MBL versus Doria: as absurdas regras contra os aplicativos de transporte

Apenas alguns meses atrás, o prefeito de São Paulo, João Doria, era sensação em manchetes e publicações nas redes sociais. O Movimento Brasil Livre divulgava suas manifestações e apoiava sua retórica na campanha eleitoral, além de membros atuarem na equipe do governo municipal. Nos últimos tempos, entretanto, um evidente estremecimento nas relações tem sido observado, simultaneamente à desaparição do nome de Doria dos holofotes que até então o apontavam como uma espécie de esperança nacional.

Sem qualquer hipocrisia, acreditamos que todas as forças políticas que sinalizassem para um direcionamento mais sensato e liberal na condução dos rumos pátrios mereciam que os movimentos liberais e conservadores as observassem com alguma atenção. Não estamos – há décadas! – com fartura de opções para rechaçar a priori quaisquer esforços nesse sentido, ainda que provenientes de tendências ou partidos distintos. Não queremos seguir certa onda de condenar o MBL por ter encorajado a retórica mais firme e as sinalizações mais liberais de Doria àquele momento. O mesmo MBL divulga até hoje ideias e declarações de diferentes pré-candidatos, de Bolsonaro a Amoêdo, quando conversam com alguns dos princípios de sua plataforma e com algumas das causas que estiver defendendo e isso precisa, por justiça, ser ressaltado.

Porém, é notório que Doria nunca foi um conservador nem um liberal clássico e jamais se declarou assim. É e sempre se disse um social democrata – com uma concepção até então supostamente mais liberalizante, privatizante e modernizante na economia, mas um social democrata. A social democracia, como uma erva daninha, costuma frutificar nas horas mais ingratas e soprar a mácula do estatismo esclerosado no seu hospedeiro quando menos se espera.

Foi o que se viu no caso da resolução nº 16 sobre os aplicativos de transporte como o Uber, publicada no Diário Oficial em dezembro passado. Houve outras derrapadas graves de Doria, mas esse foi o grande estopim do afastamento. Foi o que motivou o MBL a espalhar cartazes no centro de São Paulo acusando João Doria de ser “João Desempregador” e levar 50 mil motoristas de aplicativos a perder seus empregos. Doria, segundo o jornal O Povo, pretenderia multar o movimento pela atitude.

Vejo certa lógica no argumento de Paulo Mathias, integrante do MBL e prefeito regional de Pinheiros, distrito da cidade de São Paulo, de que seus colegas de movimento erraram ao espalhar os papeis. Recordando as críticas que costumam ser feitas a “santinhos” de políticos e ao quanto os diferentes partidos “sujam” as cidades brasileiras para fazerem valer suas candidaturas, parece razoável discutir o método usado pelo MBL para protestar.

O que, por outro lado, não se deveria discutir é que a resolução da prefeitura, aprovada por Doria, é muitíssimo mais absurda. Poderíamos amenizar a crítica  se ela fosse acerca de vícios estatizantes em determinadas áreas mais sensíveis, coerentes com a auto rotulação “social democrata” de Doria, sem afrontar completamente os contornos liberalizantes que pretendeu assumir – afinal, política é a arte do possível. A maioria das regras impostas a aplicativos como o Uber, porém, não é admissível e não tem a menor razoabilidade; são regras essencialmente contraditórias se comparadas ao discurso que o prefeito vinha adotando.

Tivemos a oportunidade de ver até esquerdistas da mais nefasta espécie defendendo mais liberdade para o Uber nos momentos em que a discussão sobre o assunto esteve mais intensa, como se uma espécie de apelo pragmático instintivo os chamasse à razão nesse tópico específico; já Doria e todos aqueles poucos que bizarramente apoiam essa determinação (sim, eles existem, e provavelmente vão comentar este artigo) parecem estar ouvindo demais os Stálins bêbados que se ocultam em seus corações socialistas mais ou menos enrustidos.

Além de carteira de habilitação profissional e atestado de antecedentes sem condenação (controle que é feito pelo próprio Uber, porque obviamente não interessa à empresa que seus passageiros sejam agredidos ou vítimas de crimes no serviço), o motorista em São Paulo precisa, de acordo com o regulamento novo, ser aprovado em um curso de treinamento. O que precisa ser ensinado nesse maravilhoso curso concebido pelo Estado para catapultar a qualidade do serviço dos malvados motoristas empregados pelo terrível mercado?

Mecânica, primeiros socorros, diversidade e igualdade sexual, gentileza e respeito. Diversidade e igualdade sexual! Gentileza e respeito! Só o que faltava: o motorista tem que ser adestrado para que o Estado o reconheça como um gentleman ou uma espécie de ursinho carinhoso pós-moderno encaixado na cantilena do politicamente correto. É muita fé irracional na burocracia; feito um curso e decretada a chancela estatal, pronto! Magicamente, o sujeito terá modos e será mestre em etiqueta! Exatamente como foi feito com todos os taxistas (só que não), contemplados com as mais iluminadas regulações, que se transformaram em São Francisco de Assis graças ao antigo peso da mão abençoada do Estado sobre o seu trabalho.

Não para por aí. Doria está interessado também em definir como o motorista deve se vestir. Ele deve usar roupa social ou esporte fino. Nada de camisa de time ou clube (imagina se o sujeito usa uma camisa de um time que o passageiro detesta, não é mesmo? Os paulistas precisam do Papai Doria para protegê-los dessa situação desagradável!), calça de moletom, regata ou chinelo de dedo. Vamos manter a finesse, por favor!

É risível. A conclusão se impõe: o MBL pode até ter errado no instrumento de que se utilizou, mas o fundamento da crítica está absolutamente correto. Uma atitude como essa prova que Doria “perdeu o bonde” da História, sem grandes chances de retomá-lo.

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Leia também:  Minha opinião sobre o discurso de Bolsonaro em Davos