico em defesa do empreendedorismo a partir da Parábola dos Talentos, cuja lição central está em como utilizamos nossas capacidades e recursos. Do mesmo modo que o senhor espera atividade produtiva de seus servos, Deus quer que usemos nossos talentos para fins construtivos. O servo preguiçoso poderia ter evitado seu destino trágico caso tivesse demonstrado maior iniciativa empreendedora. Não apenas o mau uso dos bens recebidos, ou seja, dos dons dados por Deus, torna o beneficiário
culpado aos olhos do Senhor, mas também a sua omissão.

Considerações finais
Trata-se de uma leitura relevante para empresários e empreendedores cristãos que buscam um sentido mais amplo e espiritual para seus empreendimentos. Embora seja um livro breve, com pouco mais de 60 páginas, oferece contribuições significativas ao contraponto da visão que retrata homens e mulheres de negócios como “capitalistas malvados” obcecados pelo lucro. O autor também revela sólido domínio econômico ao citar pensadores como Joseph A. Schumpeter, Ludwig von Mises e Israel Kirzner, importantes referências da Escola Austríaca de Economia.

*Thiago Costa Azevedo é empresário, formado em ciências contábeis com atuação nas áreas de mercado financeiro e microeconomia . É sócio-fundador da Guardian Capital, onde trabalha com consultoria patrimonial e estratégias de investimento com foco em preservação de capital, diversificação e mitigação de risco. Atua como comentarista e produtor de conteúdo sobre economia, política econômica e mercados globais, com ênfase nos efeitos do intervencionismo estatal, política monetária e incentivos institucionais sobre o crescimento econômico. Seus estudos dialogam com o liberalismo clássico e com a tradição da Escola Austríaca de Economia.

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