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O aborto e a discórdia entre os liberais

Uma das aventuras de Astérix et Obélix chama-se “Asterix e a Cizânia”. Na história, o Senado Romano está preocupado com as gastações sem limite de Júlio César (o que mostra que a República Romana está pelo menos 2.000 anos à frente da brasileira na questão orçamentária, mas não vem ao caso agora) e recusa o pedido do Cônsul por mais dinheiro para novas aventuras militares. Sem recursos, César tem a ideia de dividir os gauleses e fazê-los lutarem entre si e, para a missão, chama Tullius Detritus, que tem o objetivo de espalhar a discórdia entre eles.

O aborto é o Tullius Detritus dos liberais. Esta é a primeira vez em que toco nesse assunto justamente por causa disso. Desconheço um assunto que cause mais cizânia entre os liberais que o aborto. Porém, tendo em vista o que aconteceu no nosso país vizinho, resolvi mencioná-lo. Antes de mais nada quero deixar claro que não tenho opinião formada sobre o aborto (vou entrar em detalhes no final do texto), quero apenas analisar os fatos.

Só há um bom argumento em favor do aborto, que é a redução da criminalidade. No livro Freakonomics o economista Steven Levitt traçou um paralelo entre a redução da criminalidade nos EUA na década de 90 e a legalização do aborto na década de 70.

Não vamos entrar em detalhes dos motivos, pois não é o assunto do texto, mas nos anos 90 a criminalidade era um problema grave nos EUA – especialmente por causa do crack, que atingiu em cheio a comunidade negra. Alguns fatores levaram a criminalidade a ser reduzida – e o aborto está entre eles.

Depois da descriminalização do ato nos EUA, qual era a mulher mais propícia a buscar um aborto? Em geral, uma mulher pobre, solteira e com menos de 20 anos (normalmente, quando uma mulher não deseja um filho, há bons motivos para tal).

Um ano após o aborto, para cada 4 nascimentos com vida, havia um feto abortado nos EUA. Em 1980, o número subiu para 1 aborto para cada 2,25 nascimentos. Um estudo mostrou que a típica criança impedida de nascer nos primeiros anos da legalização do aborto estaria 50% mais propensa que a média a viver na pobreza e teria 60% de possibilidade de ser criada somente pela mãe.

Ambos os fatores estão entre os mais fortes determinantes para a formação de um criminoso. Nos EUA, crescer em um lar sem o pai, por exemplo, aumenta em 5 vezes as chances de cometer crimes, 9 vezes as chances de largar a escola e 20 vezes mais chances de acabar na cadeia.

Como disse o general Vice-presidente Antonio Hamilton Martins Mourão, casa só com mãe e avó é “fábrica de desajustados”. O rapper Tupac Shakur vai na mesma linha. O músico admitiu que a ausência de uma figura paterna o levou a se relacionar com gangues e disse: “Sua mãe não pode te disciplinar como um homem pode. Você precisa de um homem para aprender a ser um homem” (tradução livre).

Em poucas palavras, o motivo da correlação positiva entre a legalização do aborto e a redução da criminalidade é “simples”: os futuros bandidos que iriam nascer nos anos 80 não chegaram à vida adulta.

Sobre o aborto vale ressaltar que, apesar de não ter uma opinião formada, acho o aborto tardio (7, 8 meses de gestação) um absurdo – é algo desumano, para dizer o mínimo. Vale ressaltar também que na prática o aborto no Brasil já é liberado. Qualquer mulher que disser que foi estuprada consegue interromper a gravidez, não precisa nem de boletim de ocorrência.

Para finalizar, é claro que o aborto não foi o único fator na redução da criminalidade nos EUA – o endurecimento das penas também teve o seu papel. Como brincou John J. Dilulio, “aparentemente é preciso ter PhD em criminologia para duvidar de que manter criminosos na cadeia reduz a criminalidade”.

* Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook por Conrado Abreu.

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