Novas perspectivas no movimento estudantil brasileiro

Na divertida – e elucidativa – obra Técnicas Avançadas de Sobrevivência na Universidade, de Leo Monasterio, ao discorrer sobre o movimento estudantil, ele recomenda:

“Frequente o DCE se você tiver dois interesses: maconha e sexo com pessoas de hábitos de higiene pouco rigorosos. […]

Politicamente, os DCEs ocupam o espectro político entre a extrema esquerda e a esquerda-que-perdeu-o-senso-de-realidade. Os que se dizem independentes geralmente não o são; são facções de partidos ou grupos que querem novos membros. […]

Certos DCEs perdem o senso de importância e passam a discutir a questão da Palestina e votam moções contra o imperialismo yankee durante as reuniões. Imaginem o impacto na Casa Branca quando eles souberem disso!”

A fala de Monasterio se baseia na racionalidade que é não se envolver no movimento estudantil: deixar de estudar para integrar grupos de militantes de esquerda – que geralmente são linhas auxiliares de partidos e sindicatos aparelhados – para pouco (geralmente nada) influir no destino da instituição de ensino não parece muito conveniente para quem está preocupado com estudos, estágio e “a vida real”. No entanto, essa perspectiva tem mudado e, talvez, não se envolver minimamente no movimento estudantil passou a ser um verdadeiro “tiro no pé”.

Explico. Em maio de 2015, escrevi um texto para este Instituto Liberal falando sobre o aparelhamento do movimento estudantil brasileiro por parte de partidos e sindicatos. Por meio de uma engajada militância universitária, eles ocupam espaços e promovem sua agenda ideológica nas universidades, eventualmente influenciando grades curriculares de cursos, impedindo determinados debates e endossando movimentos grevistas. O tripé acadêmico – basilado pelo ensino, pesquisa e extensão– não é prioridade para esses grupos, fazer política sim.

Leia também:  Série Heróis da Liberdade: Adam Smith

Omitir-se do movimento estudantil, dessa forma, é uma postura que a priori parece racional. A maioria das eleições para DCEs tem menos que 10% da participação dos alunos, demonstrando que o ME, na verdade, não representa ninguém. Todavia, todos sempre sentem os efeitos devido à atuação desses grupos. As invasões de prédios conduzida e/ou estimulada por eles no ano passado, ocasião em que protestavam contra a PEC do Teto, apenas para citar um exemplo, atrasou o calendário acadêmico de várias instituições de ensino, prejudicando a vida de milhares de alunos.

É latente que há um cansaço do movimento estudantil tradicional, criando-se um ambiente favorável a mudanças no âmbito universitário. Assim, a política estudantil, historicamente dominada por diferentes cinquenta tons de vermelho, tem dado lugar a grupos liberais que desafiam essa realidade.

Dentro desse panorama, o Grupo Opção DCE Ufes é um dos inúmeros exemplos que surgiram nos últimos anos. Fundada em 2016, é norteada pelo propósito de criar uma universidade mais inovadora, criativa e científica, buscando construir uma cultura empreendedora, rompendo com o paradigma anticapitalista que ainda predomina nas universidades brasileiras.

Leia também:  O verdadeiro desafio pós dia 28

Naturalmente, a organização é boicotada pelo movimento estudantil tradicional. Lamentável exemplo ocorreu no início do mês, ocasião que foram proferidas ofensas racistas ao estudante Breno Panetto, um dos líderes da Opção – e que é negro.

A esquerda apenas defende as minorias quando elas endossam seu discurso autoritário. O movimento estudantil tradicional somente fala de tolerância até o momento em que se discorda dele. Desafiá-los é, certamente, tornar-se um alvo.

Outro exemplo dessa postura da oposição foi o fato de o grupo ser apelidado pejorativamente de “Chapa de Paulo Hartung”, governador do ES e um dos principais alvos da esquerda capixaba por sua postura propositiva frente a necessidade de ajuste fiscal. A ideia da esquerda é equiparar o grupo aos outros já existentes, afirmando que a Opção é tão política quanto os coletivos estudantis de esquerda já existentes, sendo “apenas com o sinal trocado”.

Contudo, em dissonância a essa idéia, em setembro, a Opção organizou evento sobre a crise política brasileira e um dos convidados para o debate foi o Deputado Estadual Sérgio Majeski, principal opositor ao governo de Hartung.

Ao mesmo tempo, o grupo também promoveu evento com representantes da Secretaria de Segurança do Espírito Santo a fim de analisar a segurança na universidade, uma das questões que mais atrapalham os estudantes capixabas. Assaltos são comuns nos campi, além de casos de tentativa de estupro e, recentemente, a universidade foi palco para um homicídio de uma médica que atuava no Hospital Universitário.

Leia também:  Série Heróis da Liberdade: Golda Meir

Diante dessa realidade, uma das principais pautas da Opção é que o estudante deve se preocupar em estudar, e o poder público em promover a segurança para os alunos se ocuparem apenas com esse fim.

Ao convidar tanto membros do governo estadual, quanto seus opositores para debater pautas relevantes para a universidade, a Opção mostra o que espera ser a nova tendência do movimento estudantil: uma sincera preocupação com o debate de ideias preocupadas com a universidade, e não com o que acontece em Brasília ou na Palestina, rompendo com o que vimos nas universidades nas últimas décadas, que foi bem descrito por Monasterio.

Você, estudante que me lê, não deveria se omitir de replicar casos como da Aliança da Liberdade (UnB), da Libertas (UFSM) e da Opção (Ufes) em sua universidade. Se quem está preocupado em estudar não se engajar para endossar essas novas perspectivas, a esquerda-que-perdeu-o-senso-de-realidade continuará dominando o espaço universitário e te atrapalhando de perseguir seus sonhos.

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!